Juíza diz ter discutido com investigado pela PF

Destinatária de suposta ameaça relatou 'pequeno desentendimento' com Paulo Hamilton, magistrado do TRE suspeito de ter inventado sequestro

Fausto Macedo - O Estado de S.Paulo

24 Junho 2013 | 02h02

A juíza Clarissa Campos Bernardo, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo, declarou à Polícia Federal que teve "um pequeno desentendimento" com seu colega de corte, o juiz Paulo Hamilton Siqueira Junior - supostamente sequestrado a um mês das eleições de 2012, segundo ele próprio contou à PF. Investigações, porém, levam a polícia a acreditar que Siqueira Junior teria inventado a história. Ele nega.

Clarissa disse que permaneceu afastada de suas atividades no tribunal por um período e que, nessa ocasião, os processos de seu gabinete ficaram sob responsabilidade de Siqueira Junior. A juíza afirmou que, quando retornou às funções, "acabou tendo um pequeno desentendimento com o dr. Paulo face a problemas de prazos questionados em alguns processos junto à ouvidoria do órgão (TRE-SP)".

As informações constam do depoimento da juíza Clarissa Bernardo à Polícia Federal - datado de 9 de outubro do ano passado - nos autos do inquérito aberto para investigar a versão de Siqueira Junior, que alega ter sido alvo de sequestro relâmpago na noite de 5 de setembro de 2012, nos Jardins, zona sul da capital. Segundo o juiz, dois homens o obrigaram a postar uma correspondência numa caixa dos Correios que, dias depois, chegou para o próprio juiz e também para Clarissa.

O juiz afirmou que os dois homens que o abordaram estavam em uma moto. Um deles teria entrado em seu carro e o obrigou a seguir até a Rua Haddock Lobo, onde foi obrigado a postar a correspondência. Relatório da PF afirma que não houve sequestro - mas o documento não aponta os motivos que teriam levado Hamilton Siqueira Junior a inventar a história.

Alguns dias depois, chegaram cartas ao juiz e a Clarissa. Ambos são advogados e ocupam cadeiras da classe jurista, destinadas exclusivamente à advocacia. Na quinta-feira, expirou o mandato de dois anos de Siqueira Junior como substituto. Clarissa Bernardo é titular há quatro anos. As cartas traziam ameaças e ofensas aos destinatários. À Polícia Federal, Clarissa disse que "algo lhe chamou a atenção" nas cartas. "Os bordões utilizados (nas cartas), ou seja, 'cada caso é um caso' e 'sejam felizes', são costumeiramente utilizados por Paulo Hamilton", declarou a magistrada.

Disputa. A juíza contou que concorreu com Hamilton Siqueira Junior e uma terceira pessoa, em lista tríplice, à indicação para a titularidade de uma das vagas no TRE-SP. Clarissa acabou indicada. Ela relatou que houve demora para sua nomeação como titular da cadeira. Foi nesse período que permaneceu afastada das atividades no tribunal e os processos de seu gabinete ficaram sob condução de Siqueira Junior.

Clarissa disse à Polícia Federal que, dias depois de ter ouvido de Siqueira Junior a história do sequestro, recebeu a correspondência. E que o juiz esteve em sua sala com uma pasta de plástico. Solicitou a ela que "colocasse a correspondência recebida dentro da pasta".

A juíza narrou à PF que naquela pasta "já se encontrava outra correspondência, acreditando ser a correspondência recebida por Hamilton". Segundo a magistrada, o juiz disse que iria colocar a pasta "em um cofre". Declarou ainda que as cartas foram entregues à Polícia Federal "dois ou três dias" depois.

Os peritos da PF não acharam digitais nas cartas. Informação técnica do Núcleo de Identificação da Polícia Federal em São Paulo, subscrita pelo papiloscopista Maurício Milan Augusto, destaca que "não foram encontrados fragmentos de impressões papilares com condições técnicas para se proceder ao exame de confronto papiloscópico".

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