Gabeira passa para o 2º turno e será o adversário de Paes no Rio

Com 99,99% das urnas apuradas, candidato do PV obteve 25,61%, enquanto Crivella ficou com 19,06%

Da Redação,

05 de outubro de 2008 | 19h29

Com 99,99% das urnas apuradas no Rio de Janeiro, os resultados divulgados neste domingo, 5, pelo Tribunal Superior Eleitoral apontavam oficialmente o segundo turno entre Fernando Gabeira, do PV, e Eduardo Paes, do PMDB. A corrida para o segundo lugar foi apertada, mas Gabeira conseguiu 25,61% dos votos, enquanto o candidato Marcelo Crivella (PRB) ficou com 19,06%, no terceiro lugar. O líder Paes obteve 31,98% dos votos válidos.     Veja Também: Especial: Perfil dos candidatos  Eu prometo: Veja as promessas de campanha dos candidatos  Ibope: Veja números das últimas pesquisas  Confira as imagens da votação pelo Brasil    Resultados na Baixada Fluminense ampliam espaço do PT no Rio   Na pesquisa Ibope de boca-de-urna, divulgada logo após o fim da votação neste domingo, 5, Gabeira e Crivella apareciam tecnicamente empatados, com 23% e 20% dos votos válidos, respectivamente. A pesquisa, feita a pedido da TV Globo, também mostrou Paes na liderança com 33% dos votos.   Líder das pesquisas   Após o anúncio oficial, o candidato Eduardo Paes, primeiro colocado na votação do primeiro turno, deixou claro como será a estratégia da segunda etapa da disputa. Disse que vai procurar "todas as forças políticas", com exceção do prefeito Cesar Maia (DEM), e insistiu no discurso da aliança com o governo do Estado e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Sou o candidato da base do presidente", afirmou.   Sobre a atuação como deputado federal do PSDB, quando, como integrante da CPI dos Correios, atacou o presidente e ministros petistas, Paes respondeu: "Não mudei de lado. Sempre cumpri minhas funções."   O candidato do PMDB disse que o senador Marcelo Crivella, terceiro colocado no primeiro turno, será procurado primeiro. E elogiou os demais adversários que não chegaram ao segundo turno. "Vou buscar todas as forças políticas. Com o Crivella, tenho uma relação excepcional. Jandira (Feghali, do PC do B) é uma mulher de fibra, guerreira. Respeito muito o Molon (Alessandro Molon, do PT), o Paulo Ramos (candidato do PDT)", disse. Paes não citou Gabeira, mas fez uma referência indireta ao fato de o candidato do PV ser considerado um candidato da zona sul, que concentra a elite carioca. "Vou ao calçadão de Bangu (na zona oeste), não é novidade para mim", afirmou.   Paes acompanhou pela TV do porteiro do prédio onde mora o governador Sérgio Cabral (PMDB), no Leblon (zona sul), a divulgação da pesquisa boca-de-urna do Ibope. Enquanto aguardava a divulgação da pesquisa na TV, populares passaram pela rua do governador cantando o jingle de Gabeira, que tem maior popularidade na zona sul. "Gabeira é o homem", comentou Paes ao ver a manifestação, já indicando que esperava enfrentar o verde no segundo turno.   Ao ver o resultado da pesquisa em Belo Horizonte que indica a possibilidade de segundo turno, Paes fez outro comentário: "O Aécio (Neves) não vai vir para o Rio não", disse, demonstrando preocupação com a participação do governador mineiro, amigo do governador, na eleição do Rio. O PSDB indicou o candidato a vice na chapa de Gabeira.   Segundo turno apertado   A ida de Gabeira ao segundo turno das eleições municipais é uma dessas surpresas que o eleitor carioca costuma oferecer ao País. Jornalista de 67 anos, ex-guerrilheiro, escritor e político ligado a temas como meio ambiente, liberdades individuais e direitos das minorias, Gabeira irá enfrentar Paes, peemedebista recém-saído do ninho tucano e sustentado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), na disputa pela prefeitura do Rio.   Gabeira tinha 4% das intenções de voto no início de agosto, segundo pesquisa Ibope, contratada pelo jornal O Estado de S.Paulo e Rede Globo, bem atrás dos adversários Paes e Marcelo Crivella (PRB), que na ocasião liderava a corrida com 24% das intenções de voto.   O terceiro lugar Crivella ainda faz mistério sobre a posição que adotará no segundo turno. Enquanto isso, Gabeira e Paes já estudam estratégias para ganhar o eleitor do candidato derrotado do PRB. O candidato do PV tem vantagem no eleitorado de alta renda e escolaridade, enquanto Paes tem bom desempenho entre os eleitores pobres. Gabeira deverá ter apoio do prefeito Cesar Maia e da candidata derrotada do DEM, Solange Amaral. Cabral vai se empenhar para levar ao candidato do PMDB o apoio do PT, que tem duas secretarias em seu governo, e do PC do B.   