Julgamento de Ceci Cunha comove sociedade alagoana

Irmã da deputada e sobrevivente da chacina reconheceu o réu Jadielson Barbosa como um dos assassinos

TIAGO DÉCIMO , ENVIADO ESPECIAL / MACEIÓ , O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2012 | 03h01

A sociedade alagoana parou para acompanhar o histórico julgamento do assassinato da deputada federal Ceci Cunha e de seus familiares, iniciado ontem, na capital do Estado, 13 anos após o crime conhecido como Chacina da Gruta. Além da deputada, foram assassinados o marido dela, Juvenal Cunha, a sogra, Ítala Neyde Maranhão Pureza, e o cunhado, Iran Carlos Maranhão.

No fim de semana, familiares e amigos de Ceci Cunha distribuíram folhetos nas praias da cidade, informando sobre a realização do julgamento, que teve início ontem no Auditório Ministro Pedro Acioli, na sede do Tribunal Federal em Maceió.

Segundo o Ministério Público Federal, o ex-deputado federal Talvane Albuquerque Neto foi o mandante da chacina, que teria sido executada por quatro de seus assessores e seguranças, Alécio César Alves Vasco, Jadielson Barbosa da Silva, José Alexandre dos Santos e Mendonça Medeiros da Silva.

De acordo com os promotores, liderados por Gino Sérvio Malta Lobo, Talvane Albuquerque teria mandado matar Ceci Cunha, em 16 de dezembro de 1998, para herdar o mandato dela na Câmara.

Um forte esquema de segurança, com policiais federais e estaduais, integrantes da Força Nacional e seguranças da própria Justiça Federal foi montado para monitorar os visitantes.

Julgamento. A escolha dos sete jurados deu início à sessão. Os advogados de defesa dos cinco acusados optaram por vetar integrantes do sexo feminino e os mais jovens que eram sorteados pelo juiz federal André Luís Maia Tobias Granja. A acusação não fez restrições. Todos os jurados aprovados são homens, aparentando mais de 40 anos.

Estavam previstos depoimentos de 20 testemunhas. Mas apenas sete, três de acusação e quatro de defesa, foram ouvidas. Duas alegaram problemas de saúde para não comparecer e as demais foram dispensadas.

O depoimento mais esperado, o da irmã de Ceci e sobrevivente da chacina Claudinete Santos Maranhão, de 41 anos, deu início à sequência. Ela reafirmou que as vítimas estavam junto com ela na varanda da casa de Ítala quando dois homens entraram, um deles armado com revólver. Disse que conseguiu ver um dos assassinos - Jadielson Barbosa da Silva - e que se escondeu dentro da casa, logo depois de Ítala ser baleada.

Claudinete também contou ter ouvido, dos atiradores, a frase "a deputada é esta". Incentivada pelo juiz, identificou Jadielson, apontando para ele. Disse, porém, não ter condições para identificar os outros acusados.

Em seguida, prestou depoimento o soldado reformado da PM, José Jorge Farias de Melo, que contou ter sido contratado por um homem, chamado Maurício Guedes, o Chapéu de Couro, supostamente a mando de Talvane, para assassinar outro deputado recém-eleito pela coligação, Augusto Farias. O crime teria dado errado por Farias ter descoberto o plano. O acusado, então, teria decidido matar Ceci.

A terceira testemunha de acusação foi José Luiz dos Santos, porteiro do condomínio onde mora Talvane. Ele contou que os outros acusados costumavam visitar o então deputado.

Três das testemunhas de defesa, Edmilson Gomes de Novaes, Aloísio Mendes de Souza e José Roberto Souza Veras relataram ter visto ou encontrado um dos acusados, José Alexandre dos Santos, em uma praça de Arapiraca no horário aproximado do crime. A quarta, o capitão da PM George Pereira Silva, não confirmou ter encontrado o acusado, mas que esteve com um irmão dele.

O julgamento entrou em recesso no final da tarde e foi reiniciado à noite. O primeiro réu a depor foi José Alexandre dos Santos. O depoimento durou três horas e meia. Ele chorou e alegou inocência. Disse que estava em outro município quando houve o crime. Sua confissão de participação na chacina, afirmou, teria sido fruto de tortura por policiais federais. A expectativa do juiz é que a decisão do júri seja conhecida amanhã.

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