GOVERNADOR DESCARTA RENÚNCIA: 'NÃO TENHO CULPA NO CARTÓRIO'

Agnelo nega ligações com Cachoeira e diz que só sai se for abatido 'fisicamente'

VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h05

Identificado pela Polícia Federal como o '01 de Brasília' e o 'Magrão', citado em diálogos do grupo comandado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), é um líder cercado. Está sob pressão do seu partido, com o governo vigiado de perto pelo Planalto e como protagonista de uma crise que faz ressuscitar o fantasma da intervenção federal. Auxiliares são acusados se envolver-se com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Mesmo assim, em entrevista ao Estado, Agnelo garante que não vai renunciar nem se afastar do cargo "sob qualquer hipótese", a não ser uma. "Só se me abaterem fisicamente", diz, reproduzindo inconscientemente o script do ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, de que só deixaria o governo a bala - e que saiu demitido.

Cercado por denúncias desde que assumiu o cargo em 2011 e com baixos índices de popularidade, Agnelo é alvo de inquérito no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por suspeita de irregularidades no Ministério do Esporte (2003-2006) e, depois, como diretor da Agência de Vigilância Sanitária (2007-2010). Agora é alvo também da CPI mista do Congresso que vai investigar as atividades de Cachoeira. Além do apoio da presidente Dilma, ele garante que tem o da direção do PT para resistir às pressões. "O cara só pensa nisso (renúncia) se tem culpa no cartório. E eu não tenho", afirma. Ele vê, na CPI, uma oportunidade de provar sua inocência.

Em sua defesa, Agnelo diz ter encontrado no governo uma máquina dominada por "corrupção sistêmica". Ao tentar corrigi-la, afirma, atraiu a ira de grupos poderosos. Disse ter-se encontrado só uma vez com Cachoeira, em 2009 ou 2010, e negou ter recebido apoio financeiro para sua campanha, seja dele ou da construtora Delta.

O senhor vai renunciar ou se afastar do cargo para facilitar as investigações? Absolutamente. O cara só pensa nisso se tem culpa no cartório. Defendo a CPI e quero a apuração disso porque não tenho culpa no cartório.

O Planalto mandou reforços para seu governo, numa espécie de intervenção branca. O sr. perdeu o apoio da presidente e do PT?

Os reforços foram iniciativa nossa. Não foi nada (de intervenção ou socorro) do Planalto. Passei um ano e três meses paquerando para trazer um grande quadro federal, o Luiz Paulo Barreto (ex-ministro da Justiça, que assumiu a Secretaria de Planejamento do GDF esta semana). Não houve intervenção. Só fala isso quem não conhece a presidente Dilma. Tenho conversado com a presidente. Ontem mesmo (quinta-feira) estive com o presidente Rui Falcão (do PT). Tenho o apoio e a confiança do partido, o apoio de vários partidos e da minha bancada inteira.

Rui Falcão diz que a CPI servirá para 'desmascarar a farsa do mensalão'...

Acho que ela vai desmascarar mesmo os ataques contraditórios que estou sofrendo. Estão tentando fazer com que a população acredite que há uma ligação minha (com Cachoeira). Mas os diálogos mostram o contrário: que não há um único exemplo de o cara ter emplacado alguma coisa. Esse grupo tinha como grande aliado o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), que pediu o meu impeachment no ano passado. Que relação é essa que esse segmento do Cachoeira tem com o governador do DF, que não consegue emplacar ninguém no governo?

Brasília vive o trauma de escândalos recentes, como o da Caixa de Pandora, que provocaram a prisão e cassação de José Roberto Arruda e indiciamento de vários políticos. O sr. teme ser punido?

Essa crise não é minha nem do PT, nem de Brasília. Não há um único fato que mostre envolvimento do governo do DF com esse grupo. Se houver alguém envolvido, eu corto a cabeça.

E quanto às suspeitas de favorecimento da Delta nos contratos com o GDF?

Não teve nenhuma facilidade, sequer um aditivo em favor da Delta. Ela só está aí porque ganhou na justiça, no governo passado, o direito de manter o contrato. Não fui eu que a coloquei.

Porque então o sr., assim que eleito, pediu ao governador em exercício, Rogério Rosso, a prorrogação do contrato da Delta? Não é uma forma de beneficiar?

