Ed Ferreira/AE/Estadão - 14/12/2004
Fundadores do PSOL: João Fontes, Luciana Genro, Heloisa Helena e Babá. Ed Ferreira/AE/Estadão - 14/12/2004

História do PSOL: como surgiu o partido, a dissidência do PT e o que ele defende

Partido de Guilherme Boulos, candidato à Prefeitura de São Paulo, nasceu em 2004 e disputou a sua primeira eleição dois anos depois

Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 13h13

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) é um dos 33 partidos políticos brasileiros em atividade. Foi criado em 2004 a partir da união de dissidentes do Partido dos Trabalhadores (PT) e se autodeclara como uma organização de esquerda. Só veio a disputar uma eleição dois anos depois, em 2006.

Guilherme Boulos é o nome do PSOL na atual disputa pela Prefeitura de São Paulo. O candidato já havia disputado, em 2018, a Presidência da República. Antes dele, já haviam tentado a cadeira outros dois membros do partido, também sem sucesso.

Para Tiago Daher, cientista político e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o partido se destaca principalmente no que diz respeito à eleição de mulheres, negros e novas formas de mandato, como os coletivos. “A democracia é a lógica do possível. Podem existir grupos mais radicais no PSOL, mas a democracia força os partidos ao diálogo, à divisão de poderes”, explica.

Veja, a seguir, como surgiu o PSOL, as principais diretrizes do partido e o histórico em eleições.

Como surgiu o PSOL

Em 14 de dezembro de 2003, no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quatro membros do PT foram expulsos após votarem contra a aprovação da reforma da Previdência: a senadora Heloísa Helena e os deputados João Fontes, João Batista Araújo, o "Babá", e Luciana Genro. Havia um desgaste entre esses membros e a cúpula; eles discordavam, por exemplo, da postura mais ao centro que o partido estava tomando após assumir a Presidência, de acordo com matéria do Estadão publicada naquele dia

Cerca de 67% dos membros do Diretório Nacional do partido que compareceram à reunião votaram pela expulsão. A saída foi conturbada. Durante a votação, outros membros do partido vaiavam os quatro e chamavam o grupo de “stalinista”. Na sua fala, Luciana Genro disse que ela, Babá e Fontes já haviam recolhido 7 mil assinaturas para a criação de um novo partido. Heloísa se juntaria ao grupo depois.

O evento que oficializou o nome do PSOL aconteceu somente em 6 de junho de 2004. “O PT mudou de lado, mas não conseguiu liquidar bandeiras históricas da classe trabalhadora”, defendeu Heloísa na ocasião. A oficialização só aconteceria um ano depois, em 15 de setembro de 2005, quando as 438 mil assinaturas necessárias para a criação foram acatadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O partido estreou nas eleições em 2006. Naquela ocasião, Heloísa Helena concorreu à Presidência da República, terminando a votação em terceiro lugar. O PSOL três deputados federais na Câmara, três deputados estaduais e um senador.

Quem participou da fundação e outros membros ilustres

Os primeiros membros do PSOL foram justamente os políticos expulsos do PT no ano anterior:

  • Heloísa Helena, então senadora pelo Alagoas, hoje filiada à Rede Sustentabilidade;
  • João Fontes, então deputado federal por Sergipe;
  • Babá, então deputado federal pelo Pará;
  • Luciana Genro, então deputada federal pelo Rio Grande do Sul.

Após a oficialização do partido, que ocorreu em 2005, outros políticos migraram para a sua base, como:

Símbolo do PSOL

O partido é representado pelas cores vermelha e amarela. O seu símbolo é um sol com olhos e sorriso, que foi desenhado pelo cartunista Ziraldo durante a festa de lançamento do partido, em 2006. De acordo com reportagem publicada no Estadão na data, o artista desenhou a logomarca na frente de todos os presentes.

Programa do partido

Em seu estatuto, documento que consolida o regimento interno e o princípios da agremiação, o PSOL define como seus objetivos o desenvolvimento de ações para, “junto com os trabalhadores do campo e da cidade, de todos os setores explorados, excluídos e oprimidos, bem como os estudantes, os pequenos produtores rurais e urbanos”, organizar a “necessidade histórica da construção de uma sociedade socialista”.

