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Boulos diz que ocupações são consequência da omissão do poder público: 'Levar vantagem em barraco?'

Candidato, que abriu a série de sabatinas da Rádio Eldorado, defendeu a criação de programa de moradias populares e regularização da ocupação Vila Nova Palestina; ouça a entrevista

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 09h30

O candidato Guilherme Boulos (PSOL) abriu nesta segunda-feira, 19, a série de sabatinas da Rádio Eldorado com os candidatos à Prefeitura de São Paulo. Durante a entrevista, Boulos defendeu o combate a esquemas de corrupção na administração pública e a cobrança da dívida ativa do município estimada pelo candidato em R$ 130 bilhões como forma de garantir recursos para custear programas sociais de habitação e renda. Coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Boulos negou ter interesses pessoais nas ocupações e afirmou que elas só acontecem por omissão do poder público.

A Prefeitura de São Paulo tem uma taxa de investimento muito abaixo de sua capacidade, na avaliação do candidato. Segundo Boulos, nos últimos 15 anos, foram investidos anualmente R$ 10 milhões, frente a um orçamento de R$ 70 bilhões/ano. Ele também afirmou que o governo manteve R$ 17 bilhões em caixa, sem aplicação para a sociedade paulistana, mesmo durante a pandemia.

"Isso já expressa o tipo de um governo que acha que Prefeitura tem que ser para acumular. Esses R$ 17 bilhões poderiam ter virado respirador durante a pandemia e salvado vida de muita gente, podia ter virado contratação de médico na periferia e salvado a vida de muita gente. Essa é a visão de quem não governa para pessoas, de quem governa para negócios, eu não tenho essa visão", disse Boulos.

Além dos recursos em caixa, Boulos afirmou que, se eleito, vai "pôr uma lupa" nos contratos da Prefeitura com as empresas de transporte coletivo e as contratadas para oferecer o serviço de creche, a fim de identificar a correta destinação dos recursos, bem como vai cobrar R$ 130 bilhões de dívida ativa de empresas e grandes devedores do município para implantar seu projeto de renda básica.

"Grandes devedores, grandes bancos, planos de saúde, uma série de grandes empresas que devem e não pagam. Quem está ouvindo a gente agora paga IPTU, paga IPVA... por que um banqueiro não vai pagar imposto para a cidade? Por que ele frauda ISS e a Prefeitura depois não cobra? Nós vamos cobrar", disse Boulos, que ainda defendeu que o município está longe do teto de gastos quando avaliadas despesas como previdência e salários.

MTST e ocupações

Boulos também respondeu a perguntas sobre sua relação com o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e sobre como seu governo pretende tratar a questão das ocupações na capital paulista.  "Às vezes as pessoas têm um preconceito enorme, acham que sem-teto são pessoas que não querem trabalhar, querem tomar o que é dos outros. Vocês acham que alguém quer levar vantagem ficando embaixo de um barraco de lona? Num chão de terra batida? Isso é vantagem para alguém? As pessoas vão para uma ocupação porque não tem outra alternativa", disse Boulos.

O candidato ainda propôs um plano de moradia popular, cedendo terrenos da Prefeitura na periferia da cidade para trabalhadores sem-teto, e por meio de mutirões - com a entrega de material de construção aos moradores, que construiriam suas moradias com assessoria técnica do Município.

Boulos ainda afirmou que uma das prioridades do seu governo será a regularização da ocupação Vila Nova Palestina, no M'Boi Mirim, onde vivem 1.500 pessoas em uma área prevista, inicialmente, para abrigar um parque. De acordo com o candidato, apenas 1/3 da área será ocupada por moradias populares.

Saúde e pandemia

O candidato também criticou a condução da pandemia na cidade de São Paulo pelo atual prefeito, Bruno Covas (PSDB). Falando de sua proposta para garantir um projeto de imunização – que priorizaria grupos de risco –, Boulos afirmou que  São Paulo dispõe de uma rede de 8 mil agentes de saúde que deveria ter sido utilizada pela gestão atual para fazer testagens em massa, mas teria sido ignorada.

"São Paulo é a terceira cidade do mundo onde mais morreu gente por covid. Só está atrás de Nova York e da Cidade do México. Ou seja, a atuação da prefeitura nesse processo foi, no mínimo, equivocada. Não utilizou equipamentos públicos para fazer isolamento, não utilizou os agentes comunitários de saúde para fazer testagem, manteve hospitais fechados durante a pandemia", disse. Boulos também defendeu que a volta às aulas em São Paulo só ocorra quando houver segurança sanitária para alunos e profissionais de educação. 

Transporte público

O candidato do PSOL afirmou que, se eleito,  vai "botar uma lupa" sobre "a máfia dos transportes" na capital. Boulos criticou o sistema de remuneração da Prefeitura às empresas e propôs uma revisão dos repasses, vinculada a qualidade do serviço.

"As empresas de ônibus recebem subsídio da Prefeitura com base no número de passageiros que elas transportam, e não quanto ao custo real delas – ou seja, quantos ônibus, quantas frotas tem na rua. Elas ganham mais se empurram mais gente dentro do ônibus."

Além da revisão, o candidato também propõe aumentar as gratuidades, incluindo desempregados no rol de beneficiários, e uma redução gradual da tarifa até alcançar o passe livre.

Cracolândia

Questionado sobre a parte de seu programa de governo que cita a Cracolândia, Boulos afirmou que pretende investir em uma saída integrada, oferecendo moradia, acesso à saúde e integração ao trabalho. 

"Vamos tratar o problema do dependente químico como ele é. Não é um problema de segurança pública, é um problema de saúde. Problema de segurança é fazer o crack chegar lá. Isso é papel da Polícia Civil. Papel da prefeitura é fazer uma política de saúde: fazer um capes móvel, levar profissionais de saúde mental", disse.

O candidato afirmou que pretende substituir albergues por casas solidárias, que acolham os moradores da Cracolândia, oferecendo assistência social e psicológica. Além disso, propôs um programa de frentes de trabalho, com a integração dessas pessoas ao mercado por meio de empregos públicos nas subprefeituras, voltados para a zeladoria da cidade.

"Alguém acha que vai resolver problema de dependente químico jogando bomba e dando cacetada? Em nenhuma parte do mundo se resolveu assim, isso é demagogia pura."

As sabatinas acontecerão sempre durante o Jornal Eldorado, às 8h, com duração de 20 minutos. As entrevistas serão conduzidas pelos apresentadores Haisem Abaki e Carolina Ercolin, e por um jornalista convidado do Estadão. Participou da sabatina com Boulos a repórter Adriana Ferraz. O próximo entrevistado será o candidato a reeleição, Bruno Covas, nesta terça-feira, 20.

Confira o cronograma das sabatinas da Rádio Eldorado:

20/10 - Bruno Covas (PSDB)

21/10 - Márcio França (PSB)

22/10 - Arthur do Val (Patriota)

23/10 - Celso Russomanno (Republicanos)

26/10 - Filipe Sabará (Novo)

27/10 - Joice Hasselmann (PSL)

28/10 - Jilmar Tatto (PT)

29/10 - Orlando Silva (PCdoB)

30/10 - Andrea Matarazzo (PSD)

02/11 - Vera Lúcia (PSTU)

03/11 - Marina Helou (Rede)

04/11 - Levy Fidelix (PRTB)

05/11 - Antônio Carlos (PCO)

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