'Itaú nunca bancou Marina Silva', afirma Neca Setubal
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'Itaú nunca bancou Marina Silva', afirma Neca Setubal

Acionista do banco reage a Dilma e afirma que PT 'baixa o nível da campanha' para Presidência da República

Entrevista com

Neca Setubal, integrante da campanha de Marina Silva

Sonia Racy, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2014 | 03h00

Neca Setubal, coordenadora do programa de governo de Marina Silva e acionista do Itaú, afirma que o banco de sua família nunca sustentou a candidata do PSB ao Palácio do Planalto. Diz que os recursos que a ex-ministra do Meio Ambiente usa para viver vêm de suas palestras. E lembra que Marina até participou de conferências no Itaú, mas nunca recebeu por isso. “É baixar bastante o nível da campanha”, afirma Neca, que é socióloga, numa reação à presidente Dilma Rousseff, que anteontem sugeriu que Marina é “sustentada” por banqueiros.

A petista usou o fato de Neca ter doado, como pessoa física, cerca de R$ 1 milhão em 2013 ao instituto fundado pela ex-ministra do Meio Ambiente para desenvolver projetos de sustentabilidade. O aporte bancou 83% dos custos da entidade no ano passado. “Não apoio só esse instituto, mas também outras 15 instituições, entre elas a Doutores das Águas, Greenpeace, Casa do Coração, Sonho Brasileiro e Instituto Chapada da Educação”, diz. “Fico muito triste de ver o PT, um partido que sempre admirei e no qual votei algumas vezes - assim como também já votei no PV, no PSB, no PSDB, embora jamais tivesse me filiado a nenhum partido, somente à Rede -, fazendo esse tipo de ataque.”

Neca afirma que sua ONG Cenpec já trabalhou com vários governos de diversos partidos. Neca, que chegou a receber convite para ser secretária de Educação do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, conta que se aproximou da candidata do PSB após um encontro em 2010, na produtora do cineasta Fernando Meirelles: “A Marina me marcou muito. Ela observou termos vidas opostas. O destino dela era ser uma menina pobre dos seringais do Acre e o meu era ser uma menina rica de São Paulo. Mas, por causa da educação, nós estávamos ali conversando.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

A senhora ou o seu instituto sustentam a candidata Marina Silva?

A Marina sempre teve o seu trabalho. Desde que saiu do Ministério do Meio Ambiente, depois das eleições de 2010, passou a ter como sustento suas palestras. Isso já é publico. Nenhuma das instituições às quais estou à frente jamais fez pagamentos a ela. Tampouco o Itaú remunerou nossa candidata.

Consta que a senhora contribuiu com mais de 80% das doações do Instituto Marina Silva.

Isso é verdade, mas o Instituto sobreviveria essa doação. Marina é um nome reconhecido internacionalmente. Ela arrecadaria de outras fontes facilmente.

Ela é remunerada pelo trabalho que faz no Instituto?

Não. E nenhum diretor é. Por ser uma entidade sem fins lucrativos, por lei, é proibida a remuneração.

E de onde vem o dinheiro que sustenta Marina?

Ela tem sua consultoria e dá palestras. Só apoiei o Instituto Marina Silva nos projetos que ele desenvolve em relação a sustentabilidade, jovens e educação.

O Banco Itaú é dono da Fundação Tide Setubal?

Não. É uma fundação familiar sem relação com o banco. Eu sou a presidente do conselho, do qual alguns de meus irmãos também fazem parte. A fundação tem várias parcerias, com diferentes órgãos, inclusive com a Prefeitura, num Telecentro em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Temos diversos convênios firmados, mas nenhum deles de repasse direto de recursos.

Antes de se engajar na campanha de Marina, a senhora foi convidada pelo prefeito Fernando Haddad para ser secretária de Educação. Por que não aceitou?

Tenho muita admiração pelo Fernando Haddad, especialmente pela época em que ele foi ministro da Educação. A pasta e o Cenpec desenvolveram trabalhos em conjunto. Acho que Haddad conseguiu manter as conquistas do Fernando Henrique Cardoso na área da educação e deu um salto em relação a isso. Eu o admiro e participei de sua campanha à Prefeitura. Fiquei muito honrada quando ele me convidou para ser secretária de Educação, porque é um reconhecimento do meu trabalho, da legitimidade da minha atuação na área da educação, mas, naquele momento, preferi não aceitar.

Como a senhora reage ao fato de ter sido chamada pela presidente Dilma Rousseff de defensora dos interesses dos bancos?

Fico muito triste de ver o PT, um partido que sempre admirei e no qual votei algumas vezes - assim como também já votei no PV, no PSB, no PSDB, embora jamais tivesse me filiado a nenhum partido, somente à Rede -, fazendo esse tipo de ataque. São ataques baseados em inverdades, que buscam distorcer uma realidade. Por outro lado, tenho certeza de que essa atitude não é do PT como um todo. Isso é um absurdo, é baixar bastante o nível da campanha.

A senhora já trabalhou com vários governos, votou em vários partidos. O que a fez escolher Marina Silva?

