Holding da JBS compra Delta, mas só paga depois

Proposta do grupo J&F, interessado na empresa, é pagar dividendos em alguns anos se a empreiteira der lucro

IRANY TEREZA , DAVID FRIEDLANDER, SONIA RACY, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2012 | 03h07

A J&F Participações, que controla o frigorífico JBS, anuncia hoje que está assumindo a gestão dos fundos que controlam 100% da Delta Construções. O acordo para a venda da Delta à J&F não vai envolver dinheiro num primeiro momento, segundo apurou o Estado.

A negociação foi antecipada ontem à noite pelo serviço Broadcast da Agência Estado e pelo portal estadão.com.br. Será o primeiro passo para a aquisição, que só deve ocorrer dentro de 30 a 60 dias, depois da avaliação dos ativos. Pelo que era discutido até ontem à noite, o empresário Fernando Cavendish, principal acionista da Delta, entregaria sua participação, de cerca de 80% na construtora, sem receber nada agora. Se a operação der lucro nas mãos da J&F, Cavendish receberá dividendos em alguns anos. Se der prejuízo, não vai receber nada. Essas são as bases da negociação, mas Joesley Batista, da J&F, e Cavendish ainda precisam acertar vários pontos.

Não está combinado, por exemplo, daqui a quanto tempo seria feito o acerto de contas. Acionistas minoritários da construtora, como a Galvão Engenharia, que têm uma participação de 2%, continuariam na empresa.

As informações são de profissionais que participam da operação. Delta e J&F não quiseram se manifestar oficialmente. Com bom trânsito na administração federal, o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é o atual presidente do Conselho de Administração da J&F.

Pelo desenho negociado, se der tudo certo, Cavendish seria pago de acordo com os resultados dos cerca de 300 contratos que a Delta tem em carteira hoje. As empresas calculam que essa carteira deveria render algo em torno de R$ 4 bilhões ao longo dos próximos quatro anos. Se ficar mesmo com a construtora, a J&F vai trocar a diretoria.

Aposta. De acordo com pessoas próximas a Cavendish, a aposta do empresário é que a maior parte de seus contratos será aprovada no pente-fino realizado pela Controladoria-Geral da União (CGU). Ele baseia sua defesa na ideia de que os problemas da Delta estão concentrados nas operações do Centro-Oeste, área administrada pelo ex-diretor Cláudio Abreu.

Abreu foi flagrado nos grampos da Polícia Federal (PF) em conversas comprometedoras com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Os dois estão presos. A tática da defesa de Cavendish é tentar comprovar que Abreu agia por conta própria.

Balanço. Principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com contratos em 21 Estados e no Distrito Federal, a Delta tem obras importantes para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016.

A empresa faturou cerca de R$ 2,7 bilhões no ano passado, segundo balanço que está para ser divulgado nos próximos dias. O resultado é um pouco inferior aos R$ 3,1 bilhões de 2010. O balanço deve mostrar também uma reserva técnica de aproximadamente R$ 250 milhões para contingências.

A J&F, da família Batista, por sua vez, vive um processo de expansão que começou com a transformação do JBS no maior frigorífico do mundo, com forte apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), hoje sócio da empresa. A holding controla também empresas nas áreas de higiene e limpeza, está investindo em papel e celulose e é proprietária do Banco Original.

No BNDES, a operação é vista com reservas pela equipe técnica, mas o acompanhamento é feito de longe, sem nenhuma interferência. O banco ainda carrega os efeitos nocivos da intenção frustrada de ajuda ao empresário Abílio Diniz no caso Pão de Açúcar versus Casino.

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