Fundação dá R$ 36 mi a ONGs sob suspeita

BRASÍLIA - Controlada pelo PT, a Fundação Banco do Brasil (FBB) firmou convênios de R$ 36 milhões com entidades ligadas ao partido e a familiares de seus dirigentes. A lista de organizações não governamentais (ONGs), associações e prefeituras beneficiadas está sob investigação da Polícia Civil do Distrito Federal. O banco faz auditoria nos contratos e parcerias.

ANDREZA MATAIS E FÁBIO FABRINI, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 02h16

Como o Estado mostrou, a Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Deco) do DF apreendeu documentos e computadores na sede da FBB. Dois DVDs e um CD foram retirados do gabinete do presidente da fundação, Jorge Alfredo Streit (PT-RO). Sua posse, em junho de 2010, foi prestigiada por parlamentares petistas e pelo então ministro Luiz Dulci. Streit sucedeu a Jacques Pena (PT-DF), cuja gestão está sob investigação.

Com sede em Brasília numa sala sem identificação, fechada em horário comercial, a Associação de Desenvolvimento Sustentável do Brasil (Adesbra) firmou parcerias de R$ 5,2 milhões com a FBB desde 2003. O diretor executivo, Joy de Oliveira Pena, é irmão de Jacques e tem ligações com outras ONGs.

Filiado ao PT de Goiás, Joy participa da Rede Terra, conforme documento da FBB obtido pelo Estado. Desde 2007, essa entidade de Cristalina (GO) tem convênios de R$ 7,5 milhões com a fundação. Ela é dirigida por Luiz Simion, cujo irmão, Vilmar Simion, é coordenador executivo da Programando o Futuro, outra ONG contemplada com R$ 4,9 milhões para atuar em Valparaíso de Goiás.

Caratinga. Os irmãos Pena são conhecidos por levar para a FBB a "República de Caratinga (MG)", cidade natal da família. Com a Associação dos Produtores Rurais e Agricultores Familiares de Santo Antônio do Manhuaçu, desse município, a fundação firmou convênio de R$ 1,05 milhão. "Tem razão de estar desconfiando, porque é parente, né?", diz o ex-presidente Sérgio Pena de Faria, hoje tesoureiro da associação e primo de Jacques e Joy.

Segundo ele, o projeto foi apresentado por outra entidade, mas a FBB não a aceitou, pois a proponente existia apenas há dois anos. "Essa associação não é igual a gente ouve falar aí, que é só para desviar dinheiro. Pode dormir 'sono solto' que os documentos estão direitinho. Esse projeto foi o mais vigiado do Brasil."

Para Caratinga, a FBB enviou mais R$ 1,3 milhão para construir o Centro de Excelência do Café na gestão João Bosco Pessine (PT). A atual administração, do PTB, diz que o complexo não foi entregue como previsto. Pessine não foi localizado.

A investigação começou a partir de denúncia de uma servidora da FBB, que está sob proteção policial. Ela teria sido ameaçada após delatar suposto esquema de desvio e irregularidades na análise das contas pela FBB.

Resposta. A assessoria da FBB disse não haver critério político na escolha das entidades beneficiadas. A fundação alega ter firmado convênio com prefeituras de 19 partidos. Dessas, 30 são petistas. "As decisões quanto aos pedidos de investimentos sociais, de qualquer proponente, não são pautados por relacionamentos, sejam eles pessoais e partidárias."

Sobre a ONG Adesbra, a fundação afirma que Joy Pena assumiu a presidência em 2011, mais de um ano depois de o irmão ter deixado o comando da FBB. No período em que Jacques era presidente, Joy atuava para a Rede Terra. O convênio com essa entidade, diz a fundação, foi firmado após a saída de Jacques.

Diretor da Programando o Futuro, Vilmar Simion disse não ter filiação partidária e que a ONG não recebe diretamente recursos da FBB. Luiz Simion pediu ao Estado que enviasse perguntas por e-mail, mas não respondeu a mensagem. Joy e Jacques Pena foram procurados por telefone e nas ONGs a que são ligados, mas não foram localizados.

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