Interino assume pasta desprezada por base de Dilma

Criada em 2008 por Lula para 'pensar políticas de longo prazo', Secretaria de Assuntos Estratégicos é recusada por PSD e PMDB

DÉBORA BERGAMASCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2013 | 02h06

Enquanto os partidos da base aliada armam uma batalha com a presidente Dilma Rousseff para abocanhar mais ministérios, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) está sendo recusada tanto pelo PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab quanto pelo PMDB do vice-presidente Michel Temer. Diante de tais recusas, o economista Marcelo Neri foi nomeado interinamente ministro da pasta.

Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Neri é um nome técnico que não preenche cotas políticas.

Com status de ministério, a SAE foi criada em 2008 no governo Lula para pensar políticas públicas para o País. O deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) avalia as razões para tamanho desdém: "É uma pasta que não tem orçamento, não tem cargos, não tem órgãos importantes vinculados, não despacha com a presidente e não executa obras, só faz seminários. O partido que assumir não terá nada para mostrar". Indagado sobre a relevância do planejamento do País, Lima é direto. "Pensar o futuro é importante? É. Mas queremos é executar o presente. Essa coisa de ficar pensando só queima neurônio e não deixa marcas."

Horas após ser nomeado ministro, Neri disse ao Estado concordar com quem diz que "comandar a SAE não serve para eleger nem vereador". "A política tem uma visão 'curtoprazista'. Mas não sou político e, como técnico, estou muito feliz em ser o chefe do ministério do futuro."

O governo federal acenou com a SAE para o PSD. Ciente da pouca atratividade da pasta, ofereceu também a Secretaria da Micro e Pequena Empresa. Nem assim agradou e o PSD já indicou que esses postos não seriam suficientes para Dilma conquistar o apoio do PSD. Despejado do ministério da Agricultura, Mendes Ribeiro também rejeitou a SAE e preferiu retornar à Câmara. O senador Eunício Oliveira (CE), da executiva nacional do PMDB, diz que "outro nome não foi indicado porque Dilma já deu um upgrade a seu partido quando deslocou Moreira Franco para a Aviação Civil", demonstrando o quanto a SAE é vista como inferior.

'Jilozinho da Esplanada'. O orçamento anual da SAE fica na casa dos R$ 15 milhões, sendo que os recursos do Ipea, autarquia vinculada à pasta, recebe quatro vezes mais (R$ 63 milhões). O número de indicações também não faz os políticos salivarem: são 145 cargos em comissão, 10 sem nenhum tipo de gratificação e 21 terceirizados. Para Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas, o cenário pode ser revertido caso Dilma passe a creditar à SAE suas contribuições para a criação de programas de apelo. "A Casa Civil também não executa nada, mas tem visibilidade porque influencia o pensamento da presidente".

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