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Frente anti-Bolsonaro e indefinição de Russomanno embaralham disputa em SP

Marta e FHC defendem uma articulação pluripartidária para barrar candidatura ligada ao Planalto; líder nas pesquisas, Russomanno pode desistir da disputa

Pedro Venceslau e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

A cinco dias do início das convenções partidárias, reuniões em que as legendas oficializam quem serão seus candidatos ou de que alianças vão fazer parte, a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (SD) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) defenderam na quarta-feira, 26, uma frente anti-Bolsonaro nas eleições de novembro. Marta negocia ser vice do candidato tucano, o prefeito Bruno Covas, que também é procurado pelo Republicanos, do pré-candidato Celso Russomanno. As definições podem alterar o cenário eleitoral paulistano.

O Republicanos pretendia oficializar Russomano, que lidera as pesquisas de intenção de voto, como seu candidato no próximo dia 10. Na quarta, a sigla anunciou o adiamento da convenção para o último dia permitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 16 de setembro. Isso dá tempo para o andamento das negociações para que Russomanno defina qual vai ser seu papel na disputa: se vai encabeçar uma chapa, desistir de concorrer ou mesmo ser vice de Covas ou do ex-governador Márcio França (PSB), com quem também negocia. Ambos não descartam recebê-lo como candidato a vice. 

Enquanto Covas e o PSDB tentam se afastar do bolsonarismo, França chegou a ser criticado por aliados do PDT depois que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro em uma visita a São Vicente, sua base eleitoral, no último dia 7. Embora não diga publicamente que pretende brigar pelos eleitores que acompanham o presidente, o ex-governador elogiou na quarta o governo federal, durante coletiva de imprensa para anunciar o apoio do Avante à sua pré-candidatura

’Live’

Durante uma transmissão ao vivo realizada quarta pelo Facebook, Marta e FHC, que já estiveram em campos opostos em eleições passadas, defenderam a criação de uma frente ampla com vários partidos para barrar eventuais candidatos que tenham ligação ao presidente Jair Bolsonaro. Marta defendeu que essa articulação pluripartidária comece já na eleição municipal em São Paulo e tenha como meta definir um nome de oposição para o Palácio do Planalto em 2022. 

“Devemos começar em São Paulo um movimento de frente ampla com forças políticas que são contra o desmonte autoritário e aponte para 2022. Temos que começar agora essa conversa. Não será na véspera de 2022 que vamos ter um programa de governo que nos una”, disse a ex-prefeita. Fernando Henrique respondeu que ainda é cedo para “fulanizar” na Presidência, mas concordou que é preciso união. “Sou favorável a somar forças”, afirmou o tucano. 

A possibilidade de Marta integrar a campanha do prefeito Bruno Covas daria um perfil de centro-esquerda à candidatura tucana. A união, no entanto, não é consenso no PSDB.

Marta citou também uma reportagem do jornal O Globo sobre Bolsonaro sinalizar que pode fazer campanha no segundo turno para Márcio França. “Acho um erro dele (França)”, disse FHC. Depois de ter mais votos que o governador João Doria (PSDB) na capital paulista na disputa pelo governo em 2018, França tem usado as redes sociais para tentar colar o governador tucano em Bruno Covas. A estratégia visa atrair o voto útil dos eleitores bolsonaristas anti-Doria. Apesar de ser do PSB, o ex-governador tem feito gestos de aproximação com o bolsonarismo.

“O pessoal reclama do governo federal, mas os R$ 600 saiu de lá. A substituição trabalhista saiu do governo federal. Cadê a parte do (governo do) Estado? Não dá para complementar uns R$ 200, R$ 100?”, questionou França, quarta, ao anunciar o apoio de Avante à sua candidatura. Ao longo do discurso, o ex-governador teceu diversas críticas ao governador do Estado, João Doria (PSDB) e poupou a gestão federal.

Perguntado sobre a possibilidade de alinhamento com Bolsonaro, o ex-governador afirmou que seus opositores tentam criar circunstâncias constrangedoras. “O Bolsonaro não vota para prefeito de São Paulo e já disse que não se envolverá na campanha”, disse ao Estadão. “Agora, é natural que as pessoas que gostam do Bolsonaro escolham os seus candidatos. Por exemplo, os policiais militares e civis em São Paulo. É difícil você fazer eles votarem no 45 (número de urna do PSDB) porque eles associam isso ao Doria, que passou a ser adversário”, acrescentou. 

Além do Avante, França tem o apoio do PDT. A proximidade com o bolsonarismo tem causado reclamações dentro da aliança. Após a participação de França em um evento presidencial no início do mês, o presidente do PDT, Carlos Lupi, escreveu, nas redes sociais: “O PDT não irá tolerar pré-candidato vinculado ao bolsonarismo. Se houver algum caso, terá sua pré-candidatura suspensa. Estaremos atentos se houver qualquer denúncia”, escreveu o dirigente.

Sobre a possibilidade de ter Russomanno como vice, França afirma ter boa relação com ele. Na última Ibope para a prefeitura de São Paulo, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo, em parceria com o Estadão, divulgada em 22 de março, antes do agravamento da pandemia do novo coronavírus, Russomanno tinha 24% das intenções de voto. Covas aparecia em segundo, com 18%, seguido por Guilherme Boulos (PSOL), com 9%, e França, com 6%. Covas conta com a maior aliança, com o apoio de PP, DEM, PL, PSC, Podemos e Pros, por enquanto. 

Apesar de estar na liderança, Russomanno ainda não montou estrutura de pré-campanha e está recolhido, ao contrário de seus adversários.

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