REUTERS/Rodolfo Buhrer
REUTERS/Rodolfo Buhrer

Haddad diz que teme pessoas que 'sairão dos porões' se Bolsonaro ganhar

Em sabatina, candidato do PT afirmou que regimes autoritários tentam criar fantasmas para vender 'vacinas que não existem'

Roberta Pennafort e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2018 | 14h00

O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidente da República, Fernando Haddad, disse que, ao contrário do ex-adversário Ciro Gomes (PDT), não vai deixar o País se Jair Bolsonaro, candidato do PSL e líder nas pesquisas de intenção de votos vencer o pleito, mas admitiu, brincando, que também vai chorar.

Em sabatina no jornal O Globo, Haddad afirmou que mais do que a vitória de Bolsonaro, teme as pessoas que "sairão dos porões" se ele for eleito. "A gente tem medo do que vem com ele, ele próprio é um soldadinho de araque", afirmou a jornalistas. "Eu vou lutar em qualquer circunstância, mesmo sendo ameaçado", completou, afirmando não temer tanto o candidato, mas as pessoas "que vão sair dos porões" junto com o Bolsonaro, que já declarou admirar torturadores.

"Regimes autoritários criam fantasmas para vender uma vacina que não existe, temo muito o que pode acontecer se ele vencer, lamento inclusive por vocês (jornalistas) que vão perder a liberdade de expressão", avaliou.

Haddad informou durante a entrevista que ele e sua família estão sendo ameaçados por apoiadores do candidato do PSL e que condena as táticas usadas para enganar o eleitorado, citando o caso da bíblia que ganhou em um comício em Fortaleza e que posteriormente foi supostamente encontrada por um aliado de Bolsonaro no lixo. "Felizmente o ministro que me deu fez questão de vir até o Rio e me dar outra, mas isso (de jogar no lixo) nunca existiu", esclareceu Haddad.

O candidato também reclamou da divulgação pelo adversário de que seria ateu. "O Bolsonaro disse na TV que eu sou ateu, e ninguém faz nada sobre isso, e quem olha isso não vota no Haddad. E por acaso não sou, sou cristão, sou batizado, escolhi casar na igreja, batizei meus filhos na igreja", afirmou. 

Facada

Fernando Haddad disse também que a facada sofrida por Bolsonaro em 6 de setembro acabou por beneficiar a campanha do capitão reformado e aumentou suas chances de se eleger. "Ninguém quer ser esfaqueado para ganhar uma eleição. O fato é que ele subiu dez pontos em uma semana no nosso tracking, isso é fato. Estava entre 18 e 19, o (candidato do PSDB Geraldo) Alckmin estava subindo, indo para o segundo turno com o PT, e ele (Bolsonaro) foi para 28 em dez dias, subiu um ponto por dia". 

Ao responder sobre a dificuldade de conseguir apoios no segundo turno, Haddad afirmou que o PT nunca teve expectativas de trazer o PSDB. Ele lamentou o fato de Ciro Gomes (PDT) não estar a seu lado na campanha. "Fiz minha parte para defender o que considero um projeto democrático de País, sabendo que, em caso de vitória, preciso ampliar o governo para ser mais representativo da sociedade", disse.

"Eu trabalhei com pessoas do PSDB tanto no Ministério da Educação quanto na prefeitura (de São Paulo). Talvez eu seja o petista mais bem relacionado hoje com o PSDB. Eu não sei qual vai ser o futuro do PSDB na eventualidade de o Bolsonaro ganhar. Eles têm raiz social democrata, o que, na minha opinião, deveria ser valorizada. Acho lamentável que o PSDB tenha aderido à negação do que representa", continuou.

Escalada armamentista

Fernando Haddad disse ainda que há risco de confronto bélico no continente se Bolsonaro se eleger, diante de suas declarações sobre a situação na Venezuela. Respondendo a uma pergunta de um jornalista argentino, ele afirmou também que é preocupante a possibilidade de o País ceder aos Estados Unidos a base de Alcântara, no Maranhão, da Força Aérea Brasileira, num governo do PSL.

“Pode haver uma escalada armamentista na região. Os vizinhos já estão em alerta. Todo mundo está prestando atenção ao Brasil”, declarou. “Isso pode fragilizar a posição do Brasil, que não tem visão imperialista com os vizinhos. Sempre foi de cooperação. A gente deveria estar pensando em como ajudar a Venezuela a sair da crise, não em escolher lado e derrubar governos”.

Haddad lembrou que o País não tem tradição de se envolver em conflitos armados. “Eu recebi um vídeo de um discurso supostamente do filho do Bolsonaro, que precisa ser checado, dizendo que uma das primeiras providências seria derrubar o governo Maduro. Pela hostilidade que ele manifesta em relação a esse vizinho em particular, pode ter algum fundamento. Lembrando que o Brasil está há 140 anos sem conflitos com vizinhos, o último foi no século 19. A ideia de colocar base americana no Brasil também é fonte de preocupação. Bolsonaro declarou que a base de Alcântara seria cedida aos americanos.” 

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