Grampo indica elo entre Perillo, Cachoeira e Delta

Governador de Goiás teria acerto com contraventor para contratar empreiteira sem fazer licitação

ROSA COSTA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2012 | 03h07

Diálogos interceptados pela Polícia Federal em julho de 2011, na Operação Monte Carlo, indicam que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), teria se comprometido com o contraventor Carlinhos Cachoeira para contratar a empreiteira Delta, sem licitação, para restaurar rodovias do Estado.

No diálogo gravado, Wladimir Garcez, ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia e ex-vereador, lembra a Cachoeira que Marconi fez o acerto na casa de Edivaldo Cardoso - ex-presidente do Detran de Goiás, exonerado no início deste mês após a divulgação de sua relação com o contraventor.

Garcez cita o governador ao responder à Cachoeira que o pagamento pelas obras será feito pelo Detran. "Tem, uai, o Detran tem verba, recurso", responde ele. "Isso é aquilo que o Marconi - você lembra - falou, inclusive, lá na casa do Edivaldo para nós dois", acrescenta.

Outra conversa grampeada aconteceu no dia 3 de agosto do ano passado. Nela, o ex-vereador conversa com o então diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, preso na última quarta-feira. Ambos sinalizam como corriqueira a iniciativa de Perillo de lotear os contratos da Agência Goiana de Obras e Transportes (Agetop) com a Delta-Carlinhos, como consta no áudio.

Foi o cunhado do governador e secretário de Articulação Política de Goiás, Sérgio Cardoso, o responsável por avisar a Wladimir sobre a "entrega" de dois lotes de um contrato no valor total de R$ 11 milhões para a construtora. Em nenhum momento, o contraventor, o ex-vereador e Abreu falam sobre a necessidade de passar pelo processo de licitação.

Cachoeira se mostra irritado ao saber que o pagamento pelo serviço em um lote será de R$ 1,4 milhão. "Um milhão e quatrocentos de quê? De reais?", questiona. O ex-vereador tenta acalmá-lo: "É, são dois lotes. Dá R$ 2,8 milhões de R$ 11 milhões. O valor total é de R$ 11 milhões", avisa. Em respostas, Cachoeira indaga sobre a quantia total: "É para as prefeituras todas?". Wladimir diz ser muito dinheiro para pouco trabalho. "É só recapeamento e sinalização, Carlinhos", avisa.

O ex-vereador inicia a conversa dizendo que foi Sérgio Cardoso, o cunhado de Marconi Perillo, quem falou da decisão de liberar dois lotes para a Delta.

Em diálogo gravado 23 dias depois, Abreu também está irritado com a parte do contrato cabível à Delta. Diz que a conversa acertada era outra. "Eu tô p... com você e, Carlinhos, vocês vão fazer eu nem dormir".

Abreu quer saber de quem são "os três lotes de Inhumas, na duplicação para Goiás Velho". Ao ouvir o nome do empreiteiro Beto Rassi, amigo de Perillo, entre os contemplados, reage: "A conversa não é essa não. A conversa é que o segundo lote é da Delta, o terceiro lote não tem nada. Você não conversa fiado".

Defesa. O governador de Goiás está entre suspeitos de favorecimento pela quadrilha de Cachoeira desde que começaram a vazar interceptações telefônicas feitas com autorização judicial. Seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, diz que, por considerar essas gravações "ilegais e inconstitucionais", não mais as comentará.

"Mesmo que feitas de forma legal, (as gravações) comportam um grau de subjetividade de investigação que não coaduna com o Estado democrático de direito e com a ciência do Direito, que não pode ser especulativa", argumenta.

Kakay pediu ao Ministério Público, na quinta-feira passada, que abra um inquérito contra seu cliente. Sua previsão é que a iniciativa comprovará que seu cliente está sendo prejudicado por "diálogos distorcidos".

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