Júri condena ex-deputado a 103 anos

Acusado de matar a deputada Ceci Cunha e familiares dela, há 13 anos em Alagoas, Talvane Albuquerque recorrerá preso em cela especial

TIAGO DÉCIMO , ENVIADO ESPECIAL / MACEIÓ, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h06

O ex-deputado alagoano Talvane Albuquerque Neto foi condenado ontem, em Maceió, a 103 anos e quatro meses de prisão como mandante do assassinato da deputada Ceci Cunha e de três de seus familiares - o marido, Juvenal Cunha da Silva, a sogra, Ítala Neyde Maranhão Pureza e o cunhado, Iran Carlos Maranhão Pureza. O crime, cometido em 16 de dezembro de 1998, ficou conhecido como Chacina da Gruta.

Os quatro assessores e seguranças de Talvane, acusados de serem os executores da chacina - Alécio César Alves Vasco, Jadielson Barbosa da Silva, José Alexandre dos Santos e Mendonça Medeiros da Silva -, também foram condenados. Somadas, as penas chegam a 476 anos.

O júri, formado por sete homens, acolheu a tese da acusação de que Talvane, suplente de Ceci Cunha na Câmara dos Deputados, planejou o crime para herdar o cargo.

"É uma pessoa egoísta, desprovida de sensibilidade e antiética, que não vê na vida humana valor maior do que seus interesses pessoais", disse ontem o juiz federal André Luís Granja ao pronunciar a sentença.

Segundo o magistrado, Talvane "tem alma talhada para o crime e não possui qualquer pudor moral". "O condenado queria a vaga na Câmara dos Deputados para obter vantagens ilícitas."

Ceci Cunha, que havia sido eleita pelo PSDB, foi morta logo após ser diplomada como deputada federal, durante uma comemoração em família na casa de sua sogra. Para o júri, as outras vítimas foram executadas para que não houvesse testemunhas do crime.

O ex-deputado e seus assessores foram considerados culpados por homicídio duplamente qualificado - por motivo torpe e sem possibilidade de defesa para a vítima -, no caso de Ceci, e triplamente qualificado nos das demais vítimas.

Jadielson e José Alexandre receberam as maiores penas, 105 anos de prisão cada, por terem atirado nas vítimas. Alécio, condenado a 87 anos e três meses, e Mendonça, sentenciado a 75 anos e sete meses, receberam penas menores porque os jurados entenderam que eles tiveram participação "de menor importância" no crime.

O juiz também determinou que os condenados paguem R$ 100 mil por danos materiais e 500 salários mínimos por danos morais aos descendentes de cada uma das vítimas.

O magistrado ainda acolheu requerimento da acusação que pediu prisão preventiva dos acusados, caso fossem considerados culpados. Granja alegou, para a decisão, a "periculosidade" dos condenados e a "brutalidade" do crime.

"Pela violência praticada e pela repercussão que teve, este crime merecia uma resposta efetiva, que foi dada pelo Poder Judiciário e pode servir de exemplo para outros casos semelhantes", comemorou o advogado da família das vítimas, José Fragoso, após a sentença final.

Recurso. Ainda no plenário, o advogado de defesa Welton Roberto recorreu das condenações de todos os acusados. "Agora, vamos entrar com pedido de habeas corpus por causa da prisão preventiva", disse.

Talvane e seus assessores deixaram o auditório da Justiça Federal escoltados por policiais federais, encerrando uma maratona de 53 horas de julgamento. Eles foram levados diretamente para o IML, onde realizaram exames de corpo de delito.

Dali, seguiram para a carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Maceió. Talvane foi transferido depois para uma cela da Casa de Custódia de Maceió, onde permanecia separado dos outros presos. Na próxima semana os condenados deverão ser transferidos para um presídio de Maceió.

"Este julgamento é um marco pela repercussão que o crime teve", disse o representante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), juiz auxiliar Nicolau Lupianhes Neto

O governador alagoano, Teotonio Vilela Filho (PSDB), também comentou a condenação dos acusados. "Os crimes de mando estão sendo investigados. Quem mata ou manda matar vai pagar por isso."

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