Confirmado o segundo lugar, Gabeira disse que pretende formar "a frente mais ampla possível em torno da solução dos problemas" da cidade, mas minimizou a possibilidade de partidos de esquerda apoiarem seu adversário. "O processo que vai se dar no segundo turno, no meu caso, não vai ser uma busca para acrescentar letras à minha coligação. Vai ser em busca de apoio na sociedade. A sociedade vai decidir", afirmou. "Existem partidos de esquerda e eleitores de esquerda. Vou procurar os eleitores de esquerda", comentou.   Para o cientista político e professor do Ibmec São Paulo Carlos Melo, qualquer análise do primeiro turno carioca deve começar pelo encolhimento da candidatura Crivella. "Ele perdeu força ao longo do processo eleitoral", afirma. "Apesar do apoio de uma base religiosa, Crivella sempre teve uma rejeição muito grande e não conseguiu romper essa barreira. Não conseguiu crescer mesmo com o apoio explícito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva."   Em relação a Gabeira, Melo lembra que o Rio de Janeiro tem uma tradição "bastante interessante" de oposição. "Basta lembrar a eleição do Leonel Brizola", cita. "Gabeira navegou um pouco nessa tendência do carioca de demonstrar um estado de crítica permanente. Ele foi bastante favorecido pelo fato de poder dizer que não tem nada a ver com isso que está aí, já que não tem ligação nem com o atual prefeito Cesar Maia (DEM), nem com o PMDB de Sérgio Cabral e do ex-governador Garotinho."   Para o professor do Ibmec, Gabeira poderia tanto ser um Quixote, um cavaleiro solitário, como empunhar a bandeira da resistência moral e do resgate de uma política diferente. "Acho que ele conseguiu expressar esse sentimento oposicionista carioca," emendou. Apesar disso, Melo acredita que será difícil para ele capitalizar os votos de Crivella no segundo turno. "Mas pode acontecer de os intelectuais e os chamados formadores de opinião se encantarem e iniciarem um movimento que dê um certo impulso de marketing ao Gabeira."   Essa onda de adesão prevista por Melo pode ter começado antes mesmo da votação deste domingo. Na reta final de primeiro turno, muitos formadores de opinião já haviam aberto seu voto em Gabeira. Cabos eleitorais famosos, como Caetano Veloso, Roberto Frejat e Adriana Calcanhotto também já aderiram a ele. Para os adeptos do candidato do PV, ele tem um perfil diferente da maioria dos outros candidatos, com ênfase ao compromisso com a decência, a ética, a moral e a correção no trato da coisa pública.   Quem é Gabeira   E o perfil de Gabeira tem várias faces. Ele nasceu em Juiz de Fora (MG) em 1941. Aderiu à luta armada contra a ditadura. Em 1969, participou do seqüestro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick. Na volta do exílio, uma foto de Gabeira usando apenas sunga lilás, de crochê, marcou o verão de 1980. Ajudou a fundar o Partido Verde. Foi para o PT e retornou ao PV. Está no quarto mandato consecutivo na Camara dos Deputados - foi o deputado federal mais votado no Rio em 2006.   Para os eleitores mais novos, no entanto, talvez a imagem mais ligada a Gabeira seja seu discurso demolidor contra o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, acusado de tentar impedir a cassação de parlamentares que teriam recebido dinheiro do empresário Marcos Valério, dentro do esquema conhecido como Mensalão.   "Vossa Excelência está em contradição com o Brasil, sua presença (a de Severino na presidência da Câmara) é um desastre para o Brasil", disse Gabeira no "Ou Vossa Excelência fica calado, ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo." Gabeira discursou em plenário no dia 30 de agosto de 2005. Foi o primeiro a pedir a renúncia de Severino. Denunciado por cobrar propina para permitir o funcionamento de um restaurante na Câmara, Severino renunciou no dia 21 de setembro.   Vereador mais votado   A candidata Lucinha (PSDB) foi a vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro, com 2,14% dos votos. Rosa Fernandes, do DEM, ficou em segundo lugar, com 2%, seguida pelo ator e candidato à reeleição pelo PPS, Stepan Nercessian, que ficou com 1,57%. O quarto lugar da lista ficou com Sirkis, do PV, com 1,48%, e em quinto lugar dos mais votados no Rio ficou Clarissa Garotinho (PMDB), filha do casal Garotinho. A candidata recebeu 1,31% dos votos.       (Com Denilson Azzoni, Luciana Nunes Leal, Roberta Pennafort, Alberto Komatsu, Márcia Vieira, Talita Figueiredo, Felipe Werneck, Daniele Carvalho, Fabiana Cimieri)   Matéria atualizada às 01h28

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