Freud, o homem 'low profile' do ex-presidente

Ex-segurança afastou-se de Lula em 2006, após seu nome ser citado no escândalo da compra de dossiê contra José Serra

FERNANDO GALLO, JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h05

"Faz-tudo", "unha e carne" e "pau para toda obra" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-segurança Freud Godoy organizava das peladas na Granja do Torto ao controle de entrada no Palácio da Alvorada, passando pela missão de dar apoio e estrutura à então família presidencial.

O ex-assessor, que já foi notícia em 2006, ao ser envolvido na compra de um dossiê contra tucanos, voltou a ser personagem, dessa vez no epicentro de outra acusação. Na semana passada, o Estado revelou que em depoimento à Procuradoria-Geralda República o operador do mensalão, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, afirmou ter dado R$ 100 mil a Freud para que fossem pagas despesas pessoais do ex-presidente. Freud e Lula negam.

No primeiro episódio, os petistas atuaram para acalmar Freud e evitar que o escândalo chegasse ao Palácio do Planalto. Desta vez, o ex-assessor presidencial já deixou chegar à cúpula do partido que estaria insatisfeito com a polêmica envolvendo, mais uma vez, o seu nome.

Freud entrou para o PT em 1981. No partido, não participava das discussões políticas e trabalhava como segurança. Logo, começou a fazer as campanhas presidenciais de Lula. Freud viajava com o então candidato petista pelo País no papel de controlar o assédio ao chefe. Acabaram tornando-se amigos.

A relação pessoal com Lula o levou para o Palácio do Planalto em 2003. Lá ganhou o cargo de assessor especial da Secretaria Particular presidencial, chefiada por Gilberto Carvalho, hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Dilma Rousseff e fiel escudeiro do ex-presidente. Ocupava sala ao lado do gabinete da primeira-dama, Marisa Letícia, no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete de Lula.

Mais do que isso. Morou com o ex-presidente e com Marisa na residência oficial nos primeiros meses do primeiro governo Lula, enquanto o casal se adaptava à rotina de Brasília.

Naquela época, foi Freud que ordenou a alguns funcionários que deixassem de circular pela ala residencial do Palácio da Alvorada. Ele também passou a organizar as peladas que Lula jogava com políticos e ministros na Granja do Torto, convocando os jogadores por telefone.

Freud também planejava as festas juninas que Lula fazia no Torto e ainda levava a cachorra de estimação do casal presidencial ao veterinário. Praticamente da família, passeava com os filhos de Lula e Marisa.

Discreto, Freud acompanhava o então presidente para cima e para baixo. Voava com ele na aeronave presidencial de Brasília para São Paulo, onde frequentava o apartamento do petista em São Bernardo.

Escândalo. A amizade entre Lula e Freud estremeceu em 2006, quando o ex-agente da Polícia Federal Gedimar Passos afirmou em depoimento à PF que, a mando de Freud, tentou comprar por R$ 1,75 milhão suposto dossiê contra o ex-ministro da Saúde e então candidato a governador de São Paulo, José Serra, e seu ex-secretário executivo Barjas Negri. A papelada teria informações sobre o envolvimento de políticos na venda de ambulâncias superfaturadas.

À época, o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, entrou em campo para tentar evitar que a polêmica chegasse ao presidente. Indicou, inclusive, um advogado para Freud. Na ocasião, Lula ligou para o ex-assessor a fim de pedir explicações sobre o caso. O ex-presidente chamou os envolvidos de um "bando de aloprados".

O ex-segurança lhe respondeu - e depois o disse publicamente em entrevistas - que Lula poderia "dormir tranquilo". Sustentou que não tinha a ver com o escândalo e que possuía meios de provar sua inocência.

Apesar da calma que procurava aparentar, teve de ser acalmado por integrantes da direção do PT. Quase um mês após o escândalo estourar, foi "tranquilizado" pelo então tesoureiro do partido, Paulo Ferreira, segundo outro ex-assessor de Lula, José Carlos Espinoza, que chegou a chefiar o escritório da Presidência da República em São Paulo antes de Rosemary Noronha, investigada pela PF na Operação Porto Seguro.

Ferreira e Espinoza se reuniram com Freud em meio ao estresse do escândalo. Espinoza contou, à época, que Freud não pedira nenhuma ajuda financeira, mas declarou que, "dependendo das condições", não descartaria um auxílio do PT.

À Polícia Federal Freud confirmou que estivera por quatro vezes com Gedimar, mas negou qualquer envolvimento com a tentativa de compra do dossiê contra tucanos. O ex-agente da PF depois voltou atrás das declarações iniciais e inocentou o ex-assessor presidencial. Ele não foi indiciado pela PF nem pela CPI dos Sanguessugas.

Empresa. Como parte da operação de contenção de danos do "escândalo dos aloprados", Freud voltou para São Paulo. Abatido pelas denúncias, passou a atuar na empresa de segurança privada da sua família.

Na prática, nunca havia deixado de administrar a Caso Sistemas de Segurança. Durante o período em Brasília, havia apenas se afastado formalmente da empresa para poder assumir o cargo de assessor presidencial.

Ao atuar como segurança nas campanhas presidenciais, Freud o fazia de maneira quase informal, já que a empresa, registrada no nome de sua mulher, a jornalista e pedagoga Simone, recebeu autorização para atuar na área de segurança privada apenas em 2004.

Hoje, Freud comanda de Santo André (SP) as operações da empresa de cerca de 70 funcionários. Tem entre os principais clientes o PT, de quem recebeu até o ano passado mais de R$ 1 milhão - apenas do diretório nacional são cerca de R$ 26 mil mensais. Além do partido, trabalha para o Sindicato dos Bancários e para o deputado Ricardo Berzoini (PT), fazendo a segurança de seus escritórios. Até há pouco, tinha como cliente a Bancoop, cooperativa habitacional do sindicato, da qual recebeu, entre 2005 e 2006, R$ 1,5 milhão. Ele garante que há seis anos não vê Lula.

O ex-assessor e atual empresário voltou a falar na semana passada quando o seu nome foi citado por Valério. "Se ele fez esse depósito, eu quero esse dinheiro, porque estou precisando para pagar o 13.º dos funcionários", disse Freud ao site G1, em referência ao depoimento do empresário à Procuradoria.

Em 2005, a CPI dos Correios concluiu que a Caso Sistemas recebeu R$ 98 mil de uma agência do publicitário. Seria esse o valor dado por Marcos Valério para pagar as contas pessoais de Lula. Ele nega ter recebido o montante para esse propósito.

Fiel. Apesar dos recados de insatisfação com o PT enviados por Freud, a direção do partido aposta que ele manterá sua fidelidade a Lula e será discreto.

Em depoimento à CPI da Bancoop na Assembleia paulista em 2010, questionado sobre a militância no PT, afirmou: "Hoje a gente é tudo low profile". É o que o partido espera.

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