Fora da curva

Há duas maneiras de se analisar a resistência da senadora Marta Suplicy em mergulhar fundo na campanha de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2012 | 03h36

Uma trata da motivação da senadora para manter distância do processo e tem alcance local.

Outra transcende a eleição municipal e diz respeito ao modo petista de atuar, com base no pressuposto de que exista uma visão santificada imutável em relação a Lula que por isso gozaria de infalibilidade papal.

A desobediência civil da senadora Marta Suplicy obviamente não pode ser atribuída a "mágoa" decorrente do veto do ex-presidente Lula à candidatura dela a prefeita de São Paulo.

Quando dizem isso, os petistas simplificam a questão, põem as coisas no plano pessoal/emocional, desqualificam as razões políticas de Marta e fingem desconhecer a natureza do temperamento dela.

A senadora não é de obedecer por obedecer, notadamente se estão em jogo sua carreira, seus interesses e seu patrimônio político.

O fato de não ter sido candidata está profissionalmente digerido. Ela não tem veleidades a acreditar que Lula possa recuar até a data da convenção. Seria uma crença excessivamente distanciada da realidade.

Ocorre que Marta Suplicy não concorda com a condução da campanha e, se é assim tão festejada como peça fundamental, gostaria de ser ouvida. Como não é porque suas opiniões fogem ao roteiro escrito por Lula, faz gestos fortes.

E com eles atrai mais a atenção do partido do que se estivesse para cima e para baixo rodando a periferia de São Paulo com Haddad a tiracolo.

E quais os erros que ela aponta? Primeiro, considera que Lula não levou a sério a hipótese de José Serra ser o candidato do PSDB e resolver fazer uma experiência.

Segundo, acha que de novo ele errou ao incentivar a aproximação com o prefeito Gilberto Kassab que, depois de provocar reação na base petista, ainda deixou Haddad no ora veja ao se aliar a Serra. Como, de resto, avisara que faria.

Em terceiro lugar, a senadora vê equívocos na política de alianças. Na opinião dela deveriam ter sido feitos investimentos mais pesados, por exemplo, na coalizão com o PMDB.

Concluindo, Marta não raciocina com a eficácia da transferência pura e simples de votos. Pensa que não há solução mágica, pois a identificação com o eleitorado depende do candidato.

Ou ele constrói essa identidade por meio de discurso e modo de ser, ou o eleitorado da periferia para quem, usando palavras de Haddad, "Marta é deusa", pode até ter uma reação contrária devido à sua preferida ter sido preterida.

Pelo conjunto da obra, ela prefere manter distância do processo até o início da propaganda eleitoral na televisão. Dessa, Marta já avisou que vai participar. Até lá, quanto mais o PT forçar a mão para ela obedecer, mais distante ficará dessa meta.

Nesse quadro, declarações como as do presidente regional do partido, Edinho Silva, não ajudam.

Disse ele ontem em entrevista ao Estado, vocalizando o estado de espírito petista: "A ausência (no ato de lançamento da candidatura de Fernando Haddad) materializa algo muito grave. Ela renuncia à sua liderança política no momento em que o PT mais precisa dela. Um erro gravíssimo".

Erro por quê? Se o gesto busca exatamente preservar e fortalecer a liderança, o dirigente só pode estar considerando como erro de enorme gravidade a recusa de fazer a vontade de Lula.

E aqui entramos na segunda maneira de se enxergar o episódio: à luz da servidão cega às artes e às manhas do presumivelmente infalível faro político do chefe.

Marta age diferente, posiciona-se como um ponto fora da curva ao preservar independência e nesse aspecto talvez preste um grande serviço ao PT.

No lugar de simplesmente condená-la em reação impensada e automática - movida mais a medo que a racionalidade -, quem sabe não faria muito bem ao PT aproveitar a oportunidade para rever o modo de operar em ritmo de sujeição total a uma só pessoa, cujas decisões ultimamente têm rendido dissabores a mancheias ao partido.

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