Jovens protestam contra torturadores

Manifestações ocorreram em oito capitais; em São Paulo, grupo pregou faixas na frente da empresa do ex-delegado David dos Santos Araújo

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2012 | 07h42

De surpresa, às 10h30, eles surgiram de diferentes pontos da movimentada Avenida Vereador José Diniz, na zona sul de São Paulo, e se concentraram diante da sede da empresa de segurança Dacala, no número 3.700. A seguir, com a ajuda de um carro de som, tambores e cartazes, organizaram em minutos um barulhento protesto contra o dono da empresa, o delegado de polícia David dos Santos Araújo, hoje aposentado.

Eram quase 100 pessoas, na maioria universitários, ligadas ao movimento Levante Popular da Juventude. O objetivo era expor e constranger publicamente Araújo, apontado pelos manifestantes como um dos mais ativos torturadores nos porões da ditadura militar, onde atuava sob o codinome de Capitão Lisboa, na década de 1970.

Em depoimentos de ex-presos políticos recolhidos no livro Direito à Memória e à Verdade, editado pela Secretaria de Direitos Humanos, Araújo é apontado como um dos responsáveis pela morte, sob tortura, do militante de esquerda Joaquim Alencar de Seixas, em 1971.

"Há um assassino e estuprador à solta na vizinhança", dizia um panfleto distribuído durante o ato. "David dos Santos Araújo prendeu, torturou, estuprou, matou presos políticos que, na ditadura militar, lutavam pela liberdade", afirmou ao microfone a estudante Lira Alli.

Pelo chão foram pichadas frases como "aqui trabalha um torturador" e "torturadores, aguardem". Dois funcionários da empresa, que não quiseram se identificar, disseram ao Estado que Araújo não se encontrava no edifício, que tem ares de fortaleza.

Em menos de uma hora o grupo se dissolveu, de maneira pacífica, com os organizadores satisfeitos com o resultado do ato. Também comemoraram o resultado de manifestações semelhantes que ocorreram em outros pontos do País.

Outras capitais. Em Belo Horizonte, cerca de 70 jovens se reuniram diante da casa do policial Ariovaldo Hora e Silva, acusado de torturar presos políticos. Foram distribuídos panfletos para os vizinhos, com acusações contra o aposentado. Ele apareceu rapidamente na janela de casa, mas se recusou a fazer comentários.

Em Porto Alegre, o protesto ocorreu diante da casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Tanto Silva quanto Araújo atuavam no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que esteve sobre o controle dos órgãos de inteligência do Exército durante a ditadura. O dono da Dacala chegou a ser condecorado com a Medalha do Pacificador, concedida pelo Exército.

Também ocorreram manifestações em Curitiba, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belém e Aracaju. De maneira geral, seguiram um modelo de tática adotada na Argentina no início da década passada, conhecida como escrache e que consistia na exposição pública de policiais e militares envolvidos com atos de violação de direitos humanos no período da ditadura militar.

O Levante Popular foi criado em 2006, no Rio Grande do Sul. Só este ano, porém, ganhou caráter nacional. Reúne líderes estudantis, de movimentos de sem-terra e organizações da periferia urbana. Destina-se sobretudo a ações de impacto. "Nossa identidade é a luta", resumiu o Caio Santiago, um dos porta-vozes do grupo. / COLABORARAM: MARCELO PORTELA e ELDER OGLIARI

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