Filho de Covas espera defesa do pai pelo PSDB

Zuzinha evita se queixar do partido, mas reconhece que ele poderia fazer mais

RICARDO GALHARDO, O Estado de S.Paulo

30 Março 2014 | 02h04

Filho do governador de São Paulo Mário Covas, o vereador Mario Covas Neto (PSDB-SP), o Zuzinha, tenta sair em defesa do legado do pai. Ele diz que a família está incomodada com a associação do nome do governador, que morreu em 2001, aos escândalos das áreas de energia e de trens, a ponto de dona Lila Covas, a matriarca, soltar "adjetivos impróprios" a cada reportagem que lê sobre o tema.

Zuzinha evita reclamar da cúpula do PSDB, mas admite que até agora o partido que Covas ajudou a fundar e levar ao poder ainda não se manifestou publicamente em defesa do ex-governador. Segundo ele, o motivo pode ser constrangimento.

O vereador também fala em desconforto ao ver a associação do nome de Covas ao de Robson Marinho, ex-secretário da Casa Civil no primeiro governo do tucano.

Zuzinha nega que o hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, que teve US$ 1,1 milhão bloqueado em uma conta na Suíça e é suspeito de receber propinas, tenha sido o "braço direito" de seu pai, apesar de ter ocupado um cargo central da administração Covas.

Nesta entrevista, o filho do governador comenta também o fato de ter recebido doação de campanha da Focco Tecnologia, empresa que tinha entre seus sócios o ex-diretor da CPTM João Roberto Zaniboni, indiciado por corrupção pela Polícia Federal e um dos principais personagens do escândalo do cartel dos trens. "Se tivesse algo a esconder, não ia colocar o nome da empresa dele na nossa prestação de contas", diz o vereador tucano.

Como o senhor avalia as investigações sobre formação de cartel nos setores de trens e energia durante o governo de seu pai?

Não me incomodo com apuração. Se alguém fez alguma coisa, que pague. O que me preocupa é o meu pai. Ele está sendo acusado do quê? Toda vez que sai uma matéria falam que foi no governo dele. Se há alguma acusação contra ele, que se diga. Mas não há. Então por que fazer essa ligação?

Por quê?

A razão que eu vejo é dizer: "São todos iguais". O que estão querendo dizer é que todos os partidos são uma grande porcaria, que o PSDB governa para os ricos, o PT governa para os pobres, e já que é tudo a mesma porcaria vamos ficar com a porcaria que governa para o pobre. As coisas são colocadas como sendo uma coisa partidária do PSDB, e não de alguma pessoa.

A direção nacional do PSDB está defendendo de forma adequada a memória de Mário Covas?

Não reclamo do PSDB. Talvez o partido tenha esperado ou espere que alguém como eu ou meu sobrinho (o secretário estadual do Meio Ambiente e deputado estadual licenciado Bruno Covas) ou alguém do governo passado faça alguma coisa, para depois se manifestar. Não é uma coisa que foi conversada, articulada e negada (pela direção). Até agora eu mesmo estava meio perplexo. Não sei se o partido também está dessa forma, perplexo. Pode ser que isso venha a acontecer. Não sou a pessoa adequada para responder pelo PSDB. Tem o presidente, nacional, o presidente estadual. Talvez até pudessem fazer mais, mas eu não estou reclamando.

O senhor esperava uma defesa mais enfática por parte do governador Geraldo Alckmin, que foi vice de seu pai?

Cada um está fazendo a sua defesa. Na atribuição dele de governador, na medida em que fez a investigação na corregedoria, processou as empresas envolvidas. Ele está dando sinais de que quer resolver. Alckmin está dando a resposta como governador. Talvez não como dirigente partidário, mas como governador. Se poderia fazer diferente, não cabe a mim julgar.

Alckmin já procurou o senhor para falar do assunto?

Eu não tenho contato com ele assim. Até acho que seria legal se tivesse contato mais amiúde com ele.

O senhor recebeu alguma manifestação de solidariedade por parte de integrantes da cúpula do PSDB?

