Imagem João Bosco Rabello
Colunista
João Bosco Rabello
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Investigação controlada

Governos não gostam de ser investigados, muito menos em CPIs, mas estas costumam empolgar a oposição. Quando nem os adversários apoiam a iniciativa, mesmo diante de fatos objetivos que a justifiquem, a lógica política indica que o resultado é temido por ambos.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

23 Março 2014 | 02h08

Bola da vez, a Petrobrás é uma caixa-preta que abriga interesses multipartidários, como prova o esforço dos senadores Delcídio Amaral e Renan Calheiros, do PT e PMDB, respectivamente, para se livrarem da responsabilidade pela nomeação do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, hoje preso, envolvido na compra da refinaria de Pasadena.

Como não é possível deixar de apurar as últimas denúncias contra a empresa, as lideranças políticas optaram pela investigação sem CPI, fiéis à máxima de que esta sabe-se como começa mas não como acaba. Já a investigação permite algum controle.

O caso mais recente da Petrobrás (a empresa já é investigada na Holanda por recebimento de propina por funcionários) é, porém, gravíssimo, com potencial para manter o governo na agenda negativa em que entrou pelos próprios erros, mesmo sem CPI.

Não há leitura que consiga eliminar o ingrediente da corrupção de uma operação em que se pagou por metade de um bem oito vezes e meia seu valor de compra de um ano antes.

Para mais adiante adquiri-lo 100%, por mais U$ 820 milhões, perfazendo um custo total de U$ 1.18 bilhão - algo em torno de 28 vezes mais do que custara ao vendedor. Nem o mais distraído negociador seria capaz de produzir uma conta com tal subversão à lógica comercial.

Tudo indica, portanto, que a inversão aritmética foi trabalho de profissionais em proveito próprio ou de terceiros, ou ainda de esquema que permanece encoberto, como é a convicção do Tribunal de Contas da União (TCU).

Nesse contexto, vale observar que a presidente Dilma preferiu sacrificar a sua imagem de gestora a abraçar a versão da Petrobrás, igualmente insustentável, de que a compra da refinaria, nos termos em que se consumou, era um bom negócio que deu errado.

Se a oposição conseguirá capitalizar essa trajetória errática do governo só será possível saber quando a propaganda começar na televisão e no rádio. Até aqui os erros do governo não se transformaram em dividendos para a oposição.

Menos, porém, pela falta de consistência das críticas e mais pela pouca visibilidade dos candidatos que não são conhecidos por um porcentual expressivo da população. Por isso, é temerário afirmar que a inércia dos números prosseguirá como registrou a recente pesquisa do Ibope antes de se medir os efeitos da propaganda gratuita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.