Em absoluto. Fiz um pedido genérico em relação aos serviços essenciais do governo. Como vai assumir um governador que deixa de ter continuidade em áreas essenciais? Quem vai recolher o lixo?

O que se coloca na investigação, a partir dos diálogos interceptados, é que a Delta e Cachoeira deram apoio financeiro à sua candidatura e depois cobraram na forma de nomeações e contratos.

Nego absolutamente. Cite uma nomeação ou contrato. A nomeação do João Monteiro (SLU) foi minha. É uma pessoa séria, não tem vinculação nenhuma com esse segmento.

Com relação ao Cachoeira, num primeiro momento o sr. disse que não o conhecia e depois admitiu ter tido contato com ele. Do que trataram?

Há uma forçação de barra brutal. Chegaram a publicar, a partir de diálogos de terceiros, que eu estava pedindo uma audiência com o Cachoeira (risos). É absolutamente mentiroso. Se eu quisesse falar com ele, por ser um empresário do ramo farmacêutica, como governador jamais falaria por vias como essas. Foi um encontro antes de eu ser candidato. Visitei várias indústrias em Goiás, São Paulo, fiz reuniões. Tratamos de coisas relacionadas à indústria farmacêutica. Falei com outros empresários, não só com ele.

A que o sr. atribui essa onda de denúncias?

Há uma tentativa desesperada de envolver o meu nome e o PT nessa crise. Essa crise não é nossa, é do DEM e do PSDB de Goiás. A PF investigou por um ano e meio a contravenção - jogos, caça-níqueis, bingos e crimes conexos. O que a PF pegou, efetivamente? Pegou um senador, Demóstenes Torres, e o DEM de Goiás , em 300 telefonemas, negociando interesses do jogo no Congresso. Está tudo fartamente disponível. Uma série de relações com políticos de Goiás. Prefeitos, deputados, vereadores. Na lista da PF não constam o DF nem meu governo. Não fomos lenientes ou omissos. Julgo que é uma ação orquestrada para envolver meu nome e o meu partido no escândalo.

Mas o senhor afastou seu chefe de gabinete e dois assessores. Não é uma forma de admitir envolvimento?

Em absoluto. Não há uma declaração ou diálogo direto dessas pessoas. Há um diálogo atribuindo influência sobre o chefe de gabinete (Cláudio Monteiro), falando em dinheiro para indicar o presidente do Serviço de Limpeza Urbana. O que ele (Monteiro) fez? Saiu do governo, vai se defender, mostrar que isso é falso e, uma vez provada a falsidade, voltar ao governo. O secretário que indiquei diretor do SLU (João Monteiro) é um delegado, ex-secretário de Segurança Pública, não tem qualquer ligação com esse segmento.

O sr. não recebeu nenhuma doação de campanha ou caixa dois, seja de Cachoeira ou da Delta?

Em absoluto.

A Monte Carlo não é sua única dor de cabeça. O senhor é alvo do inquérito 761, no STJ, que apura irregularidades no Ministério do Esporte e na Anvisa. Que dirá em sua defesa?

O processo que corre no STJ é do meu interesse porque provém de uma denúncia de um bandido, que alegou ter-me dado suborno na véspera do período eleitoral (abril de 2010). Foi espontaneamente a uma delegacia e lá encontrou o delegado e o promotor para tomar o depoimento. Como depois eu fui eleito, o caso subiu para o STJ. Espero desmascarar esses detratores. As denúncias com relação à Anvisa já foram apuradas e rechaçadas. No (programa do Ministério do Esporte) Segundo Tempo tive todas as contas aprovadas, com certidão do TCU e CGU. As ONGs que não prestaram contas ou não cumpriram o previsto terão de responder perante a lei.

Quem está tentando derrubá-lo?

Estou enfrentando, desde o primeiro dia, grupos poderosos. São grupos gigantescos, derrotados, que saquearam o patrimônio público do DF. Era sistêmica a corrupção. Sou alvo desses interesses contrariados. Instaurei uma Secretaria de Transparência e fiz 14 mil auditorias. Estou pedindo de volta R$ 750 milhões roubados do DF. Já declarei várias empresas inidôneas. E não tem ninguém preso. (O esquema) está aí operando, montando dossiês, tentando passar matérias, usando métodos que não há em nenhum outro lugar do País.

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