Não gostaria que ficasse a impressão de que estou com alguma forma de rancor. Não estou. Eu estou é decepcionado com insinuações que são feitas. Há um certo constrangimento de tocar no assunto porque isso é algo que mexe comigo. Eu fico realmente muito incomodado e talvez o meu jeito de ser faça com que as pessoas tenham temor em tratar do assunto. A primeira vez que houve qualquer comentário sobre isso o Edson Aparecido (atual secretário estadual da Casa Civil) falou do meu pai. Foi a primeira manifestação. Não foi partidária, mas foi uma pessoa do governo.

Sua mãe, dona Lila, tem acompanhado o assunto?

Há um sentimento de frustração na família. Nosso patrimônio hoje é exatamente o mesmo que era lá atrás. Eu moro no apartamento que meu pai morava. Que raio de roubalheira é essa na qual não se faz uso do dinheiro? Minha mãe mora comigo. Ela não fez comentário. Mas quando tem alguma notícia, os adjetivos usados por ela não são os mais apropriados.

Qual deve ser a estratégia do PSDB para lidar com o caso do cartel?

O cartel aconteceu no Brasil inteiro. Por que deixar circunscrito a São Paulo? O PSDB deve propor que se faça a investigação o mais profunda possível, uma CPI de abrangência nacional. Propor e colaborar. Deixar a coisa vaga é que é ruim. Envolve uma série de pessoas que não tem nada a ver com isso. Quanto mais investigarem, mais vai ficar evidente se aconteceu alguma coisa ou não e com quem.

Essa investigação profunda que o senhor propõe inclui uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo?

Não. Isso seria fazer o jogo do PT. Em São Paulo o caso já é investigado pelo Ministério Público, pela imprensa, pela corregedoria.

A Suíça enviou ao Brasil uma extensa lista de documentos que mostram todo o caminho do dinheiro que Robson Marinho recebeu em conta naquele país, US$ 1,1 milhão depositado por lobistas da Alstom. Ele foi coordenador de campanha de Covas e secretário. É uma mácula no governo de seu pai?

Não estou aqui para fazer a defesa de ninguém, não. Nem do cartel, nem de empresa nem de funcionário público. Minha defesa é da memória do meu pai. Meu pai disputou nove eleições. O Robson Marinho foi coordenador de uma campanha dele e secretário durante um ano de governo. Atribuir a ele ser braço direito de Mário Covas é forçar a barra. Meu pai foi governador durante seis anos e teve quatro secretários na área dele. Não participei do governo e não sei o que aconteceu lá. Mas sei como meu pai agia. E ele não tolerava coisa errada.

É possível que a alta cúpula do governo soubesse das irregularidades?

Não sei dizer mas, se meu pai soubesse de qualquer coisa, ele combateria. Ele não compactuava com isso, não. Agora, qualquer governo é muito grande e achar que não houve qualquer tipo de irregularidade em nenhum governo em nenhuma gestão é um pouco pretensioso.

O senhor recebeu doação de campanha da Focco Tecnologia, que tinha entre seus sócios João Roberto Zaniboni, ex-diretor da CPTM que recebeu US$ 250 mil do lobista Arthur Teixeira. Isso causa algum desconforto?

Hoje, na medida em que a empresa tem alguma ligação com uma investigação, gera um desconforto. Mas as contas da minha campanha estão registradas.

O senhor já disse ser amigo de Ademir Venâncio de Araújo, sócio de Zaniboni na Focco e indiciado pela Polícia Federal por suspeitas de corrupção, lavagem e crime financeiro. Pode explicar melhor essa amizade?

Conheço o sujeito há muito tempo. Ele apareceu lá no meio da campanha e se ofereceu para me ajudar. É tudo o que a gente quer numa campanha. É lícito, é correto, é possível. Por que não? Temos uma relação social.

A Focco fez apenas três doações de campanha, das quais uma foi para o senhor e a outra para seu sobrinho, Bruno (deputado estadual licenciado). A relação de Araújo é com o senhor ou com a família?

Provavelmente a doação para o Bruno se deu pela relação que ele (Araújo) tem comigo. Se a gente tivesse algo a esconder, não ia colocar o nome da empresa dele na nossa prestação de contas. Não lhe parece óbvio isso?

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