'Gatos' levam água do projeto para comunidades

População improvisa mangueiras e paga motoristas de caminhões clandestinos para abastecer as cisternas; Codevasf diz que iniciará a cobrança

MARTA SALOMON, ENVIADA ESPECIAL / PETROLINA, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h11

Pequenas mangueiras pretas, que usam garrafas pet como boias e são instaladas com a ajuda de pedras no canal do Pontal, quebram a monotonia do concreto e dão uso improvisado à água que serviria à irrigação. Em dois trechos do canal principal, caminhões-pipa fazem fila para abastecer comunidades vizinhas. O Estado flagrou os "gatos" de água e caminhões clandestinos, que cobram de R$ 30 a R$ 200 por "carrada" do Pontal.

"Estou pegando sem pagar", conta Adroaldo José dos Santos, que investiu parte da aposentadoria de meses para comprar 500 metros de mangueira para ligar o canal do Pontal à cisterna de casa. "Teve um tempo em que os seguranças andaram arrancando as mangueiras do povo", relata.

A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) informou que a "devida cobrança" pelo consumo de água será feita depois de escolha de empresa gestora, por meio de parceria público-privada (PPP). O leilão está previsto para o segundo semestre deste ano. Uma primeira tentativa de PPP no Pontal fracassou, em 2008.

"Sem as mangueiras, seria um custo a mais para a União em ter de coletar água por caminhão-pipa nas casas vizinhas ao canal", argumenta a Codevasf.

A estatal informou que a superintendência regional de Petrolina também autorizou o uso de caminhões-pipa previamente credenciados. A coleta por veículos não autorizados seria coibida por seguranças em toda a extensão do canal, insistiu a estatal, por meio de nota.

Pelos serviços de segurança armada, a Codevasf pagou R$ 1,2 milhão em 2011 à empresa Servi San. Haveria 89 seguranças para proteger as instalações da obra inacabada do Pontal, mas o Estado só encontrou dois no local na quarta nem na quinta-feira.

Flagrante. Mas a reportagem flagrou atuação, sem nenhum constrangimento, de caminhões-pipa sem a identificação do Exército ou do governo do Estado.

José Manoel Nazario, motorista do caminhão de placa JMF-4235, encheu o tanque no Pontal e abasteceu a cisterna de José Ailton dos Santos, morador de Uruás, que fica a sete quilômetros do posto de abastecimento. "Estava seca como língua de papagaio", disse a mãe de Ailton, Carla, olhando para a cisterna.

Eles pagaram R$ 30 pelo serviço porque não conseguiram esperar pelo abastecimento público. "Por mim, dava para fazer quatro carradas por dia. O Exército controla, e o pessoal morrendo de sede", tentou argumentar outro motorista, Francisco de Assis, enquanto abastecia seu caminhão para levar a água até a comunidade de Baraúna, a 63 quilômetros dali.

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