Insatisfeito, Pertence deixa Comissão de Ética

Presidente do órgão renunciou ontem ao cargo lamentando a decisão de Dilma de não reconduzir dois de seus indicados para o colegiado

LISANDRA PARAGUASSU, TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2012 | 03h06

Irritado com a pressão e ingerência do Planalto na Comissão de Ética Pública da Presidência da República, o presidente do órgão, Sepúlveda Pertence, renunciou ontem ao cargo depois de dar posse aos três mais novos integrantes do colegiado.

Membro da comissão desde 2007, Pertence deixou clara sua insatisfação com as mudanças recentes na nova composição da comissão, especialmente a decisão da presidente Dilma Rousseff de não reconduzir aos cargos dois de seus indicados, Marília Muricy e Fábio Coutinho, que encerraram seus mandatos iniciais no fim de agosto e julho, respectivamente.

A presidente não estava satisfeita com a forma como os dois trabalhavam e já havia se queixado da postura deles. Os dois exigiam mais e mais explicações do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, em relação às denúncias sobre os milionários negócios de sua consultoria.

Pertence se convenceu de que, ao não reconduzir os dois, uma tradição na comissão, Dilma claramente interferiu nos trabalhos do grupo. Por isso, decidiu abandonar o cargo. A presidente estava insatisfeita com os trabalhos da comissão desde o fim do ano passado, quando a professora Marília Muricy recomendou a demissão do ex-ministro do Trabalho Calos Lupi, por causa das denúncias de irregularidades em convênios da pasta com ONG.

As queixas palacianas foram aumentando à medida que os conselheiros insistiam em exigir inúmeras explicações de Pimentel, um dos mais próximos ministros da presidente. Dilma reclamava ainda que Marília Muricy e Fábio Coutinho acatavam qualquer tipo de pedido de processo que era levado à comissão contra autoridades, sem muito critério.

Tolhido. Pertence, que tinha mandato até 2 de dezembro de 2013, vinha manifestando incômodo na comissão e se sentindo tolhido por causa das frequentes queixas da presidente que chegavam até ele. Ao renunciar ao cargo, Pertence disse não havia "um motivo predominante".

Para ele, "houve uma mudança radical na comissão". "Não tenho nada contra os designados, mas devo ser sincero: lamento a não recondução dos que indiquei. Parece-me que pela primeira vez isso acontece, é um fato inédito na história da comissão", desabafou. Pertence destacou que encaminhava a renúncia ciente de que a comissão continuará servindo "voluntária e gratuitamente como sempre a essa missão às vezes mal compreendida" de "estabelecer uma cultura de ética no Poder Executivo".

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