Além disso, o partido destaca que é “solidário” às lutas de trabalhadores que procuram construir uma “sociedade justa, fraterna e igualitária”.

Quantos filiados tem o PSOL

O PSOL tinha, em outubro de 2020, 184.224 membros registrados no Brasil, de acordo com o TSE. Era o 23º partido em número de filiados.

De quantas eleições o PSOL participou em São Paulo?

Antes de 2020, o PSOL nunca havia chegado ao segundo turno das eleições em São Paulo. Porém, desde a sua criação, lançou candidaturas próprias:

  • 2008: Ivan Valente (sexto colocado)
  • 2012: Carlos Giannazi (sexto colocado)
  • 2016: Luiza Erundina (quinta colocada)
  • 2020: Guilherme Boulos (disputa o segundo turno no dia 29)

No mandato de 2021-2024, o partido terá uma bancada na Câmara Municipal com seis membros.

A relação do PSOL com o PT

Durante o processo de expulsão do PT, os membros originais do PSOL não baixaram a guarda diante das críticas dos novos adversários. Em sua defesa no encontro, Heloísa Helena disse: “Não peço desculpas. Não quero perdão”.

De acordo com o cientista político Tiago Daher, da UFSC, o partido se colocou “à esquerda” do PT na sua fundação. Em 2010 e em 2014, por exemplo, o partido declarou “apoio crítico” à então candidata petista Dilma Rousseff nos segundos turnos das votações, que disputou com José Serra (PSDB) e Aécio Neves (PSDB)

Já hoje se vê uma aproximação entre os partidos, ainda que com limites, explica Daher. Ele exemplifica destacando que o PT, por exemplo, não abriu mão de lançar Jilmar Tatto como candidato no primeiro turno em São Paulo. Do mesmo jeito, Boulos já começa a adotar um discurso mais moderado para marcar a sua posição no campo da esquerda. “Mesmo as figuras mais belicosas do passado, como Paulo Maluf, passaram por esse processo: ele teve de ir para o ‘centro’ para ser prefeito. Os candidatos (que buscam a eleição) costumam caminhar para uma posição intermediária”, exemplifica.

Neste segundo turno em São Paulo, Boulos é apoiado pelo PT.

Participação em momentos históricos e posicionamento político

O partido se manteve na oposição na Câmara mesmo durante os governos do PT, e segue na atual legislatura. Veja alguns posicionamentos do partido no passado:

  • CPI das Milícias: Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em 2008, cujo objetivo era averiguar a suposta relação entre vereadores e milicianos. Marcelo Freixo, então vereador, presidiu a investigação;
  • CPI da dívida pública: mais uma CPI instalada depois do pedido de um membro do partido, neste caso Ivan Valente na Câmara dos Deputados. O partido alegava que a dívida externa brasileira tinha sido transformada em dívida interna;
  • Afastamento de Eduardo Cunha: o partido foi o responsável por protocolar do pedido que levou ao afastamento do então deputado federal Eduardo Cunha;
  • Impeachment de Dilma Rousseff: o PSOL foi um dos partidos a se posicionar contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016;
  • Pacote anticrime: a única bancada da Câmara a votar contra a tramitação urgente do pacote anticrime, proposto pelo então ministro Sérgio Moro.

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História do PSDB: saiba quem fundou o partido e o que ele defende

O partido de Bruno Covas, candidato à Prefeitura de São Paulo, é um dos maiores grupos políticos do Brasil e surgiu durante a redemocratização

Brenda Zacharias, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 13h13

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) é um dos 33 partidos políticos brasileiros em atividade. Fundado em 1988, tem entre os seus membros um ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, além de ex-governadores em São Paulo e Minas Gerais, dentre outros Estados. É representado por um tucano, símbolo adotado quando ainda estava sendo formado.

Na atual disputa pela Prefeitura de São Paulo, cidade que já teve outros dois nomes do partido à frente do governo, os tucanos são representados por Bruno Covas, neto de um dos fundadores do PSDB, o ex-governador Mário Covas.

