Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters

Haddad é mais moderado que Bolsonaro, diz 'The Economist'

Apesar do 'nojo' pelo PT ser justificado, na opinião da revista, candidato do PT é o único que pode impedir candidato do PSL de chegar à Presidência

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 16h22

LONDRES  - Após uma série de reportagens críticas ao candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, a revista britânica The Economist , destacou em sua edição desta semana que Fernando Haddad (PT) é mais moderado e menos popular do que seu rival incendiário. Ainda de acordo com a revista,  o "nojo" pelo Partido dos Trabalhadores é justificado, mas o petista, que está em uma "luta difícil", é apontado como o único homem que pode impedir Bolsonaro de chegar ao cargo.

O semanário salientou que personalidades geralmente importam mais na política brasileira do que os partidos. Mas se Bolsonaro, um populista de direita, vencer a eleição presidencial em 28 de outubro, será em grande parte porque os eleitores desprezam o PT.

A Economist lembrou que no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a economia cresceu e a pobreza diminuiu. Já a sua sucessora, Dilma Rousseff,  foi um desastre. Sua má administração da economia ajudou a causar a pior recessão do Brasil. E a corrupção em grande escala veio à luz por meio das investigações Lava Jato, mas ela sofreu impeachment por conta de outras acusações, enquanto Lula agora cumpre uma condenação de prisão por corrupção.

O antipetismo, ressaltou a revista, é anterior à Lava Jato, que também contaminou outros grandes partidos. A rejeição a sua ideologia de esquerda, que é legítima, na avaliação da publicação, é às vezes tingida de esnobismo. A professora Tereza Ruiz diz que seu pai considerava Lula, que nunca frequentou a universidade, como um "semiletrado". Esses eleitores são receptivos à mensagem de Bolsonaro de que o PT é singularmente perigoso. Não se limitou a governar mal e de forma corrupta, diz Bolsonaro. Dada uma segunda chance no poder, transformaria o Brasil em outra Venezuela, uma ditadura empobrecida.

Isso, no entanto, é apontado pelo semanário, como uma leitura errada do partido e do seu candidato. "O PT não tem credenciais democráticas impecáveis", mas "sempre foi jogado pelas regras do sistema democrático", disse Sergio Fausto, diretor da Fundação FHC, think tank criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (e um inimigo político do PT). Embora os eleitores tenham fortes razões para duvidar de que um governo futuro seria bom para a economia, "uma política econômica desastrosa não é o mesmo que extremismo", destacou Claudio Couto, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Moderação

 Em comparação com Bolsonaro, que insulta grupos minoritários e gosta de ditadores desde que sejam de direita, Haddad é uma figura reconfortante, na opinião da publicação. "Embora seu partido se incline para a esquerda, ele é moderado." Ex-professor de graduação em economia, direito e filosofia, ele foi ministro da Educação no governo Lula. Haddad nomeou reitores de universidade por mérito, em vez de conexões políticas, uma nova política, e projetou maneiras de aumentar a matrícula de estudantes pobres e não brancos.

A revista continua descrevendo outras qualidades do político. Disse que, como prefeito de São Paulo, de 2013 a 2016, ele reduziu o déficit orçamentário e garantiu à cidade uma classificação de crédito com grau de investimento. Mas irritou os motoristas, abrindo mais espaço para ciclistas e pedestres. Para os eleitores pobres, se mostrou distante e professoral. Em sua tentativa de reeleição em 2016, perdeu.

Durante grande parte da campanha deste ano, o PT falou principalmente sobre sua base, pessoas pobres com boas lembranças da presidência de Lula. Isso fez algum sentido, de acordo com a The Economist, pois foi com seus votos que Haddad entrou no segundo turno. Mas também fez lembrar aos eleitores o que eles mais não gostam do partido. O PT expressou autopiedade. O impeachment de Dilma foi um "golpe". Esquerdistas como Gleisi Hoffmann, a presidente do partido, falaram em perdoar Lula. Muitos brasileiros temem que o PT acabe com a investigação da Lava Jato se o partido recuperar o poder.

A revista trouxe ainda que seu programa de campanha, escrito enquanto Lula ainda era o candidato (ele foi proibido de participar em 1º de setembro), tem o selo da esquerda do partido. Isso sugere que gastos excessivos com aposentadorias, a maior ameaça à estabilidade econômica, serão resolvidos pelo crescimento econômico e pelos benefícios para os funcionários públicos - isso não acontecerá, de acordo com a publicação. O plano pede uma reversão de uma reforma do mercado de trabalho realizada pelo atual presidente, Michel Temer, e mais empréstimos de bancos estatais. Isso exigiria que o Banco Central visasse tanto ao emprego quanto à inflação. Propôs, ameaçadoramente, uma assembleia constituinte para revisar a Constituição.

 

Tarde demais.

Depois de entrar no segundo turno, Haddad foi para o centro. Começou a falar sobre os "erros" da PT; substituiu o vermelho em pôsteres pelo verde e amarelo; e afastou partes do plano de governo, incluindo a ideia de convocar uma assembleia constituinte. Ele promete reduzir os gastos e resiste à ideia de aumentar o crescimento com empréstimos subsidiados. Evita falar de perdoar Lula, a quem parou de fazer visitas às prisões. A administração de Dilma não impediu as investigações de Lava Jato, ele argumenta. Mas Haddad e o PT provavelmente deixaram tarde demais para convencer os brasileiros de que aprenderam com seus erros. Como resultado, concluiu, o Brasil está pronto para eleger um presidente que representa uma ameaça real à jovem democracia do País. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.