Werther Santana/AE
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João Paulo 'tinha segurança da inocência', diz Jorge Lapas

Ex-vice do petista em Osasco, candidato à prefeitura elogia Lei da Ficha Limpa e afirma que políticos com ficha suja 'colocam em risco seu partido'

Felipe Frazão, de O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2012 | 06h00

A Justiça definiu o futuro do petista Jorge Lapas nas eleições. Escolhido pelo atual prefeito Emídio de Souza (PT), Lapas foi catapultado à política pelo julgamento do mensalão. O Superior Tribunal Federal condenou o deputado João Paulo Cunha (PT), de quem Lapas era vice, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato. Só então Lapas se tornou o candidato do partido.

Ex-secretário de Obras e de Governo, nunca havia disputado uma eleição antes. Recebeu 138 mil votos, contra 149 mil do adversário Celso Giglio (PSDB). O tucano, porém, foi barrado na pela Lei da Ficha Limpa (Giglio teve contas do município rejeitadas quando era prefeito, em 2004). Nesta quinta-feira, 11, o Tribunal Superior Eleitoral negou recurso de Giglio, que tentava liberar sua candidatura. Agora, a Justiça deve declarar o petista vencedor no primeiro turno.

Ao Estado, Lapas evitou comentar sobre o mensalão. Mas reconheceu que só conseguiu se projetar por causa da condenação de João Paulo, um dos deputados que trabalhava para reforçar o orçamento de Osasco com verbas federais. Sem proximidade pessoal ou política com o parlamentar, Lapas afirma que a prefeitura não depende da atuação de João Paulo na Câmara dos Deputados. Nem se prejudicará caso ele tenha o mandato cassado.

A eleição de Osasco sintetiza dois fatos políticos nacionais. A Lei da Ficha Limpa e o mensalão. Como você percebeu a opinião do eleitor nas urnas e nas ruas?

A população se preocupa com quem tem propostas para a cidade. Essas coisas de âmbito nacional normalmente não colam muito na eleição municipal. Olham o perfil do candidato, se tiver ficha suja vai pesar, e o que ele está trazendo de propostas para o futuro. Não adianta fica só falando do passado, nos louros.

Qual sua opinião pessoal sobre ficha limpa e mensalão?

Acho que a sociedade está cobrando uma decisão forte da Justiça. O projeto Ficha Limpa já saiu de iniciativa popular. E o STF está sendo rígido no processo que está julgando. Tem de ser com o Ficha Limpa também. Quem se colocou numa candidatura sabendo que tinha problema, está colocando em risco o seu partido. Deveria ter pensado no partido também, não na questão individual.

O João Paulo colocou a candidatura do PT em risco?

Ele tinha segurança da inocência. É diferente nesse sentido. E não tinha decisão, mas expectativa de ser inocentado.

Qual sua opinião sobre o julgamento do mensalão?

Essa questão de Justiça eu não opino. Acho que eles têm os argumentos deles. Decisão judicial a gente tem de respeitar.

Mas o senhor hoje é candidato, porque houve uma condenação. O senhor sente que cresceu politicamente, foi favorecido?

Não. Nem beneficiado, nem atrapalhado. Foi uma candidatura colocada e houve aceitação pelo perfil do candidato. Independentemente de uma coisa ou de outra.

Mas se não fosse o mensalão o senhor não seria o candidato, certo?

Não seria. Mas houve essa possibilidade e eu soube agregar os apoios que já tinha. Não perdi nenhum partido, as igrejas, sindicatos. Isso é crédito nosso. E aí eu tive que saber vender meu nome. Teve um esforço pessoal e o projeto da administração bem sucedida. E a oportunidade do que aconteceu. E sorte também tem de ter um pouquinho, né?

Como foi sua relação com o João Paulo enquanto vice, indicado pelo Emídio?

Relação normal de vice, com papel secundário na campanha. Mas a preocupação era que tinha esse julgamento. A preocupação do Emídio era só essa. A gente precisava continuar os projetos para a cidade, da ordem de R$ 300 milhões, sendo que a cidade tem orçamento de R$ 1,5 bilhão. A gente tinha medo que o próximo prefeito não continuasse.

Você e João Paulo se falam até hoje, têm proximidade?

Não. Ele está recolhido. É natural pela situação dele.

Como o Emídio te escolheu como candidato? Ele sempre deixou claro que você deveria ser o candidato desde o início. Mas poderia ser também o deputado estadual Marcos Martins.

Pela amizade. Eu nem conhecia o Emídio quando ele me escolheu para secretário de Obras, pelo perfil técnico. Tem assuntos que a gente nem fala. Ele achava natural eu como secretário de Governo, gestor da administração, conhecia cada secretaria e projeto, ser o sucessor dele. Pela afinidade que a gente tem. A gente pensa muito igual. Isso colaborou. Uma pessoa como o Marcos Martins é uma liderança da cidade, mas talvez não tenha a mesma empatia, afinidade de propósitos. A gente trabalhou oito anos juntos.

Caso o João Paulo seja cassado na Câmara, por causa da condenação, prejudica o governo de Osasco, já que ele intermediava verbas federais para projetos da prefeitura?

Não. Nós temos uma relação direta com Brasília. O ministro Alexandre Padilha (Saúde) é nosso amigo pessoal, veio na campanha e nos ajudou. O José Eduardo Cardozo (Justiça) veio na campanha, o Aloizio Mercadante (Educação) foi o Emídio quem coordenou a campanha dele para governador. Temos relação direta com a Dilma, a Miriam Belchior me ligou esses dias e colocou as portas abertas. Não tem problema. Os projetos de Osasco estão garantidos a continuidade. Nós não dependemos disso.

Sua votação o surpreendeu?

Fiquei contente. É resultado de um trabalho de oito anos na prefeitura. Independentemente de não ter concorrido antes, como secretário eu tinha uma relação com vereadores, lideranças da cidade. Ele já me conheciam. Foi resultado de uma aliança ampla também. A gente já governava os partidos nas secretarias. Temos ampla maioria na cidade, não só os 20 partidos, mas as igrejas, os sindicatos.

Como foi seu encontro e aproximação com Lula como candidato?

Ele estava muito animado com nosso desempenho, gravamos um DVD e distribuímos pela cidade. Ele achou que fizemos em Osasco o segundo melhor comício, só perdeu para Manaus. Ontem (quarta-feira, 10) ele me catou de canto e falou: 'você já é prefeito'. Eu disse,' calma, presidente'. Eu só o conhecia de tirar fotos. Mas teve uma empatia.

O Lula busca novos líderes, com perfil mais técnico, para o PT pós-mensalão. O governo Dilma Rousseff é exemplo disso, a candidatura de Fernando Haddad em São Paulo também. O senhor se encaixa nesse perfil?

Todo grande líder tem de se preocupar com lideranças novas. Aqui em Osasco os prefeitos que passaram não conseguiram estimular novas lideranças. Pelo contrário. Muitas vezes lançavam candidato para perder eleição. O Emídio sempre se preocupou em fortalecer lideranças novas, dentro e fora do PT. Deixou as pessoas crescerem. Essa preocupação dele nesse sentido é igual. O Emídio poderia querer abafar, mas nunca se preocupou com isso. Ele tem projetos maiores. Não quer ser prefeito de Osasco para a vida inteira.

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