Investigado, Perrella cede campo ao MP

Senador abriu a Toca da Raposa, do Cruzeiro, para torneio de promotores e procuradores

MARCELO PORTELA , BELO HORIZONTE, EDUARDO KATTAH / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h07

Promotores e procuradores de Justiça de Minas Gerais e de 19 outros Estados promoveram um torneio de futebol em área cedida pelo senador e presidente do Cruzeiro, Zezé Perrella (PDT-MG), alvo de investigações do próprio Ministério Público Estadual (MPE) de Minas e da Polícia Federal.

O evento teve patrocínio da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), cujo titular, Marcio Lacerda (PSB), também é alvo de pelo menos uma ação judicial promovida pelo MPE, além de investigações realizadas por promotores mineiros.

O 10.º Torneio Nacional de Futebol Society do Ministério Público, promovido pela Associação Mineira (Ammp) em parceria com a Associação Nacional (Conamp) do Ministério Público, foi realizado durante o feriado prolongado na Toca da Raposa I, antigo centro de treinamento do Cruzeiro, na região da Pampulha. O clube é presidido há anos por Perrella, que anunciou desistir de uma nova candidatura apenas depois que assumiu uma vaga no Senado no lugar de Itamar Franco (PPS-MG), morto em julho.

Além dos campos de futebol cedidos pelo investigado, o torneio, para o qual era cobrada inscrição, recebeu recursos da Belotur, órgão de fomento ao turismo da prefeitura. O órgão cedeu R$ 10 mil a título de "auxílio financeiro" para o evento, que não foi aberto ao público. Segundo o edital da Belotur, seriam patrocinados "eventos de potencial turístico" na cidade.

Suspeitas. Perrella é alvo de pelo menos duas investigações do MPE. Uma delas é por suspeita de enriquecimento ilícito. Os inquéritos tramitam na Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Belo Horizonte.

Responsável por conduzir as investigações, o promotor Eduardo Nepomuceno assegurou ao Estado que o evento "não repercute em nada na apuração" contra o senador do PDT de Minas Gerais.

"Não tem relação nenhuma entre uma coisa e outra. A organização do evento é da Conamp. É uma entidade privada, composta por associações de classe e o Cruzeiro forneceu o espaço. E não teve, até onde eu saiba, nenhuma interferência da pessoa do Zezé Perrella. Ainda assim, mesmo se houvesse, nada interfere na investigação que está sendo levada aqui", disse.

Nepomuceno admitiu que atuou no torneio, mas ressaltou que não foi ouvido sobre a escolha do local. "Participei dos jogos, mas das tratativas para a escolha de local eu não participei. Se fosse para escolher, eu escolheria outro local", observou. "Preferia que fosse em outro local, que não houvesse essa conotação. Mas, mesmo reconhecendo que existe a conotação, só posso afirmar que ela não repercute em nada na apuração."

Em nota, a Conamp afirmou que o empréstimo "não é uma benesse e sim fruto de relacionamento institucional".

Para a associação, a "instituição Cruzeiro" é "um patrimônio nacional, que merece todo respeito do Ministério Público e que não se confunde com seu presidente (a pessoa), o senador Zezé Perrella".

"O senador continuará a ser processado com todo o rigor necessário", destacou a Conamp, lembrando que em 2004, quando Perrella presidia o Cruzeiro, o centro de treinamento foi emprestado à AMMP para a realização de outro torneio de futebol. "Mesmo assim, após o evento, o senador foi processado, assim como acontece atualmente."

O Estado não conseguiu ontem contato com o senador. A reportagem também tentou falar com Gelton Pinto Coelho, presidente do conselho da Belotur, mas ele não respondeu aos recados deixados com sua secretária.

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