Justiça do DF quebra sigilos da Delta no País e bloqueia bens de Cachoeira

Decisão foi tomada a partir de grampos que mostraram atuação da organização criminosa para controlar contrato de bilhetagem eletrônica de ônibus

RICARDO BRITO, MARIÂNGELA GALLUCCI / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h05

A Justiça do Distrito Federal decidiu quebrar o sigilo bancário e fiscal da Delta Construções na semana em que a empreiteira, às voltas com as investigações da Polícia Federal e da CPI do Cachoeira, foi adquirida numa negociação que gera polêmicas, sem aporte de recursos financeiros, pela holding J&F Participações, controladora do frigorífico JBS.

A decisão também atingiu o ex-diretor da construtora no Centro-Oeste Cláudio Abreu, o contraventor Carlinhos Cachoeira e outras seis pessoas, que tiveram os bens bloqueados. A base da decisão judicial são as suspeitas de irregularidades investigadas pelo Ministério Público local no contrato de licitação para o serviço de bilhetagem eletrônica dos ônibus no Distrito Federal.

A Receita Federal e os bancos nos quais a empreiteira e os demais envolvidos são correntistas em todo o País terão de apresentar informações do Imposto de Renda e extratos das movimentações bancárias desde 2009. A medida é um desdobramento da Operação Saint-Michel do MP, que levou Cláudio Abreu à prisão no final do abril e culminou na denúncia dos acusados por formação de quadrilha, tráfico de influência por corrupção e fraudes em processo.

A CPI do Cachoeira já havia decidido quebrar os sigilos bancário, fiscal e telefônico do contraventor. Na sexta-feira, a defesa dele recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para adiar o depoimento à comissão, marcado para a próxima terça-feira, com o argumento de que não teve acesso às provas e documentos contra Cachoeira.

O MP acusou o contraventor e dois ex-diretores da Delta de comandar uma operação para direcionar o contrato de bilhetagem no DF, que movimentaria R$ 60 milhões por mês.

Coube a Abreu pagar Valdir dos Reis, lobista encarregado de azeitar o negócio na Secretaria de Transportes. Sob as orientações de Heraldo Puccini Neto, executivo da empresa em São Paulo, a própria quadrilha elaborou projeto básico e edital para a licitação. Puccini Neto está foragido da Justiça.

Ex-assessor da Secretaria de Planejamento do DF, Reis teria sido cooptado pela quadrilha para cuidar de seus interesses no governo Agnelo Queiroz (PT). Mesmo exonerado do cargo em 31 de dezembro de 2010, ele tinha crachá em 2011 e, segundo a denúncia, circulava livremente no Palácio do Buriti, que abriga a Secretaria de Transportes.

Numa das escutas, Cachoeira ordena que Geovani Pereira da Silva, apontado como o contador da organização, pague R$ 50 mil a Reis. O valor foi depositado na conta do ex-servidor pela Adécio e Rafael Construções e Incorporações, uma das empresas do esquema, que, segundo o MP, existiria apenas de fachada para lavagem e pagamento de recursos. Onze dias depois, Reis conseguiu reunião do secretário de Transportes do DF, José Walter Vasquez, com "membros da organização criminosa".

A Delta tinha interesse em comprar software para operar a bilhetagem no DF. A partir do encontro, diz a denúncia, a quadrilha de Cachoeira começou a elaborar o edital de licitação, direcionado à Delta. A denúncia cita suposta negociação, revelada pelo Estado, entre a quadrilha e o servidor do DFTrans Milton Martins Júnior, que está afastado do cargo.

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