Kassab joga holofote no 'voto de farda'

Nomeação de coronéis como subprefeitos e Operação Delegada dão fôlego para PMs serem assediados por partidos e disputarem voto

FELIPE FRAZÃO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h02

Duas iniciativas da administração Gilberto Kassab (PSD) na Prefeitura de São Paulo colocaram os militares em voga novamente no cenário político municipal e vão fomentar a disputa pelo voto de farda nas eleições de outubro. E não só entre os candidatos a prefeito. Sinal disso, é que dois ex-comandantes da Polícia Militar estão cotados para vereador.

A nomeação de coronéis da reserva para comandar 30 das 31 subprefeituras e a assinatura da Operação Delegada, convênio entre município e Estado que autoriza policiais a trabalhar em horário de folga, não só agradaram a corporação como aproximaram Kassab e seus aliados da PM.

"O comentário geral é que a tropa gosta muito da Operação Delegada. Não sei como vai ser nas eleições, mas agrada a todo mundo", diz o coronel Marcos Chaves, do Comando de Policiamento da Capital (CPC). A opinião é compartilhada pelo presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, cabo Wilson Morais. No entanto, ele diz que a entidade não definiu que candidato vai apoiar para a Prefeitura.

De olho nos PMs satisfeitos com Kassab, até os pré-candidatos de oposição elogiam a Operação Delegada, apelidada de bico oficial. Em paralelo, militares que pretendem se lançar a vereador também a usam como bandeira de campanha. Sem contar os votos de familiares e amigos dos policiais, estão em jogo na capital paulista quase 30 mil votos - número estimado do efetivo da PM que trabalha na cidade e pode fazer o bico oficial.

"Acho ótima e sou favorável. Tem que ampliar para Polícia Civil e também valorizar a Guarda Civil Metropolitana", diz o deputado Gabriel Chalita (PMDB).

"É um mecanismo interessante a ser explorado. Mas não precisa desmotivar a GCM", diz o petista Fernando Haddad.

O discurso é semelhante ao do presidente do sindicato da GCM, Carlos Augusto Sousa Silva, pré-candidato a vereador do PT. Opositor de Kassab e José Serra (PSDB), ele diz que participar da Delegada agradaria a GCM. Uma proposta de bico oficial para os guardas espera votação na Câmara Municipal.

O convênio da Delegada termina em novembro. Pelo contrato, policiais são autorizados a fazer bico para a Prefeitura em horário de folga - para particulares é proibido. Patrulham ruas em grupos fardados e têm benefícios trabalhistas e pagamento extra.

"Vamos dar força para a Operação Delegada. Tem um papel complementar ao da GCM, que também é muito importante", diz Serra, que era governador quando o convênio foi assinado.

Câmara. Dada como certas, as candidaturas a vereador dos coronéis Álvaro Batista Camilo (PSD), ex-comandante-geral da PM, e Paulo Telhada (PSDB), ex-comandante da Rota, testarão a influência deles sobre a tropa, mesmo depois de aposentados.

Camilo ainda não confirma a candidatura. Telhada, sim. "De zero a dez, a chance é nove", diz Kassab, sobre a possibilidade de Camilo disputar a eleição. A aproximação começou com a indicação de coronéis para subprefeituras - para tentar blindar a corrupção nas unidades.

A nomeação é criticada por opositores e pré-candidatos de PT e PMDB. Desde 2008, já são 101 militares da reserva só na Secretaria de Coordenação das Subprefeituras. Fora do expediente, os coronéis podem virar cabos eleitorais de Kassab.

"Como pessoa, a gente tem liberdade para indicar alguém para um amigo, em favor de algum candidato ou outro", afirma o subprefeito da Sé, coronel Nevoral Alves Bucheroni, que administra a mesma região há dois anos e seis meses. "Como subprefeito, não posso fazer campanha para ninguém. Mas se estou filiado ao PSD e tem um candidato do partido, é lógico que, quando puder, numa reunião com amigos, vou indicar. Mas não é nada dirigido ou orquestrado." / COLABORARAM BRUNO BOGHOSSIAN, ISADORA PERON E RICARDO CHAPOLA

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