Filme relata papel do governo dos EUA no golpe de 1964

Os presidentes americanos John Kennedy e Lyndon Johnson sabiam que havia um golpe em curso no Brasil. Do embaixador dos Estados Unidos no País, Lincoln Gordon, Kennedy ouviu em 1962 que o então presidente João Goulart poderia se transformar em um "ditador populista" como o argentino Juan Domingo Perón. Dois anos depois, após uma série de informes do diplomata sobre oficiais do Exército e políticos dispostos a derrubar o governo, Johnson autorizou o deslocamento de navios da Marinha dos EUA para a costa brasileira, a fim de dar suporte à insurgência que culminou em 21 anos de ditadura militar.

IURI PITTA, O Estado de S.Paulo

29 Março 2013 | 02h06

O envolvimento do governo americano no golpe contra Jango, prestes a completar 49 anos, é o pano de fundo do documentário O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, que estreia hoje em sete capitais do País. Seu protagonista é Lincoln Gordon, um economista de Harvard que serviu no Brasil como embaixador entre 1961 e 1966 e cujo maior temor, pelos áudios e documentos exibidos no filme, era que o maior país da América Latina se convertesse "não em outra Cuba, mas em uma China no Ocidente". O coadjuvante é o adido militar Vernon Walters, veterano que conhecera Castelo Branco na Segunda Guerra Mundial e descreve o amigo como "altamente competente, oficial respeitado, católico devotado e (que) admira papel dos EUA como defensores da liberdade".

"Os telegramas que estão no filme mostram progressivamente essa ampliação do clima de paranoia", diz o diretor do filme, rico em reproduções de telegramas e de reportagens da mídia imprensa e televisiva americana e brasileira. "Um dos aspectos surpreendentes da pesquisa que fizemos para o filme é o papel de Kennedy na trama."

Extraído dos acervos dos dois ex-presidentes americanos, o conteúdo desses diálogos e documentos já é de conhecimento público - estão em livros como a série As Ilusões Armadas, do jornalista Elio Gaspari, ou 1964 Visto e Comentado pela Casa Branca, do também jornalista Marcos Sá Corrêa. Mas ouvir as conversas de Kennedy e Johnson e os telegramas de Gordon e de Walters, narrados por um locutor da TV americana contratado pela produção do filme, ainda soa relevante para entender, meio século depois, como o clima da Guerra Fria levou o país tropical a duas décadas de autoritarismo.

Além de recontar fatos históricos do golpe de 1964, O Dia que Durou 21 Anos tem forte componente pessoal. Tavares nasceu em 1971 no México, viu o pai ser preso no Uruguai aos 8 anos e só pisou em solo brasileiro aos 12. "Para mim, o projeto tinha uma questão pessoal, sem dúvida, mas pesquisar e ver o tamanho do envolvimento dos Estados Unidos foi surpreendente para nós e deu novo direcionamento ao objetivo inicial", diz o diretor.

Os trabalhos da produção começaram em 2005, um ano após vir a público uma série de papéis do governo dos EUA que mostravam o respaldo à insurgência militar. O pai do diretor, o jornalista Flávio Tavares, foi quem escolheu e ouviu os 14 entrevistados do filme. Estão nessa lista um ex-assessor de Gordon na embaixada, Robert Bentley, e autoridades do governo militar, como o ex-ministro Jarbas Passarinho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.