Haiti, uma fonte de lições

Para ONU, tarefa de ajudar o país está no fim. O Brasil quer ficar mais um pouco

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2014 | 22h00

As madrugadas no Haiti são sempre quentes, úmidas e perigosas. Não há iluminação na maioria das ruas da capital, Porto Príncipe, e grupos armados ainda circulam entre as zonas de favela, dez anos depois da chegada do primeiro contingente militar internacional, em 2004.

Há pouco mais de um mês, a tropa brasileira do Batalhão de Infantaria da Força de Paz via essa paisagem com óculos de visão noturna, a bordo de blindados e, a partir de um certo ponto, avançando a pé, pela ravina dupla de Chat Noir. Com fuzis, metralhadoras pesadas e pistolas prontos para uso.

Há dois corredores de acesso à comunidade, uma área controlada pela força do Sri Lanka, 861 soldados. Uma operação de emergência que envolveu também os Fuzileiros Navais, e a Polícia Nacional do país. O objetivo era subir o morro pelas vielas estreitas e congestionadas - sem água na parte alta, os moradores recorrem a poços e fontes na base da encosta - para estabelecer cinco postos de controle. As gangues locais, de traficantes principalmente, estavam em conflito aberto. A morte do líder do segundo maior grupo do complexo de Grand Ravine, assassinado por um chefe concorrente, havia iniciado um conflito armado entre as facções pel0 controle da região. O general comandante das forças da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), o brasileiro José Luis Jaborandy Junior, liderou a ação de campo.

De acordo com um analista do Ministério da Defesa, o resultado para o Batalhão do Brasil, o Brabat, foi “o aperfeiçoamento da capacidade de planejar em conjunto, com forças diversas”. No final do dia 25 de julho, o território de Grand Ravine estava dominado. Não houve confronto.

A coleta de dados de inteligência permitiu a intervenção nos núcleos de sub-habitação de Pelé e Simon, há três semanas. As zonas são separadas por uma linha de construções precárias e desocupadas, conhecida como Faixa de Gaza. O Grupamento de Fuzileiros Navais conteve a escalada.

Alguma coisa a ver com as ocupações, no Rio, dos complexos da Maré e do Alemão? Sim, há muito. “Este é o ganho mais expressivo da Missão Haiti - aprendemos a empregar nossas Forças nos cenários certos, a produzir informações estratégicas, a trabalhar em conjunto, a sair do País, criando a doutrina das missões expedicionárias”, disse ao Estado, esta semana, um general ex-integrante do batalhão.

Lição e missão. A ONU considera a possibilidade de retirar a Minustah em 2016. Segundo o secretário-geral Ban Ki Moon, seria “o momento de o Haiti reconstruir-se de forma independente”. Formalmente, o Itamaraty e a Defesa concordam em que caberá ao Conselho de Segurança fazer a avaliação. Mas há divergências.

Oficiais superiores e de planejamento, alguns deles com a experiência das operações no Haiti, não concordam com a saída, defendem a tese das metas não atingidas. Acham que o protagonismo do Brasil como potência regional pode ser exercido por meio da participação nas missões de preservação e de imposição da paz mediante mandatos da ONU.

O ministro da Defesa e ex-chanceler Celso Amorim destaca que “não existe prazo definido para o fim da Minustah. Entretanto, dois anos, cerca de 2016, parece um horizonte razoável. Até lá, a Polícia Nacional haitiana deverá estar contando com 15 mil homens treinados”. Para Amorim, a questão política também terá avançado nos próximos 24 meses: “Também em 2016 o Haiti já terá realizado a terceira eleição presidencial consecutiva desde a implantação da Minustah. Creio que o país caminha no sentido de cuidar de si próprio - o que sempre foi o objetivo fundamental da missão.”

O Brasil “não sairá de forma irresponsável do Haiti”, ressalta Amorim, lembrando que foi firmado um acordo bilateral de cooperação, “para a formação de um Corpo de Engenheiros Militares”. Será uma parceria de seis anos que prevê a formação de 200 a 250 engenheiros, “capacitados a trabalhar tanto no fortalecimento da infraestrutura do país como na pronta resposta em casos de tragédia, como a ocorrida em 2010”.

O general Jaborandy Junior é o comandante da Força - cerca de 5,8 mil militares de 21 países. Na sua análise, seria “cauteloso manter aqui, após 2016, um pequeno contingente militar, para manter a sensação de segurança e oferecer apoio humanitário”. Em Brasília, um oficial do Estado-Maior concorda com Jaborandy e acrescenta ao pacote a conveniência da “preservação de uma infraestrutura, capaz de receber novas missões militares que eventualmente venham a ser necessárias”.

Enquanto isso, a rotina de deveres na base brasileira em Porto Príncipe continua. A agenda das missões é intensa. O refeitório exige cerca de 350 quilos de boa comida, servida quatro vezes ao dia. Há espaço para futebol, academia de ginástica e área de lazer. O clima é de calma - mas só até a hora de vestir a couraça a prova de bala, verificar a munição, embarcar no blindado - e percorrer as ruas da Cidade do Sol.

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