Haddad chama general Mourão de torturador

Candidato petista citou suposta fala de músico Geraldo Azevedo, que foi torturado em 1969; vice de Bolsonaro, no entanto, ingressou no Exército apenas em 1975

Roberta Pennafort / RIO e Leonencio Nossa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2018 | 11h59

RIO - O candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, acusou nesta terça-feira, 23, o general Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro (PSL), de ter cometido torturas durante a ditadura militar. Ele se baseou na afirmação feita pelo compositor Geraldo Azevedo, que, em um show na Bahia no último fim de semana, criticou Bolsonaro e seu vice. O artista pernambucano teria contado no palco que foi preso duas vezes durante a regime ditatorial e que Mourão “era um dos torturadores”. 

“Bolsonaro nunca teve nenhuma importância no Exército. Mas o Mourão foi, ele próprio, torturador. O Geraldo Azevedo falou isso. Ver um ditador como eminência parda de uma  figura como Bolsonaro deveria causar temor em todos os brasileiros minimamente comprometido com Estado Democrático de Direito”, disse Haddad em sabatina promovida pelos jornais O Globo e Valor Econômico e pela revista Época.

O músico pernambucano teria feito as declarações durante um show em Jacobina, na Bahia, no sábado, 20. "Olha, é uma coisa indignante, cara. Eu fui preso duas vezes na ditadura, fui torturado, você não sabe o que é tortura, não. Esse Mourão era um dos torturadores lá", afirmou Azevedo.

De acordo com sua biografia, Geraldo Azevedo foi preso em 1969 com a esposa durante a ditadura militar, sendo torturado por 41 dias. Mourão, no entanto, ingressou no Exército em 1972, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) onde, em 12 de dezembro de 1975, foi declarado aspirante-a-oficial da Arma de Artilharia. É filho do general de divisão Antonio Hamilton Mourão e Wanda Coronel Martins Mourão (ambos amazonenses) e ingressou no Exército em fevereiro de 1972.

À tarde, ao comentar o engano, Haddad disse que se solidariza com artista e que Mourão defendeu o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Citando Azevedo, ele afirmou mais cedo, em sabatina no jornal "O Globo", que o general era torturador. O compositor já se retratou.

"Eu dei a público uma informação que recebi de fonte fidedigna. Geraldo Azevedo realmente foi torturado e realmente disse que foi pelo Mourão", disse. "Eu me solidarizo com ele, todo mundo que foi torturado está sujeito a esse tipo de confusão. O esclarecimento também teve que se dar a público para que não haja dúvida. Isso não tira o fato de que o Mourão, quando passou para a reserva, disse com todas as letras que o Ustra, um torturador, era uma de suas referências. Tanto o Bolsonaro quanto o Mourão têm o Ustra como referência." Mourão afirmou que vai processar o compositor.

Na sabatina, Haddad refirma que Bolsonaro é 'facista'

Quando perguntado sobre o emprego da palavra “fascista” para classificar o oponente, Haddad reiterou na sabatina, chamando Bolsonaro de “bicho”: “Ele tem como vice um torturador. Tem como ídolo um torturador, que é (o general Brilhante) Ustra. Para mim, isso é fascismo. Se vocês quiserem dar outro nome pra adocicar o Bolsonaro... Estamos diante de um bárbaro, que não respeita ninguém há 30 anos. É o pior dos porões”.

Ao comentar a suposta compra de pacotes de envios de mensagens via WhatsApp para beneficiar Bolsonaro, divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo, ele fez uma mea culpa: “Cometemos um erro estratégico porque não supomos que iam usar WhatsApp para financiar campanha. A gente imaginava que as redes sociais teriam papel de impulsionamento, mas o que aconteceu no primeiro turno e pode acontecer agora não tem nada a ver. Estão driblando o velho caixa dois e criando um novo caixa dois. É o empresário pagar do próprio bolso para fazer emissão em massa de mensagens. Não imaginávamos”.

Para Haddad, facada beneficou Bolsonaro durante campanha

Haddad ainda disse que a facada sofrida por Bolsonaro no dia 6 de setembro acabou por beneficiar sua ampanha, e aumentou suas chances de se eleger. “Ninguém quer ser esfaqueado para ganhar uma eleição. O fato é que ele subiu dez pontos em uma semana no nosso tracking, isso é fato. Estava entre 18 e 19, o (candidato do PSDB Geraldo) Alckmin estava subindo, indo para o segundo turno com o PT, e ele (Bolsonaro) foi pra 28 em dez dias, subiu um ponto por dia”, afirmou, em sabatina promovido pelos jornais “O Globo” e Valor Econômico e a revista Época.

Ao responder sobre a dificuldade de conseguir apoios no segundo turno, Haddad afirmou que o PT nunca teve expectativas de trazer o PSDB. Ele lamentou o fato de Ciro Gomes (PDT) não estar a seu lado na campanha. “Fiz minha parte para defender o que considero um projeto democrático de País, sabendo que, em caso de vitória, preciso ampliar o governo para ser mais representativo da sociedade”, disse.

“Eu trabalhei com pessoas do PSDB tanto no Ministério da Educação quanto na prefeitura (de São Paulo). Talvez eu seja o petista mais bem relacionado hoje com o PSDB. Eu não sei qual vai ser o futuro do PSDB na eventualidade de o Bolsonaro ganhar. Eles têm raiz social democrata, o que, na minha opinião, deveria ser valorizada Acho lamentável que o PSDB tenha aderido à negação do que representa”, continuou.

O candidato do PT respondeu sobre a participação do ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli (entre 2005 e 2012) em sua campanha, a despeito dos casos de corrupção na empresa – foi arguído se isso não seria um “mau sinal” para o eleitor. 

“Ele não responde por nenhum desvio de recurso, não foi delatado por absolutamente ninguém. Foram delatados os diretores, que tinham 25, 30 anos de Petrobras. Eram de carreira, com dinheiro em paraíso fiscal. Gabrielli não tem nada a ver com (Nestor) Cerveró, Paulo Roberto Costa”. Ao ser questionado sobre os leilões do pré-sal, declarou que “não é papel desse governo definir leilão, e sim do governo eleito”.

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