Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

Greve custa caro na saúde e na educação

Paralisações pelo País deixam doentes sem remédios e atrasam a vida de estudantes

O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h06

Enquanto sindicatos e governo prosseguem sua queda de braço, com cerca de 370 mil servidores parados em todo o País - em alguns casos, há quatro meses -, no Recife o menino Lucas Dantas, de 6 anos, tem um problema prático e urgente: ele depende diariamente de Aminomed, um alimento só fabricado na Alemanha - e o estoque da casa só dá para mais dez dias. "Não há mais nenhuma lata em Pernambuco nem nos Estados vizinhos. Um amigo conseguiu duas em São Paulo", diz o pai do garoto.

Lucas sofre de alergia alimentar severa e, agora, sofre também dos efeitos da greve de funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que reduziu o ritmo de liberação de medicamentos nos portos e aeroportos do País. Como ele, outro menino recifense, Igor Lacerda, 9 anos, depende do fornecimento permanente de um medicamento holandês, o Nutrison.

"Fico revoltada porque o direito de greve não pode superar o direito de viver do meu filho e de outros que precisam de produtos como este para viver", disse ao Estado a mãe do menor, Ingrid Lacerda. Um amigo da família, o advogado Ricardo Buarque, entrou com liminar para que o pai de Igor possa ir à Holanda buscar o produto, que começará a faltar na casa em três semanas.

Casos como os de Recife ocorrem em outros Estados, onde o impacto maior das greves e operações-padrão, que irritam e desorganizam a vida de muitos cidadãos, tornam-se dramáticas quando afetam a saúde. E o problema não se resume a hospitais ou postos de saúde: ele alcança, por exemplo, distantes tribos do interior do Amazonas, onde os indígenas sofrem com a interrupção da assistência.

Com 70% dos funcionários parados nas suas dez coordenadorias, a Funai deixou de atender, num serviço permanente, as comunidades indígenas. "Deixamos de emitir pelo menos dez Ranis por dia", diz o indigenista Victor Santana. Rani é o documento que registra o nascimento ou óbito dos índios.

Dengue. Do mesmo modo, a Fundação Nacional da Saúde (Funasa) paralisou parte das ações de coleta de sangue, exames e tratamento da dengue nas tribos - que agora corre por conta de servidores do Estado e dos municípios amazonenses.

Bem longe dali, em Foz do Iguaçu (PR), a greve traz outro tipo de perigo: o desemprego. "Mais de 300 pessoas já foram demitidas", diz Juan Ramirez Añazco, da Câmara de Comércio de Ciudad de Leste - onde as vendas já sofriam com a crise e agora, com as lojas fechadas, caíram 50%. Na Ponte da Amizade não se veem filas há 15 dias. A média diária de 35 mil pessoas e 15 mil carros é mais ou menos fiscalizada, atualmente, por quatro policiais por turno. "Megaliquidações para recuperar o movimento nada resolveram", resume Añazco.

Em Curitiba, uma conta da Universidade Federal do Paraná revela que 34.300 pessoas deixaram de fazer exames médicos e, por falta dele, 23.367 perderam suas consultas. Mais urgente, porém, é a situação de 30 adultos e 25 crianças que aguardam cirurgia na Unidade de Transplantes de Medula Óssea do Hospital de Clínicas da UFPR. Para evitar maiores estragos, a Anvisa mantém acordo com a Secretaria da Saúde, para os casos mais urgentes.

Nas universidades de vários Estados, estudantes já fazem as contas do impacto da greve nos próximos meses. A extensão de aulas além de dezembro, o atraso na obtenção de documentos para bolsas - algumas para fora do Brasil - a perda de semestre por pura falta de aulas e notas são notados por toda parte.

"A formatura em dezembro já era", resume a estudante Renata Aquino, 26 anos, que cursa Letras na UFMG. "Se as aulas começarem em outubro, terei de arrumar outro estágio em 2013 para completar as horas. E não podemos conseguir emprego sem o diploma." / MÔNICA BERNARDES, MARCELO PORTELA, ELDER OGLIARI, JÚLIO DESAR LIMA, FABÍULA WURMEISTER e WILLIAN PEREIRA

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