Sergio Amaral/AE
Sergio Amaral/AE

'Impeachment só passou porque o voto foi aberto'

Deputado lembra dos dias que antecederam abertura de processo contra Collor; historiador afirma que movimento foi 'fato raríssimo'

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h02

O empurra-empurra no plenário da Câmara era geral quando o jovem deputado mineiro Paulo Romano (PFL) gritou ao microfone: "Voto pela dignidade, por aquilo que Minas representa, é sim!" Foi nesse curto discurso, pouco depois das 16h de 29 de setembro de 1992, que acabou o governo de Fernando Collor de Mello.

O "sim" de Romano, o 441.º daquela tarde, completava o mínimo necessário para aprovar a abertura do processo de impeachment. Por lei, Collor se afastaria do poder por 180 dias. O vice, Itamar Franco, do PMDB, tomaria posse dois dias depois.

Foi uma tarde de festa e buzinaços - o presidente já havia perdido o apoio dos políticos e também o das ruas. Empresas fecharam mais cedo, escolas suspenderam as aulas, milhares de pessoas lotavam a frente do Congresso e grupos animados acompanhavam a votação, em bares e praças, pelo rádio e pela TV.

Aos 42 anos, Collor deixava o poder 29 meses e 17 dias depois de assumir prometendo um governo que deixaria "a esquerda indignada e a direita perplexa". Renunciou três meses depois, em 29 de dezembro, minutos antes de começar no Senado, sob presidência do presidente do Supremo, o julgamento do pedido da Câmara, que enfim o afastou.

"Foi um grande momento da nossa história, um fato raríssimo, e hoje, 20 anos passados, tem mais é que comemorar mesmo", avalia o historiador José Murilo de Carvalho. O episódio culminava uma sequência de momentos decisivos para a democracia no Brasil - a Anistia em 1979, as Diretas-Já em 1984, o fim do regime militar e a morte de Tancredo Neves em 1985, a Constituição em 1988 . "Foi uma explosão de cidadania", disse Romano, hoje secretário adjunto de Agricultura de Minas, ao Estado. "O presidente me chamou na época, porque eu tinha declarado meu voto três semanas antes. Fiquei 50 minutos a sós com ele, e avisei que não ia mudar de posição."

O impeachment fechou um ciclo de quatro meses iniciado quando o irmão do presidente, Pedro Collor, revelou à revista Veja como funcionava o "Esquema PC". Chefiado por um auxiliar pessoal de Collor, Paulo Cesar Farias, esse esquema tomava recursos de empresas em troca de favores do governo e os repassava, por intermediários, para gastos pessoais e outras finalidades do presidente e de sua família. Dois dias depois, era instalada a CPI do Collor.

Em junho, o motorista Eriberto França tornou-se herói ao desmentir o presidente, em entrevista à revista Isto É, revelando que pagava, ele próprio, as contas da residência presidencial, a Casa da Dinda. O golpe final foi a divulgação de um cheque, pagamento de uma Fiat Elba para a primeira-dama, Rosane Collor. O resto eram favas contadas: a conclusão da CPI e a votação do impeachment.

Pressões. "Mas foi um momento difícil, sofremos pressões fortíssimas na CPI", lembra o deputado Miro Teixeira (PDT). Na comissão atuava também o líder petista José Dirceu, hoje réu no processo do mensalão. Miro lembra que "o governo batia muito na CPI, dizia que éramos como porcos chafurdando na lama".

O pedetista entende que foi decisiva a sentença do STF para que a votação do impeachment fosse aberta. "Quando circulou que o Supremo ia autorizar voto fechado, o dr. Ulysses (Guimarães, do PMDB) foi às ruas dizer que 'o povo descobrirá outra rampa na Praça dos Três Poderes e vai virar'", recorda. "Não fosse isso, acho que dificilmente conseguiríamos os dois terços necessários para tirar o presidente."

Collor diz o contrário. "Meu direito foi cerceado em todos os momentos. Foi uma violência, um golpe parlamentar", afirmou ao jornalista Gilberto Carvalho, no recém-lançado livro A Era Collor. O ex-presidente se culpa ali por "não ter dado a devida atenção ao Congresso" e afirma: "Nunca fui de mediar com o Parlamento. Eu nunca fui um líder político. Fui um líder popular".

O impeachment é um episódio marcante da política do País, mas, avalia Murilo de Carvalho, a indignação ética não plantou raízes. "Tanto que, pouco tempo depois, foi feita uma pesquisa sobre fatos de que se orgulhavam os brasileiros e o episódio nem sequer foi lembrado."

Na Comissão de Relações Exteriores do Senado, que Collor hoje preside, um dos integrantes, o tucano Aloysio Nunes (SP), não esconde o desencanto. "Tenho a sensação de que o mundo gira e não sai do lugar. Dá suas voltas e a República continua vulnerável." Aloysio diz ter dificuldades para entender, hoje, "aquele Collor dos anos 1990", pois o de agora se mostra "uma figura polida, conscienciosa e dedicada no trabalho da comissão".

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