'Fizemos um enterro simbólico e meu pai tirou um sapo da garganta'

* Depoimento de Regina Berbert, irmã do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert

O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h03

 

Tenho muito orgulho da história do meu irmão. Desde criança, em Regente Feijó, no interior de São Paulo, ele escrevia muito bem e tinha muita facilidade de falar.

Ele foi um estudante, um filho e um irmão exemplar. Em Regente, era um menino preocupado com a situação dos amigos pobres. Era reservado na ideologia e sério na vida pessoal.

Ruy Carlos era um rapaz alto, de um metro e oitenta e cinco. A foto em que ele, eu e mamãe aparecemos na Praça da República, em São Paulo, em julho de 1969, está quase apagada. É a imagem do último encontro que tivemos.

Ruy Carlos passou nos vestibulares da PUC e da USP. Optou por fazer Letras na USP. Chegou a lecionar português em cursinhos de São Paulo. Ele deve ter se interessado por política por influência de meu pai, que adorava subir em palanques nos comícios.

Meu irmão foi preso no Congresso da UNE em Ibiúna. Depois, voltou para Regente. Num comício da Arena, um candidato a prefeito olhou para ele e disse: "Só faltava mesmo ser filho de Ruy Jaccoud para não prestar".

Meu irmão ficou quieto e voltou para casa. Os parentes tentaram convencê-lo a abandonar o movimento. Ele disse: "Não adianta. Vocês não vão me convencer. Esse é o meu sonho, é o que eu quero". Ruy Carlos gostava bastante de brincar. Um dia, ganhei uma pulseira de ouro. Ele brincou: "Ei irmã, você é burguesinha mesmo".

Há poucos anos, o José Dirceu (ex-ministro e ex- deputado, que também integrou o grupo guerrilheiro Molipo) esteve em Jales, cidade do interior de São Paulo onde nossa família passou a residir, e conversamos. Ele disse que se encontrou com meu irmão em Cuba. Minha mãe ficou amarga com essa história, se fechou. Mas meu pai tinha uma compreensão política.

Em 1992, resolveu fazer um enterro simbólico do meu irmão no cemitério de Jales (foi enterrado um caixão com terno e um par de sapatos). Foi a maior alegria para ele dar um enterro para o filho. O caixão percorreu as ruas da cidade num carro dos bombeiros e recebeu homenagens de toda a população do município. Meu pai disse na época que tinha conseguido "tirar um sapo da garganta". Ele sofreu muito com o desaparecimento do filho. Como eles tinham o mesmo nome, chegou a ser preso na época da ditadura. Passou uma noite na prisão.

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