'Fracasso na selva sepultou radicalismo'

Para historiador, fim da luta armada mostrou que o diálogo era a única saída: 'A ele o regime militar não sobreviveu'

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

10 Junho 2012 | 03h09

Na longa lista de revoltas contra o poder, no Brasil, a aventura do PC do B no Araguaia não teve grande expressão, mas seu saldo político foi importante, avalia o historiador Pedro Paulo Funari, titular do Departamento de História da Unicamp. "Enquanto a luta armada fracassava no campo, entre 1972 e 1975, o MDB conquistava o eleitorado, intelectuais faziam pesquisas no Cebrap, o jornal Movimento desafiava a censura", recorda ele. "A derrota da luta armada sinalizou que o diálogo político era a única saída. A ele o regime militar não conseguiu sobreviver."

Qual o balanço, hoje, dos episódios no Araguaia? Como explicar o surgimento da guerrilha?

Esse fenômeno toma corpo num cenário específico, o da guerra fria pós-1945. O mundo polarizado entre dois lados, guerrilhas chegando ao poder na Coreia, no Vietnã, na Argélia, em Cuba, Nas vizinhanças, grupos fortes como Montoneros, Tupamaros, Sendero Luminoso. Os radicais do PC do B imaginavam que a guerrilha poderia também vencer por aqui.

Para alguns, acabou justificando mais radicalização do regime.

Num cenário de confronto, classes altas e médias sentiam-se ameaçadas e a direita fortaleceu o discurso. Mas havia vozes discordantes. O velho Partidão aliou-se à oposição moderada.

A guerrilha perdeu, mas a ditadura também entrou em declínio.

Temos de ver o conjunto. O período de 1972 a 1974 é crucial. Em 1972 a repressão ainda corria solta, mas em 1973 a crise do petróleo abalou os pilares e as certezas do regime militar. Em 1974, o MDB crescia nas urnas, a Igreja reforçava campanhas por abertura democrática. Até radicais do PC do B aceitaram a via eleitoral. O fracasso na selva sepultou o radicalismo.

Passadas mais de três décadas, o que ficou da aventura?

O episódio foi pequeno, mas seu subproduto, o saldo político, foi muito importante. Enquanto a luta armada fracassava no campo, entre 1972 e 1975, o MDB conquistava o eleitorado, intelectuais como Fernando Henrique Cardoso faziam pesquisas no Cebrap. O jornal Movimento desafiava a censura, arrumavam-se as bases para a ascensão dos sindicatos. O fracasso da luta armada mostrou que o caminho era o diálogo político. A este o regime não conseguiu sobreviver.

Como o sr. vê a orientação dos militares para matar mesmo presos indefesos?

À parte os julgamentos morais, é preciso entender que para o Exército era uma guerra e a lógica da guerra é eliminar o inimigo para evitar riscos. A França matou cerca de 1 milhão de pessoas na Argélia. Há alguns dias, mataram o segundo homem da cúpula da Al-Qaeda. Ninguém cobrou que ele fosse levado vivo para julgamento. / G. M.

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