Falei sobre o PT, mas o Cenpec desenvolve trabalhos para todos os partidos, é uma instituição apartidária. De uma forma mais próxima, acompanhamos o projeto da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, fizemos trabalhos para Maria Helena Guimarães de Castro (secretária entre 2007 e 2009, durante o governo de José Serra). Depois, com Alckmin, participamos de um grupo de trabalho com fundações empresariais e ONGs. Sempre recusei cargos na administração pública, como falei, mas a Marina me convenceu de que, para fazer mesmo a diferença, é preciso entrar na política. Para gerar impacto no País, é preciso atuar na esfera política. Desde que conheci a Marina, em 2009, acreditei nessa possibilidade, visualizei no discurso dela, nas propostas dela, uma outra forma de pensar a política e o País - uma forma que não está tão presa a esses rótulos de esquerda e direita, que acabam reduzindo a complexidade da sociedade e de seus problemas.

A senhora acha que há preconceito da sociedade contra banqueiros?

Isso também diferencia a Marina dos outros políticos. Quando ela me conheceu, já sabia da minha história familiar, e nunca teve esse preconceito. Acho que existe, sim, um preconceito da sociedade. E não é apenas da população mais pobre, não, mas também dos empresários. Eu entendo, acho que há uma história muito antiga, vem lá da Idade Média. Não acontece só no Brasil, não, é mundial. Mas isso nunca foi um problema para a Marina, aliás, muito pelo contrário. Em uma das primeiras vezes que nos encontramos - em janeiro de 2010 -, no estúdio do Fernando Meirelles, ele estava fazendo pequenos vídeos, em que a Marina entrevistava convidados. A conversa com Marina me marcou muito, Ela observou termos vidas opostas. O destino dela era ser uma menina pobre dos seringais do Acre e o meu era ser uma menina rica de São Paulo. Mas, por causa da educação, nós estávamos ali conversando. Desde aquele momento, percebi que ela tem uma visão acima da de todos nós. Porque qual é a visão que as pessoas, em geral, têm: “Nossa, Neca, você podia estar no shopping, na Daslu, viajando, mas prefere trabalhar no Cenpec”. Sempre estranho quando as pessoas falam algo do tipo “você não precisava estar aqui”, em tom de elogio. Obviamente que eu agradeço, sou solidária, mas acho que, de novo, isso é rotular, como se as pessoas, por terem dinheiro, porque são da família XYZ, têm um destino pronto, que é corresponder a uma expectativa da sociedade.

Estes ataques podem, de alguma forma, alijar a senhora da campanha?

Estou à frente da campanha, com o Mauricio Rands e tenho o maior apoio de todos, principalmente da Marina e do Beto Albuquerque. Estou nesse lugar porque sou uma educadora, tenho reconhecimento, trajetória profissional de 30 anos. Acho que tenho de enfrentar isso. Nós estamos em uma campanha presidencial, e o fato de eu estar muito próxima da coordenação da campanha me torna uma pessoa pública. Nós estamos em uma democracia, é normal ter de responder a essas questões que vêm da mídia e de diferentes setores. Todos querem saber quem é essa pessoa tão próxima da Marina. Mas espero que isso seja mantido dentro de uma visão de debate de ideias, não de preconceitos ou rótulos. De olhar a minha trajetória, Gostaria que as pessoas entrassem no Google para ver a minha vida profissional. Quero mostrar minha história, não tenho nada a esconder.

O Roberto Setubal disse, recentemente, que a eleição de Marina seria algo natural para o País. Isso é uma indicação de voto?

Não, quando o Lula ganhou, em 2002, também ficou famosa uma declaração dele de que o País não ia mudar, porque o mercado financeiro, naquele momento, estava agitado, a Bolsa caiu e tudo. Acho que, agora, a fala dele foi uma constatação das pesquisas, não uma posição política . Não sei em quem ele vota.

A senhora conversa com ele sobre política?

Converso, porque, na minha casa, com o meu pai, sempre se falava sobre dois assuntos: política e economia. Outros temas não entravam quando ele estava próximo. Então, todos nós falamos bastante sobre política e economia. Mas o Roberto nunca declarou voto.

Em um eventual governo de Marina Silva, haveria algum tipo de conflito de interesses com relação às decisões do Banco Central, já que a senhora é acionista do Banco Itaú?

Eu entendo que as pessoas acabem fazendo uma confusão entre minha história profissional, meu trabalho, e o Banco Itaú. Mas nunca ocupei nenhum cargo no banco, jamais participei de nenhum conselho deliberativo. Faço parte de um conselho consultivo da Fundação Itaú Social. Nunca fiz declaração - pode dar Google - sobre o banco, não participo das decisões nem de nenhuma reunião do banco. Meu trabalho é estar com a Marina.

Entende de economia?

Não, não entendo nada de economia. Agora, como coordenadora do programa, obviamente tive de participar de todas as discussões, mas não tive interferência nenhuma na área de economia, há vários economistas que respondem por essa parte do programa da Marina.

Uma última pergunta: já que a senhora não entende de economia, como aplica seu dinheiro?

No private do Itaú (risos).

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