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Filipe Sabará retoma campanha em São Paulo em meio a racha do partido Novo

Com liminar concedida pelo TSE, candidato diz que divergências sobre apoio a Bolsonaro motivaram decisão da legenda de suspendê-lo; presidente da sigla rebate

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 10h16

Concorrendo graças a uma liminar concedida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sem o apoio de parte dos 34 candidatos a vereador do seu partido, Filipe Sabará (Novo) retomou os compromissos de campanha para a Prefeitura de São Paulo nessa terça-feira com um "furo" na agenda: faltou a uma panfletagem em que era esperado no Jardim Ângela, zona sul. O candidato se desculpou por telefone e afirmou que havia se atrasado.

Sabará, que havia sido suspenso pelo Novo após uma denúncia apontar inconsistências em seu currículo acadêmico e em sua declaração de patrimônio, tem buscando explorar um racha dentro do Novo sobre o apoio ou não ao presidente Jair Bolsonaro. É dessa forma que justifica a tentativa de retirá-lo da disputa. 

“A coisa toda começou quando eu falei que o (Jair) Bolsonaro foi melhor do que o (João) Doria (no enfrentamento ao coronavírus). Ali começou a divisão entre as pessoas mais críticas ao Bolsonaro e as pessoas menos críticas ao Bolsonaro”, disse Sabará ao Estadão, por telefone, pouco após o horário do compromisso em que não apareceu. 

Parlamentares paulistas do Novo ouvidos pelo Estadão admitem o racha, mas negam que o posicionamento de Sabará no grupo pró-Bolsonaro seja o motivo de sua tentativa de expulsão. 

Membros do Novo que têm ações conjuntas com o governo federal, como o governador mineiro Romeu Zema, estariam no grupo que tenta aproximar o partido do presidente. Integrantes que defendem a independência da legenda, como o líder do Novo na Câmara, Paulo Ganime (RJ), tentariam garantir a independência. 

Ganime afirmou que a posição pela independência do partido em relação ao governo inclui "cerca de 80%" dos membros do Novo. "Os outros 10% apoiam Bolsonaro e 10% são contra".

A filiação de Sabará foi suspensa no dia 23 de setembro, dias depois de ele dizer que a condução da crise do coronavírus por Bolsonaro era melhor do que a feita pelo governador tucano João Doria, um ex-aliado de quem tentava se dissociar, e de dizer que o melhor prefeito que a capital já teve foi Paulo Maluf. Candidatos e parlamentares do Novo disparam críticas ao candidato.

“No meu partido, tem gente que é mais de elogiar (Bolsonaro), tem gente que é mais de criticar. O ponto é que eu respeito o partido, de verdade. Se eles me expulsarem, vai ser por causa deles”, disse Sabará.

O presidente nacional do Novo, o empresário Eduardo Ribeiro, discorda. Ele disse que a fala de Sabará ligando a suspensão à defesa de Bolsonaro "não tem fundamento”. “O processo que motivou sua suspensão se originou de uma denúncia de um deputado estadual do Novo, referente a indícios de possíveis irregularidades no seu currículo. Fato que só veio à tona após a convenção, inclusive com ampla divulgação da imprensa”, afirmou. 

Para Ribeiro, o partido não está alinhado ao governo federal. “Não temos e nunca tivemos compromisso algum com Bolsonaro, nosso compromisso é com as nossas convicções e com o cidadão brasileiro”, disse. “Se o rumo do governo estiver errado, e está, seremos críticos e trabalharemos para proteger a sociedade, sempre preservando a nossa independência."

No grupo que ataca a aproximação do Novo com o governo Bolsonaro estaria o fundador da legenda, João Amoêdo, que deixou a presidência do partido em março. Em 2019, em 91% das votações no Congresso, o Novo havia votado com o governo, segundo a ferramenta Basômetro, do Estadão.

Sabará disse que procurou Amoêdo para afinar o discurso e se desculpar, mas que o fundador do Novo decidiu não recebê-lo. “Pedi para conversar com ele. ‘Mais para a frente a gente conversa. Agora, não’. A resposta dele foi essa. Mandei uma mensagem falando que concordava com o Novo, os princípios do Novo”, afirmou Sabará. A reportagem não conseguiu contato com Amoêdo.  

Denúncias

O afastamento de Sabará foi uma decisão da Comissão de Ética Partidária, órgão do Novo que foi responsável, em 2019, pela expulsão do partido do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. 

Ao buscar a Justiça para garantir sua candidatura, Sabará terminou por tornar o processo da comissão, que estava em sigilo, público. Ele foi anexado ao mandado de segurança que enviou ao TSE. O Estadão teve acesso ao material.

A denúncia à comissão foi protocolada pelo deputado estadual Daniel José, líder da bancada do Novo na Assembleia Legislativa. Ela cita três pontos. O primeiro é uma graduação em relações internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) que ele teria dito que fez, o que estaria incorreto. Sabará também contaria como curso superior um curso de dois anos como tecnólogo em Marketing. 

Para Entender

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“Imagine-se tais questões sendo reveladas durante um debate televisivo entre os candidatos à Prefeitura. Não é possível dimensionar o prejuízo de reputação ao partido”, escreveu o deputado, na denúncia. Daniel José foi procurado pela reportagem, mas também preferiu não falar por causa do sigilo determinado pelo estatuto. 

O segundo ponto é a omissão, na declaração à Justiça Eleitoral, das cotas que Sabará tem em uma empresa de cosméticos. O candidato enviou uma retificação de sua declaração à Justiça, para incluir a empresa, o que fez seu patrimônio declarado passar de R$ 15 mil para R$ 5,1 milhões. 

Por fim, há as entrevistas com elogios “a figuras da política nacional que comungam dos valores e princípios do partido Novo”, e que as manifestações “trazem prejuízo à reputação do partido”. 

A liminar da comissão de ética que concordou com o afastamento é assinada por cinco pessoas e não cita o terceiro ponto, sobre o posicionamento em relação ao presidente. Mas diz que “há fortes indícios que o denunciado (Sabará) apresentou informações não verossímeis no que tange sua formação universitária” ao acatar o pedido. 

Sabará diz que as afirmações sobre as inconsistências de seu currículo são falsas. Na última pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo, divulgada na sexta-feira, 2, ele teve menos de 1% das intenções de voto.  

 

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