Irã, Síria e Cuba: obstáculos para uma relação de confiança

Embates diplomáticos, além da resistência dos EUA em ver Brasil como potência econômica, dificultam o diálogo

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h09

A intenção de criar relação de proximidade e de confiança entre os presidentes do Brasil e dos EUA tem todos os componentes para pouco avançar no encontro entre Dilma Rousseff e Barack Obama amanhã, na Casa Branca. As recentes críticas de Dilma à política de Washington sobre Irã, Síria e Cuba; o tropeço do governo Obama na compra dos aviões da Embraer e sua resistência em reconhecer o Brasil como potência do calibre da Índia serão duros obstáculos para uma conversa mais fluida. "O Brasil se tornou a França da América Latina. Para mostrar sua crescente influência nos foros internacionais, assumiu postura tão obstrucionista quanto a da França diante das propostas e iniciativas dos EUA", desabafou um diplomata em alta posição no Departamento de Estado.

Há queixas dos dois lados. Dilma ainda remói o fato de Obama ter ordenado a participação dos EUA no ataque militar à Líbia dentro do Planalto, durante sua visita em março do ano passado. A presidente e o chanceler Antônio Patriota haviam deixado clara a aversão do governo brasileiro a uma iniciativa militar contra Trípoli. "Será que ele (Obama) não podia esperar?", reclamou Dilma, segundo interlocutores.

A Casa Branca e o Departamento de Estado vêm anotando com preocupação a posição do governo Dilma em aderir à linha americana de lidar com as questões da Síria e do Irã. Obama esperava atrair o apoio de Dilma ao aumento das sanções ao comércio de petróleo iraniano e de represálias mais duras para forçar a renúncia do líder sírio, Bashar al-Assad.

Expectativa frustrada. Os recados emitidos pela própria Dilma há dez dias, em Nova Délhi, frustraram as expectativas. "A presidente Dilma está se aliando aos setores mais conservadores dos EUA ao dizer que as sanções contra o Irã não funcionam", notou Peter Hakim, presidente honorário do Inter-American Dialogue.

O governo brasileiro ressente-se da ausência, por parte dos EUA, do reconhecimento do País como potência emergente.

O mais eficaz para os EUA emitirem tal mensagem seria o apoio americano ao ingresso do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, como ocorreu com a Índia em 2009. Em 1998, quando o Brasil assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, a Índia fazia testes atômicos. Nova Délhi jamais aderiu ao tratado, o que não impediu os EUA de fechar com a Índia acordo de cooperação nuclear.

Washington, porém, considera ter suficiente grau de confiança na Índia e ponderações quanto ao Brasil. Segundo autoridade da Casa Branca, Dilma não ouvirá nada de Obama além de "apreço" à aspiração brasileira. "Nossa principal recomendação é a de que os EUA vão em frente na relação com o Brasil e apoiem o ingresso do País no Conselho de Segurança, não só para tratar o Brasil da mesma forma da Índia, mas por seu compromisso com a não proliferação nuclear", disse a pesquisadora Julia Sweig, do Council on Foreign Relations. / COLABOROU VERA ROSA

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