José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

José Machado abre os olhos, mas se ressente da disputa eleitoral

Petista de carteirinha, caminhoneiro que virou personagem importante da campanha paulistana passa por cirurgias de pterígio e também de catarata

Julia Duailibi - O Estado de S.Paulo,

30 de dezembro de 2012 | 02h08

No dia 13 de dezembro, num hospital conveniado à rede pública municipal de saúde, na zona leste paulistana, o caminhoneiro José Machado, 67 anos, foi submetido a uma cirurgia de catarata no olho esquerdo. Ao deixar o centro cirúrgico, acompanhado pela mulher e usando óculos escuros, o aposentado afirmou sentir um pouco de dor, mas disse estar animado com a perspectiva de voltar a enxergar bem logo.

A cirurgia de dezembro é um dos capítulos finais de uma história que teve Machado como personagem central e que começou na campanha municipal deste ano em São Paulo. O caminhoneiro foi levado para o centro do embate após aparecer no programa eleitoral na TV do então candidato do PT, Fernando Haddad, eleito prefeito, no qual dizia esperar dois anos para fazer uma cirurgia de catarata.

Dias depois, a gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), aliado do candidato tucano José Serra, foi a público tentar desmentir Machado. Para isso, divulgou dados de seu prontuário médico que, por direito do paciente, são sigilosos. Ele não tinha catarata, afirmou a Prefeitura, e sim pterígio, um crescimento do tecido sobre a córnea.

No fogo cruzado promovido por tucanos e petistas a respeito da saúde pública na cidade, o caminhoneiro acabou tendo um pedaço da sua história contado pelo PT, e outro pela Prefeitura. De um lado, Haddad usava o episódio para criticar Kassab e Serra, seu padrinho político. De outro, o tucano afirmava que o adversário havia levado uma história inverídica para a TV.

Mais de quatro meses depois de dar seu depoimento à campanha petista, Machado não se diz aliviado, mesmo vendo comprovada sua versão de que sofria também de catarata, além do pterígio divulgado oficialmente pela Prefeitura - o caminhoneiro já realizou cirurgia no olho esquerdo e será operado no olho direito, provavelmente nos próximos 60 dias, num instituto conveniado ao município.

Machado afirma que a evolução do caso não apaga o que passou na última semana de agosto. "Homem que é homem não chora. Mas a gente fica chateado. As pessoas falavam: 'Mentiroso'", contou ao receber o Estado na semana passada na casa onde vive numa encosta da Cidade Tiradentes com vista para o mar de cimento e tijolo da zona leste. Lá, onde mora com a mulher e planta banana, café e laranja, Machado lembrou das semanas de fogo cruzado.

Sigilo. Três dias depois de sua declaração no programa de Haddad, no final de agosto, a Secretaria Municipal de Saúde acessou o prontuário médico de Machado na Unidade Básica de Saúde (UBS) Guaianases 1 e no ambulatório de especialidades Jardim São Carlos. Divulgou a jornalistas a informação de que ele não sofria de catarata, mas apenas de pterígio. Serra e Kassab criticaram o depoimento do caminhoneiro ao programa do PT: além de ele não ter catarata, alegavam que não havia fila para o tratamento da doença na rede municipal.

No mesmo dia em que as informações sobre seu prontuário circulavam, Machado disse ter recebido telefonemas de funcionários da área de comunicação da secretaria e do Instituto Cema, onde esperava havia meses para marcar a consulta e fazer exames - o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu sindicância para apurar a divulgação dos dados, mas o processo ainda está em andamento.

"Uma menina da Secretaria da Saúde ligou. Ela não se identificou, mas disse que eu não tinha catarata, que tinha acessado meu prontuário, e que eu tinha pterígio. Eu falei: 'Tenho provas do que disse'", contou. Pouco depois, lembra Machado, ligaram do Cema. "O moço perguntou qual era o problema. Eu disse: 'Catarata'. Ele falou: 'Tá marcado seu exame para amanhã'", contou.

A exposição de Machado no programa do PT lhe rendeu a consulta na mesma semana. Com rapidez e "tratamento vip", ele foi recebido pela direção do instituto. Foi acompanhado pelo vereador Carlos Neder (PT), ex-secretário de Saúde de Luiza Erundina, que, segundo Natalices, mulher de Machado há 37 anos, é "muito amigo da família".

"Estávamos acompanhados de um vereador do PT para ele nos orientar", afirma Machado. Segundo o relato do caminhoneiro, durante a consulta os integrantes do hospital pediram a ele que o nome da instituição não aparecesse mais nos jornais e avisaram que a sua operação de fato seria realizada logo.

O casal também disse que lhes foi solicitado assinar um documento no qual se comprometeriam a não dar informações sobre as consultas. Ambos recusaram. Dias depois veio a hipótese de diagnóstico, que foi repassada para a campanha do PT. O Estado publicou o resultado dos exames mostrando que ele tinha catarata, como diziam os petistas, além de pterígio, como afirmava a Prefeitura.

Filiação. Kassab questionou o atendimento que o caminhoneiro disse ter recebido na rede pública ao afirmar que Natalices, 58 anos, fazia parte do conselho gestor daquela UBS. Para o prefeito, portanto, seria pouco provável que o caminhoneiro não tivesse recebido o tratamento adequado na unidade.

A mulher de Machado é integrante do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde do Estado de São Paulo, ligado à CUT. Os dois são petistas de carteirinha. O caminhoneiro diz ser ligado ao partido há quatro anos, embora seja "simpatizante há muito tempo". Natalices, eleitora de Neder, conta que se filiou no mês passado. Indagada se resolveu entrar no PT após a polêmica envolvendo o marido, respondeu: "Não só por causa disso". Machado também nega ter participado do programa de Haddad para ajudar a campanha do PT.

"A questão da educação, da saúde e da moradia são os direitos fundamentais, assegurados pela Constituição. Isso foi essa jornalista que está com programa, esposa do ...". Fátima Bernardes? "É. Sempre fui muito fã dela. Na época que dava entrevista, ela falava isso", afirma o caminhoneiro, dizendo ser fã também de Joelmir Beting. "Ele falava, isso é uma vergonha", diz, sorrindo e fazendo confusão com o jornalista Boris Casoy.

Tanto o PT quanto o casal dizem que a história de Machado foi escolhida para ir ao ar depois que eles participaram de uma pesquisa sobre a situação no bairro onde vivem, em Cidade Tiradentes. As informações repassadas seriam usadas para abastecer o programa de governo de Haddad.

Arrependimento - "Para mim, foi bom porque resolvi o problema. Se não fosse assim, não conseguiria resolver. Não me arrependo, não", afirma Machado, que nasceu no Maranhão. "Única coisa que fiquei chateado é que acharam que levei dinheiro para falar para o Haddad. E não foi."

Disse que até hoje os vizinhos comentam a história. "Já acabou. Isso não vale mais nada. Mas fica aquela ferida, o pessoal falando..."

Quando a catarata avançou, Machado teve de trocar a vida de caminhoneiro pelos bicos que faz com uma caminhonete pequena, que agora fica estacionada na calçada ao lado de casa. Com ela, faz pequenos serviços, como entregas e mudanças, para complementar o salário mínimo de que recebe de aposentado. Na carteira de motorista, que vale até 2013, não consta restrição para dirigir.

Apesar de dizer que a vista ainda não está boa, é otimista. Machado quer agora voltar a dirigir caminhão. "O que eu quero é pegar uma carreta e cair na estrada", afirma. "A vida de caminhoneiro não vou deixar. Só se não enxergar mais nada", diz Machado, arregalando os dois olhos azuis.

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