Haddad em campo

Tudo caminha para Lula se materializar no ex-prefeito de São Paulo e chacoalhar a eleição

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 03h00

A grande novidade da eleição presidencial, tão pulverizada e incerta, está para surgir: a entrada em cena do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que une o útil, a força do ex-presidente Lula, ao agradável, a sua própria imagem, que extrapola o PT.

Condenado, preso, longe de holofotes e microfones, Lula mantém seus inacreditáveis 30% das pesquisas, numa eleição com tantos nomes e nenhuma certeza. Logo, Lula é quem tem o maior capital e o maior potencial de transferência de votos.

Livre, passando ao largo de denúncias de corrupção, Haddad é aquele bom moço sem a pecha, as marcas e as cicatrizes do PT e amplia o leque de eleitores do partido. Petista só vota em petista, mas tem muita gente que não morre de amores pelo PT, mas poderia votar de bom grado no professor Haddad.

Lula e Haddad, portanto, se complementam. Um tem voto, mas alta rejeição. O outro não tem voto, mas não tem rejeição. Um garante a largada, o outro tem de fazer o resto, ganhar fôlego, abrir horizontes. Ou atrair as elites, assim como José Alencar, em 2002, atraiu o capital.

De bobo, Lula não tem nada, muito pelo contrário. E ele acha plenamente possível que em algum momento seja solto, mas dificilmente trabalha com a hipótese de ser candidato até o fim. Sabe que sua candidatura tem mil e uma utilidades, mas é uma ficção.

Aliás, será mesmo que Lula gostaria de voltar à Presidência? Ele saiu do Planalto com 80% de popularidade, governou com a herança bendita de Fernando Henrique e numa época de prosperidade na América do Sul raramente vista. Voltar para quê? Para enfrentar a crise, a dívida, os 13 milhões de desempregados e os Estados falidos?

É muito mais cômodo – e prudente – que Lula use a “candidatura” para manter força política, exposição na mídia e carregar um candidato nas costas. Alguém que não precise ter o que ele já tem, mas agregue o que ele não tem. Quem poderia ser, além de Fernando Haddad?

Lê-se que Haddad acaba de se lembrar que é bacharel em Direito, foi buscar a carteira da OAB e vai integrar a equipe de defesa de Lula – já tão congestionada, causando atropelos e batidas. Para disputar com Cristiano Zanin, que está desde o começo? E com Sepúlveda Pertence, que é um ás?

Logo, o advogado Haddad tem um único objetivo: obter passe livre para entrar e sair da prisão de Curitiba, com acesso direto a Lula. E não me venham dizer que vão falar de flores. O (muito) mais provável é que falem de... eleição.

Até aqui, Jair Bolsonaro está isolado na liderança, petulante ao ponto de prever vitória em primeiro turno, e o segundo pelotão está embolado com Marina, Ciro, Alckmin e, tentando correr atrás, Alvaro Dias. O resto é o resto. Mas a entrada de Haddad para valer tem potencial para dar uma boa chacoalhada nisso.

O primeiro efeito tende a ser nas pretensões de Ciro, que só chegou até onde chegou no vácuo do PT, troca desaforos com a própria sombra e cria constrangimento para empresários na casa deles, a CNI. A um sinal de Lula, boa parte dos votos do Nordeste migram para Haddad. E, sem Nordeste, não há Ciro.

Consolidadas a direita, com Bolsonaro, e a esquerda, com Lula materializado em Haddad, que o centro trate de jogar a sério, deixando vaidades de lado. O treino está acabando e a pergunta é: quem quer levar a culpa por um segundo turno entre Bolsonaro e PT?

Tem candidato que não tem voto para se eleger, mas tem para impedir as chances do centro. Aliás, é isso que Fernando Henrique e o próprio Alckmin tentam dizer para Alvaro Dias, que divide os votos de centro no Sul. Assim como não seria surpresa a candidatura de Haddad a presidente, não seria a de Dias ao governo do Paraná.

P.S.: O jogo de hoje, o de futebol, vai ser de matar do coração. Dá-lhe, Brasil!

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