De acordo com o cientista político Tiago Daher, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o ponto de convergência entre o partido do atual prefeito e o de seu adversário, Guilherme Boulos (PSOL), é que ambos surgiram a partir da dissidência de partidos mais tradicionais, ainda que em épocas diferentes. De perfil moderado, Bruno Covas simboliza uma renovação no partido: “A geração da redemocratização envelheceu. Por isso, a renovação acontece com certa velocidade”, explica ele. Isso, segundo Daher, sem deixar de manter a postura típica do partido. “Ele mantém o discurso pró-eficiência, que é típico de candidatos do partido”, diz.

Veja, a seguir, como surgiu o PSDB, as principais diretrizes do partido e o histórico em eleições.

Como surgiu o PSDB

Fundado em 25 de junho de 1988, o PSDB foi idealizado por dissidentes do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), hoje chamado apenas de MDB. Franco Montoro, governador de São Paulo entre 1983 e 1987, entregou a sua carta de desfiliação do partido em junho de 1988, alegando acreditar que o partido havia se distanciado da oposição ao regime militar e estava “dominado pelo fisiologismo”.

Nos dias seguintes, outros dissidentes se juntaram ao ex-governador, como os então senadores Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Em 24 de junho, um grupo de apoiadores se reuniu na Câmara dos Deputados, em Brasília, para oficializar a união; o nome só foi decidido no dia seguinte. “Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, nasce o novo partido”, disse Montoro na ocasião. 

Em linhas gerais, o grupo estava descontente com o governo de José Sarney já há algum tempo. Em 1987, o então presidente contrariou a proposta de estabelecer um regime parlamentarista com mandato de quatro anos para o País, defendida por alguns membros de seu próprio partido. A partir desses entraves, criou-se o Movimento da Unidade Progressista (MUP), grupo suprapartidário que seria o embrião do PSDB, identificado como uma ala mais progressista do partido.

O primeiro presidente do partido foi Mário Covas, que mais tarde seria governador de São Paulo, eleito por uma comissão provisória. De acordo com reportagem publicada no Estadão em 26 de junho daquele ano, o “maior obstáculo” à permanência de Covas no antigo partido era a falta de renovação e de espaço para que ele pudesse se candidatar à Presidência da República.

Em 6 de julho, o partido foi registrado provisoriamente, o que possibilitou que disputasse as eleições municipais que ocorreriam naquele ano. 

Quem participou da fundação

O livro de fundadores teve 880 assinaturas, de acordo com reportagem do Estadão publicada em 25 de junho de 1988. Entre os primeiros membros do PSDB, se destacam:

  • Franco Montoro, governador de São Paulo entre 1983 e 1987;
  • Mário Covas, então senador por São Paulo. Governou o Estado depois, entre 1995 e 2001;
  • Fernando Henrique Cardoso, então governador por São Paulo. Foi presidente da República entre 1995 e 2003;
  • Sérgio Motta, ex-presidente da Eletropaulo e Hidrobrasileira, mais tarde ministro de Comunicações no governo de FHC;
  • José Richa, governador do Paraná entre 1983 e 1987;
  • José Serra, então deputado, foi governador de São Paulo entre 2007 e 2010 e hoje é senador pelo Estado;
  • João Pimenta da Veiga, ex-deputado federal e prefeito de Belo Horizonte entre 1989 e 1990. Hoje preside o Instituto Teotônio Vilela.

Por que o tucano virou o símbolo do PSDB?

Já no evento de fundação do partido, o tucano estampava as decorações do partido. A ave foi escolhida por ser uma espécie brasileira e para facilitar a comunicação com o eleitorado.

Além disso, Franco Montoro escreveu neste documento que o animal foi escolhido por ter penugem amarela no seu peito; a cor faria, então, referência ao movimento das Diretas-Já, campanha pelas eleições diretas e cujos participantes se identificavam pelas camisetas de cor amarela. 

Azul, amarelo e branco foram definidas como as cores oficiais do partido.

Quantos filiados tem o PSDB?

O partido é um dos maiores do País em número de filiados. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em outubro deste ano, contava com 1.373.790 membros. Estava atrás apenas do MDB (2.158.996) e do PT (1.534.821).

De quantas eleições o PSDB participou em São Paulo?

Na cidade de São Paulo, o partido teve candidato em todas as eleições municipais desde a sua fundação, em 1988. Apenas dois foram eleitos até o momento: José Serra, em 2004, e João Doria, em 2016.

