Filho de desaparecido, novo presidente quer 'verdade' sobre regime

Santa Cruz diz ser contra revisão da Anistia, mas defende investigação de casos, incluindo a ligação de civis com a repressão

ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h10

Com apenas 2 anos, Felipe Santa Cruz conheceu a face mais cruel do regime militar. O ano era 1974. Seu pai, Fernando, então com 26 anos e funcionário público do Estado de São Paulo, foi preso por agentes do DOI-Codi no Rio e desde então passou a integrar a lista de desaparecidos políticos. No último dia 21, Santa Cruz tomou posse como presidente da seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) - uma das entidades que mais lutaram pela redemocratização do País.

Em fevereiro de 1974, Fernando e a família vieram ao Rio passar o Carnaval. No sábado, ele marcou um encontro em Copacabana com seu amigo Eduardo Collier. Os dois, que militavam na Ação Popular Marxista-Leninista (APML), foram presos, levados para o DOI-Codi de São Paulo e nunca mais foram vistos.

Advogado trabalhista, hoje com 40 anos, casado em com quatro filhos, Santa Cruz não pretende transformar seu posto na OAB-RJ numa trincheira revanchista, mas quer a verdade. Para ele, as informações reveladas pelas Comissões da Verdade Nacional, de São Paulo, de Pernambuco e, futuramente, do Rio devem cobrar também a apuração da participação do que ele chama de "lideranças civis e econômicas" no aparelho repressor.

Na sua avaliação, essas pessoas foram absolvidas e esquecidas com a redemocratização. Para Santa Cruz, é emblemático o caso do atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, que, segundo ele, teve participação na prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog. "A prisão do Herzog se deveu ao discurso desse canalha. Aí fica ele cuidando da Copa do Mundo. Isso traz indignação. Eu não quero a prisão do Marin, mas eu quero que todo mundo saiba que o Herzog morreu por causa do Marin", disse o advogado ao Estado semana passada.

Em outubro de 1975, o então deputado Marin cobrou providências das autoridades sobre a denúncia de que a TV Cultura estava infiltrada por comunistas. As palavras de Marin são apontadas por Santa Cruz como estopim para a prisão de Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura. Ontem, Marin falou pela primeira vez sobre as acusações e negou envolvimento.

Anistia. Santa Cruz não defende a revisão da Lei de Anistia. Para ele, os crimes cometidos no período prescreveram. A posição do advogado contraria a bandeira levantada pela OAB nacional, que propôs ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para que a Lei de Anistia deixasse de beneficiar agentes públicos envolvidos em casos de desaparecimento forçado. Os ministros rejeitaram o pedido da entidade.

"Os crimes da ditadura prescreveram. Acho bom que tenham prescrito. Não tem que prender ninguém. Mas acho importante para o Brasil a verdade. Expor não é vingança. É a compreensão histórica do que aconteceu naquele período para preservar a democracia e a memória viva da ditadura", disse Santa Cruz.

Com o lançamento do livro Memórias de uma guerra suja, em 2012, com depoimentos do ex-delegado da Polícia Civil do Espírito Santo e da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) Cláudio Guerra, surgiu a primeira pista do destino de Fernando e Eduardo Collier após a prisão. Segundo Guerra, os corpos dos dois foram incinerados em fornos da Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, que pertencia ao ex-vice governador biônico do Rio, Heli Ribeiro Gomes.

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