Gestor da Delta chefiou empresa que foi alvo da PF

Farias, que preside a construtora mirada por CPI, era do alto escalão da Camargo Corrêa quando estourou Operação Castelo de Areia

ALANA RIZZO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2012 | 03h08

Novo presidente da Delta Construções, Humberto Junqueira Farias ocupava cargo no alto escalão da Camargo Corrêa quando a empreiteira foi flagrada em 2009 na Operação Castelo de Areia, que detectou doações ilegais para políticos e supostos pagamentos de propina para agentes públicos. Segundo documentos da Polícia Federal, empresas do grupo fizeram pagamentos suspeitos durante a gestão de Farias. O engenheiro, no entanto, não é citado nos relatórios da operação, cujas provas foram anuladas em abril de 2011 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

De acordo com as investigações, a Cavo Serviços e Meio Ambiente S/A (empresa que fez parte do grupo Camargo Corrêa), comandada entre 2000 e 2006 por Farias, aparece em uma tabela com obras e prováveis beneficiários de esquema de "caixa 2", supostamente gerenciado pelos diretores da empreiteira.

Em 2005, a Polícia Federal localizou documentos manuscritos e arquivos que sugeriam o pagamento de valores pela Cavo. Um deles, de R$ 69 mil, estaria vinculado a fiscais de Curitiba. Há citações às operações da empresa em Rio Claro, São Paulo, Itu, Tatuapé, Recife e de contratos de lixo hospitalar.

Outro documento relaciona a Cavo ao suposto pagamento de R$ 450 mil, datado de 7 de abril de 2008. O valor estaria condicionado à "aceitação de recurso especial pelo STJ" referente a julgamento do processo de improbidade administrativa contra a empresa em licitação de limpeza pública na cidade de São Paulo na gestão Celso Pitta (1997-2000). No entanto, não há informações detalhadas sobre o possível beneficiário do pagamento.

De acordo com a PF, a Camargo Corrêa mantinha uma espécie de "caixa 2" mútuo entre as empresas do grupo.

A análise do material apreendido cita também a Camargo Corrêa Cimentos, braço da empreiteira comandada entre 2008 e 2010 por Farias. A PF afirma que a empresa utilizava um sistema sofisticado para remessas de dinheiro no exterior. Diretores da construtora operavam o esquema ao lado de um doleiro.

Pietro Giavina Biachi, ex-funcionário da Camargo Corrêa por mais de 40 anos e vice-presidente do grupo, é apontado na investigação como "orquestrador" do esquema de pagamento de propinas, evasão de divisas e lavagem de dinheiro da Camargo.

O relatório final da Castelo de Areia, posteriormente invalidado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), aponta ainda que um documento referente à obra do Tucuruí cita como "compromisso" o pagamento de R$ 500 mil ao nome de Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), e ao PP. O material também trata de supostas doações ilícitas a partidos.

O ex-diretor do Dnit também é citado na Operação Monte Carlo, que trouxe à tona o esquema operado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira e da Delta Construções, que são alvo de investigação na CPI do Cachoeira.

Negociação. Farias assume a Delta depois de uma polêmica negociação com a J&F Participações, holding que controla as empresas JBS Alimentos, Flora, Eldorado Brasil e banco Original. A empresa está envolvida no esquema de corrupção comandado por Cachoeira, segundo apontam as investigações da PF.

Alvo de uma CPI no Congresso e de investigações da Polícia Federal, a Delta ainda corre o risco de ser declarada inidônea pela União por conta de suspeita de fraudes nos contratos públicos.

Antes da Delta, o engenheiro civil ocupava o cargo de CEO da Renuka, empresa indiana do ramo de açúcar e álcool. O engenheiro, no entanto, fez carreira no grupo Camargo Corrêa. Foram mais de 15 anos.

A operação Castelo de Areia teve início em janeiro de 2008, após uma denúncia anônima. Quatro diretores e duas secretárias da Camargo Corrêa foram presos. A PF cumpriu 16 mandados de busca e encontrou uma lista de políticos supostamente beneficiados pela empreiteira. Entre as acusações da PF, estavam doação ilegal para partidos, lavagem de dinheiro e superfaturamento de obras públicas.

Defesa. Em nota, a J&F informou que a Operação Castelo de Areia não envolveu a Camargo Corrêa Cimentos, da qual Humberto era presidente na época. "Portanto, ele não foi citado. A operação se restringiu à Camargo Corrêa Construtora", diz o texto, que ressalta ainda a anulação das provas pelo STJ. A Camargo Corrêa informou que não comentaria a reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.