Governo crê que venda de construtora não vinga

No primeiro escalão, processo de aquisição da Delta pela J&F preocupa porque a empresa deve ser declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h06

Alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF), a venda da construtora Delta para a J&F, holding que controla o frigorífico JBS, preocupa o Palácio do Planalto. Em conversas reservadas, integrantes do primeiro escalão dizem que o negócio "não vai dar certo" não apenas por causa da entrada do MP na operação, mas principalmente porque a empresa deve ser declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União (CGU).

O Planalto nega que tenha ajudado a J&F a adquirir a Delta para evitar a paralisia das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), embora o empresário José Batista Júnior, um dos controladores do JBS, tenha confirmado o respaldo federal, em entrevista à Folha de S. Paulo.

O PSDB na Câmara e membros tucanos da CPI já se articulam para tentar aprovar a convocação do empresário Joesley Batista, presidente da J&F e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.

Em nota divulgada ontem, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência disse que o governo não interfere em operações privadas. O Planalto tenta a todo custo se distanciar do negócio porque o JBS tem como sócio o BNDES.

"São falsas (...) as ilações de que a referida operação teve aval deste governo", garante a nota feita a pedido da presidente Dilma Rousseff. Ao destacar que está em curso, na CGU, processo de decretação de inidoneidade da Delta, o texto deixa claro que a punição pode ter impacto imprevisível.

Na prática, a medida deve atingir os contratos federais do PAC e as obras da Delta em Estados e municípios. "Caso a CGU conclua pela condenação, a empresa estará impedida de ser contratada pela administração pública, com consequências econômicas presentes e futuras", observa a nota.

Esse também é o argumento usado por ministros para explicar por que a venda pode não se concretizar. No epicentro das investigações da CPI do Cachoeira, a Delta tende a virar um "mico" para qualquer comprador. A J&F, por exemplo, não herdará a carteira de projetos da empresa.

Auditoria. Apesar de confirmado na quarta-feira, o negócio só se tornará realidade após a auditoria feita pela CGU, o que deve demorar no mínimo três meses.

A suspeita do envolvimento do governo como "facilitador" na operação surgiu porque o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é justamente o presidente do Conselho Consultivo da J&F. Nos bastidores, o comentário é o de que Meirelles não daria um passo importante como esse sem o aval do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda ontem, Coutinho afirmou não haver qualquer risco de recursos do banco serem direcionados para a Delta, já que a instituição é acionista do JBS.

"Não há fundamento nessas especulações. Estamos absolutamente tranquilos." Um dos motivos de o MP ter aberto inquérito para investigar o negócio é o fato de o BNDES ter participação de 31,4% no capital da JBS. Coutinho insistiu em que a compra da Delta foi uma operação separada, feita pela holding. "Zelaremos para que a empresa, que é sociedade aberta e está no mercado, mantenha-se totalmente saudável." / COLABORARAM RAFAEL MORAES MOURA e MARIANA DURÃO

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