Ideli é criticada antes mesmo de assumir pasta

Militantes de direitos humanos se queixam de falta de afinidade da nova ministra com o tema

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h05

BRASÍLIA - A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, vai assumir a Secretaria de Direitos Humanos, na terça-feira, já na mira de lideranças do movimento gay e de colegas do próprio Partido dos Trabalhadores. A principal crítica feita a ela é a falta de afinidade com os temas tratados pela pasta que passará a chefiar.

"Ideli é uma companheira valorosa no setor sindical, educacional, mas nada tem a ver com direitos humanos, não tem o perfil para tocar essa temática", disse ao Estado o coordenador nacional do Setorial de Direitos Humanos do PT, Rodrigo Mondego. "Nas relações institucionais, a grande crítica feita à ministra Ideli foi em relação ao diálogo (com os parlamentares) e a secretaria que ela vai assumir agora tem como principal característica o diálogo com os movimentos sociais."

Para Mondego, o governo cometeu um equívoco ao não discutir com os movimentos sociais o nome para suceder à atual titular, Maria do Rosário. "Nomear a ministra sem nenhum diálogo com a militância do partido é outro erro", comentou o coordenador.

Ideli e Maria do Rosário conversaram ontem por telefone para tratar da transição. Ideli disse que admira o trabalho da Secretaria de Direitos Humanos e que pretende dar continuidade às iniciativas da pasta. Destacou que acompanha ações do governo voltadas para grupos com necessidades especiais e minorias. Entre os assuntos que irá tratar a partir de agora estão as questões de familiares de mortos e desaparecidos políticos, pessoas com deficiência, crianças, adolescentes e idosos.

Segundo auxiliares do Planalto, Ideli deve cumprir um mandato tampão, permanecendo no cargo até o final do ano, quando será aberta uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Direitos Humanos é a terceira pasta que ela assume no governo Dilma. Já passou pelas secretarias de Pesca e Aquicultura e de Relações Institucionais.

Homofobia. Além de lideranças do PT, o nome de Ideli foi criticado no movimento LGBT. Ela tem sido lembrada por causa de sua orientação, no ano passado, para que não fosse a votação o projeto de lei que criminaliza a homofobia. "A indicação dela é péssima", afirmou o presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira.

Nesta semana, a ministra foi eleita por aquele grupo como uma das inimigas públicas da comunidade gay. Recebeu o prêmio simbólico denominado Pau de Sebo, pelo arquivamento do projeto de lei.

A decisão de Ideli foi vista pelo movimento gay como uma concessão do Palácio do Planalto à bancada religiosa, para blindar a presidente contra eventuais ataques de setores conservadores nas eleições.

"A Ideli não está associada às lutas de direitos humanos, é uma mulher travada com os interesses do núcleo político dela", disse Cerqueira. "Ideli não nos representa."

Procurada pela reportagem, a assessoria de Ideli não quis comentar as críticas. Em 2010, quando era candidata ao governo de Santa Catarina, ela participou da Parada Gay de Florianópolis. Em 2006, apresentou no Senado proposta de voto de aplauso aos organizadores da parada, destinada a "marcar a luta em defesa dos direitos de gays, bissexuais, lésbicas e transexuais". Ela também destacou na ocasião a reação dos movimentos contra os crimes contra homossexuais no Estado.

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