  • 1988: José Serra (quarto colocado);
  • 1992: Fábio Feldmann (quarto colocado);
  • 1996: José Serra (terceiro colocado);
  • 2000: Geraldo Alckmin (terceiro colocado);
  • 2004: José Serra (eleito);
  • 2008: Geraldo Alckmin (terceiro colocado);
  • 2012: José Serra (segundo colocado);
  • 2016: João Doria (eleito);
  • 2020: Bruno Covas (disputa o segundo turno no dia 29).

No mandato de 2021-2024, o partido terá uma bancada na Câmara Municipal com oito membros.

Figuras famosas do PSDB e ex-membros

Outras lideranças políticas que ainda são filiadas ao PSDB, como:

  • João Doria, governador de São Paulo;
  • Tasso Jereissati, ex-governador do Ceará;
  • Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato à Presidência em 2018;
  • Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência em 2014;
  • Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul;
  • Reinaldo Azambuja, governador de Mato Grosso do Sul;
  • Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo.

Outros políticos ainda em atividade já fizeram parte do PSDB, mas se desligaram do partido. Entre eles:

  • Ciro Gomes, hoje no PDT, foi o primeiro governador eleito pelo partido, no Ceará;
  • Celso Russomanno, hoje no Republicanos, concorreu à Prefeitura de São Paulo em 2020;
  • Eduardo Paes, hoje no Democratas, está no segundo turno da disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro;
  • Andrea Matarazzo, hoje no PSD, concorreu à Prefeitura de São Paulo em 2020;
  • Luiz Carlos Bresser Pereira, cientista político e ministro da Fazenda em 1987. Deixou o partido em 2010, alegando que o partido se tornara “conservador”.

Estatuto do partido

Em seu estatuto, documento que consolida o regimento interno e o princípios do partido, o PSDB destaca que tem como base a “democracia interna e a disciplina” e nele prevalece o “respeito ao pluralismo de ideias, culturas e etnias”, “o exercício democrático participativo e representativo” e a “soberania nacional”, entre outros.

O programa também estabelece a prevalência do “trabalho sobre o capital”, tendo como fim a “distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais”. 

Participação em momentos históricos, polêmicas e posicionamento político

O PSDB tem, em sua história, algumas passagens polêmicas, além da participação em momentos históricos do País. Veja algumas delas:

  • Impeachment de Collor: a união do PSDB ao PT e ao PMDB garantiu quase metade dos votos na Câmara a favor do impeachment de Fernando Collor. Depois que o então presidente foi afastado, o vice-presidente e tucano Itamar Franco assumiu a cadeira;
  • Mensalão mineiro: a campanha pela reeleição de Eduardo Azeredo para o governo de Minas Gerais, em 1998, culminou em um escândalo de peculato e lavagem de dinheiro que ficou conhecido como “Mensalão mineiro”; 
  • Licitações no transporte público de São Paulo: outro escândalo envolvendo membros do partido estourou em 2013, quando empresas ferroviárias e de tecnologia relataram a existência de um cartel na construção do metrô na capital;
  • Impeachment de Dilma Rousseff: o partido foi favorável ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT); membros participaram de manifestações contra o governo da petista, mas o partido não chegou a organizar diretamente nenhum deles.

O PSDB apoia o governo Bolsonaro?

O partido se situa no bloco independente da Câmara; ou seja, não faz parte nem da base nem da oposição ao governo de Jair Bolsonaro. No entanto, já há algum tempo que membros do partido propõem o rompimento absoluto com o atual presidente, situação essa agravada pela pandemia do novo coronavírus e os constantes ataques de Bolsonaro ao governador de São Paulo, João Doria.

Em junho, Bruno Araújo, atual presidente do partido, publicou no site do partido um texto esclarecendo a posição. “O PSDB disputou a eleição contra o PT e contra Bolsonaro. O PSDB não é PT e não é Bolsonaro. O PSDB continua tendo sua própria história, da qual se orgulha”, escreveu no texto. Segundo ele, o partido não era favorável, naquele momento, a um processo de impeachment do presidente por causa da pandemia e que o “caminho do PSDB é a oposição ao governo Bolsonaro, distante dos extremos”.

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