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Inimigos cordiais

A amabilidade que a presidente Dilma Rousseff confere no trato a Eduardo Campos em sua rota de dissidência para uma possível candidatura presidencial em 2014, dissimula o clima de tensão pré-eleitoral que o governo e o PT criam em torno dele.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2013 | 02h15

É possível detectar a mesma dualidade no governador de Pernambuco: reafirma sua aliança com o Planalto e ao mesmo tempo tensiona a relação com um discurso crítico. Mas aqui vamos tratar de Eduardo Campos apenas da perspectiva do governo, como é vista a possibilidade de candidatura, se ameaça a reeleição de Dilma, se haverá retaliação ou se ainda há espaço para um "meia volta, volver".

Atuar com mãos de ferro calçadas em luvas de veludo é um conceito difundido por Napoleão Bonaparte sobre a eficácia da combinação de gestos cordiais com atos firmes na política, que define bem o espírito da estratégia governista enunciada no primeiro parágrafo.

O governo não vai brigar - a não ser quando, e se, a luta for necessária - com Eduardo Campos, mas também não vai deixar de fazer suas escaramuças para dificultar-lhe a trajetória em direção à candidatura.

A mais explícita, e exemplar do que virá adiante, aconteceu em recente visita da presidente a Pernambuco, onde fez discurso cobrando lealdade de aliados e ressaltando que o crescimento do Estado deve-se aos inúmeros e vultosos (R$ 60 bilhões, segundo dados do Planalto) investimentos federais.

Com isso, atua no campo seguro - por ora o único - do possível desafiante com sua fórmula "dois em um": Dilma e Lula. O governo tenta limitar seu discurso de eficácia administrativa a Pernambuco e também esvaziá-lo transferindo o êxito para a esfera federal, vale dizer, o PT.

O jogo talvez não seja assim tão combinado, mas fato é que parte do PT alimenta a tensão cobrando que o governo o trate desde já como adversário e outro grupo faz o papel moderado para manter a porta aberta para o caso de recuo.

E por que Eduardo Campos recuaria depois de avançar tantas casas, mais não seja para acumular forças para disputa futura (2018) da Presidência?

Na visão do governo, por causa das enormes dificuldades práticas que terá de enfrentar. Uma delas, a ambiguidade do discurso, forçosamente de oposição e pragmaticamente de situação. "Haverá o momento em que terá de se definir e aí é que começarão as pressões dos governadores, dos deputados e dos ocupantes de cargos federais", argumenta um ministro do PT.

Ele vislumbra obstáculos intransponíveis na formação de alianças regionais, na fragilidade da máquina do PSB em comparação às estruturas do PT, PMDB, do PSDB; e na disputa por uma vaga no segundo turno com o tucano Aécio Neves.

Outro ministro do PT, como o citado acima com ótimo acesso à presidente, considera que na hora das definições ainda prevalecerá a tradicional disputa de petistas contra tucanos. E acrescenta: "Nos últimos anos quem tentou ser terceira via saiu das eleições menor do que entrou: Anthony Garotinho, Ciro Gomes, Heloisa Helena, Marina Silva e Cristovam Buarque".

Na opinião dele, por mais que digam que a disputa entre PT e PSDB cansou o eleitorado, "a alternativa não tem sido um espaço político consistente".

Ambos apostam (torcem?) que Eduardo Campos pensará melhor e concluirá pelo benefício do passo atrás. Acreditam que, na hipótese de um segundo turno entre Aécio e Dilma - nesse momento, no governo, a palavra de ordem é dizer que o mineiro tem anos luz de vantagem sobre o pernambucano - o governador ficaria necessariamente com a presidente.

Apontam dois motivos. Um: porque a disputa da vaga do segundo lugar definirá o nome mais forte da oposição em 2018. Outro: se Aécio ganhar teria a vantagem da reeleição, em tese adiando os planos de Eduardo Campos para 2022.

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