Integração vira 'Ministério do Nordeste'

Pasta criada sob inspiração da ditadura militar teve 11 ministros, sendo 10 nordestinos, que privilegiaram região na condução de projetos

CHRISTIANE SAMARCO, JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h09

Inspirada no Ministério do Interior, que projetou o ministro Mário Andreazza (1918/1988) para a primeira disputa presidencial após 20 anos de ditadura militar, a pasta da Integração Nacional foi criada na forma de secretaria em 1990, virou ministério dois anos depois e, a partir daí, tornou-se um reduto nordestino na Esplanada. Dos últimos 11 ministros que por lá passaram, 10 eram do Nordeste.

A exceção foi o ex-senador Ramez Tebet (PMDB-MS), que ocupou o cargo por três meses.

O primeiro ministro da Integração Regional foi o ex-governador do Rio Grande do Norte Aluízio Alves, no governo Itamar Franco (1992/1994). Desde então, governadores e parlamentares dos vários Estados nordestinos vêm se engalfinhando não só pela cadeira de ministro, como também pelo comando das estatais vinculadas à pasta, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Departamento Nacional de Obras Contras as Secas (Dnocs).

Para manter a influência sobre o Dnocs no governo de Dilma Rousseff, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), chegou a ameaçar até o rompimento com o novo governo. Tanto barulho fez que assegurou a permanência de seu afilhado Elias Fernandes no cargo de diretor da estatal. O orçamento do Dnocs para este ano é de cerca de R$ 1 bilhão.

A destinação de recursos do ministério para a construção de barragens, como ocorre agora na administração de Fernando Bezerra Coelho, não é novidade. Se na gestão do ministro Andreazza o Rio Grande do Norte ganhou a barragem Armando Gonçalves, com capacidade para armazenar 2,4 bilhões de litros d'água, não foi diferente nos tempos da dobradinha potiguar, com o governador Garibaldi Alves e o ministro Fernando Bezerra (homônimo do atual, ex-senador e ex-presidente da CNI), no governo Fernando Henrique.

"Esse ministério mudou a região e teve repercussão imensa no Rio Grande do Norte, com obras que mudaram a vida do povo", recorda o agora ministro da Previdência Social, senador Garibaldi Alves (PMDB).

A grita dos nordestinos, que passaram a se mobilizar e a se organizar a partir dos Estados, criando secretarias de recursos hídricos e planos diretores de aproveitamento das águas e bacias, começou de forma mais intensa e organizada em 1982, depois dos cinco anos consecutivos de seca que traumatizaram a região. Alguns políticos lamentam a troca de nome - Desenvolvimento ou Integração Regional para Integração Nacional.

Mas não há nordestino que não defenda o ministério. "É importante que tenhamos um ministério do Nordeste e um ministro da região", defende o líder do PSB no Senado, Antonio Carlos Valadares (SE). Segundo ele, a Integração continua sendo a pasta "do combate às desigualdades regionais".

Até a oposição reconhece a importância do ministério, a despeito dos reparos ao governo. O presidente nacional do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), diz que as obras mais importantes do ministério são a transposição do São Francisco, que está paralisada, e a Ferrovia Transnordestina, que também não anda, diz ele. "Se as políticas regionais fossem mais fortes, o ministério seria mais forte."

Em baixa. Disputas à parte, a Integração nunca figurou na lista dos ministérios mais importantes, exatamente pela vinculação regional ao Nordeste. Só ganhou dimensão nacional em dois momentos: sob a batuta do candidato a presidente Ciro Gomes - precisamente por se tratar de um presidenciável - e com o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), por conta do projeto da transposição e por ser ele o líder do PMDB.

Acusado de favorecer a Bahia em sua administração, Geddel lembra que aplicou recursos em projetos para conter encostas e promover drenagem em Salvador, "que é a terceira maior capital do País e é muito mais pobre que Rio, São Paulo e Belo Horizonte". A seu ver, a Integração está longe de ter a importância de um ministério do Interior, porque seu leque de ações é estreito e os recursos para obras de prevenção estão espalhados por várias pastas. "As verbas para emergências no Sudeste estão principalmente nas Cidades. Na Integração, essa rubrica é troco."

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