Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Haddad perde apoio de Ciro Gomes, mas ganha Joaquim Barbosa

Na véspera da eleição, candidato do PT recebeu apoios significativos; especialista vê eleição 'mais aberta'

Clarice Couto e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2018 | 23h00

Na véspera da eleição, Fernando Haddad (PT) perdeu o apoio que vinha pleiteando do candidato derrotado Ciro Gomes (PDT), terceiro colocado na disputa presidencial, mas ganhou contribuição significativa de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e o responsável pelo julgamento do mensalão, que condenou dirigentes do PT envolvidos no escândalo de corrupção. 

Em seu Twitter, Barbosa publicou que o voto é uma escolha racional e que ele pesou os aspectos positivos e negativos de cada candidato antes de decidir. "Pela primeira vez em 32 anos de exercício do direito de voto, um candidato me inspira medo. Por isso, votarei em Fernando Haddad", afirmou. Em 12 horas, a publicação teve 174 mil reações positivas, foi compartilhada 92 mil vezes e recebeu 19 mil comentários. 

O cientista político e coordenador do mestrado Gestão em Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Cláudio Couto, avaliou que a declaração de apoio foi "importantíssima" para o crescimento dele nas pesquisas de intenção de voto divulgadas neste sábado, 27. Segundo levantamento do Ibope, Haddad apareceu com 46% dos votos válidos contra 54% de Jair Bolsonaro (PSL). Em quatro dias, a diferença caiu de 14 pontos porcentuais para oito pontos.

"É uma pessoa que atuou contra a corrupção nos últimos anos, inclusive contra o PT. Imagino que a declaração pode ter um efeito em muita gente que gostava do Joaquim Barbosa e ficava ressabiada quanto ao PT", disse. Para o cientista político, parte de seu efeito sobre as intenções de votos declaradas pelos eleitores pode não ter sido captada, já que os levantamentos começaram antes desse apoio. 

O ex-procurador-geral da RepúblicaRodrigo Janot, também anunciou que vai votar em Haddad. "Já fui chamado de petista e antipetista. Já fui psdebista e anti também. Não posso deixar passar barato discurso de intolerância e etc. Por exclusão, voto em Haddad", informou, provocando reações dos dois lados nas redes sociais. 

A declaração de apoio do youtuber Felipe Neto, um dos mais conhecidos do Brasil - ele tem 8 milhões de seguidores no Twitter -, também teve um peso importante na reta final da campanha, na avaliação de Couto. O cientista considera, além disso, que a "insistência contínua sobre o caráter antidemocrático da candidatura de (Jair) Bolsonaro", por parte da campanha de Haddad, surtiu efeito maior na reta final da corrida presidencial.

"Também tem a reorientação, ainda que tímida, de a campanha de Haddad fazer um mea culpa sobre certos assuntos, como políticas econômicas (adotadas por governos) do PT", afirmou. Couto ponderou que ainda há grande distância entre os dois candidatos, mas avaliou que a "eleição (presidencial) está mais em aberto do que há alguns dias atrás".

O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches considerou que Bolsonaro ainda é favorito, mas "a tendência mudou". "Tem um ventinho soprando a favor de Haddad e contra Bolsonaro. Se vai se acelerar na boca da urna, não sabemos. Não dá para dizer que não é possível; possível é, mas pouco provável", disse. 

Segundo Abranches, o petista se beneficiou porque "desavermelhou" sua campanha. "Se comparar fotos das manifestações dos últimos dias, tem muito pouca bandeira vermelha e mais a cor branca. Ele acertou um discurso mais de união para pegar os que não são petistas, mas são anti Bolsonaro."

Frustração

Por sua vez, Ciro frustrou as expectativas do petista, que vinha fazendo acenos a Ciro. “Claro que todo mundo preferia que eu, com meu estilo, tomasse um lado e participasse da campanha. Mas eu não quero fazer isso por uma razão muito prática, que eu não quero dizer agora, porque se eu não posso ajudar, atrapalhar é o que eu não quero”, disse Ciro Gomes no vídeo, sem citar os nomes de nenhum candidato. Em sete horas, o vídeo teve 616 mil reproduções na página oficial de Ciro no Facebook. 

Logo após o fim do primeiro turno, o PDT chegou a anunciar "apoio crítico" ao PT. Na época, o presidente da sigla, Carlos Lupi, disse que a decisão era mais uma posição contrária a Bolsonaro e "aos riscos que ele representa" do que um apoio ao projeto de governo de Haddad. 

Cláudio Couto considerou que o apoio poderia ter ajudado o presidenciável do PT a subir mais nas pesquisas. E considerou que a decisão, do ponto de vista de estratégia de Ciro para o futuro, "pode ter sido um tiro no pé". "Sendo o Ciro tão alinhado à esquerda e o (seu) partido tendo dado apoio crítico (a Haddad) lá no começo, o movimento era esse. Ao ficar nessa posição, parece que se queimou com a esquerda", disse Couto. 

Na avaliação de Sérgio Abranches, os efeitos não serão tão significativos. "Minha suspeita é de que quem era de esquerda e votou no Ciro no primeiro turno, logo após o resultado se voltou ao Haddad imediatamente. O mesmo com a Marina", comentou. "O eleitor que o Ciro poderia influenciar é o que não é de esquerda, que talvez possa estar agregado ao Bolsonaro por falta de alternativa e que, se pensar melhor, poderia mudar", complementou. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.