'Fernando Henrique deveria ficar quieto', afirma Lula

Ex-presidente reagiu ao tucano, que na véspera chamou Dilma de 'ingrata'; petista recorreu ao bordão: 'Deixa a mulher trabalhar'

O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2013 | 02h03

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, em São Paulo, que seu antecessor Fernando Henrique Cardoso "deveria, no mínimo, ficar quieto" e "deixar a mulher trabalhar", se referindo à presidente Dilma Rousseff. O comentário foi uma reação de Lula à fala de FHC no dia anterior, em Belo Horizonte - onde o tucano chamou Dilma de "ingrata" por não reconhecer a herança que o PT recebeu de seu governo. O tucano concluiu dizendo que a presidente "cospe no prato em que comeu".

Para Lula, Fernando Henrique "deveria contribuir para a Dilma continuar a governar o País bem". "Deixa a mulher trabalhar, afinal de contas não é todo dia que o País elege uma mulher presidente", disse o petista em uma livraria da Avenida Paulista, durante o lançamento do livro O Brasil, do jornalista Mino Carta. No comentário, Lula enfatizou que "no Brasil, cada um fala o que quer".

A polêmica envolvendo uma presidente e seus dois antecessores deixa claro que, embora faltem 19 meses para as eleições de 2014, o clima entre PT e PSDB já é de plena pré-campanha. Foi o que se constatou em Belo Horizonte na terça-feira à noite, quando o ex-presidente tucano esteve ao lado do senador Aécio Neves (PSDB-MG) na abertura de um seminário do partido. FHC então acusou Dilma de não reconhecer os avanços no Brasil entre 1995 e 2002, período em que ele governou o País.

O que irritou Fernando Henrique foi o discurso de Dilma na semana passada, durante a festa dos dez anos do PT no poder, em São Paulo, quando ela criticou os tucanos e afirmou que o PT não herdara nada da gestão FHC. "Nós construímos", disse a presidente diante da militância.

Sem réplica. Em Brasília, ontem, Dilma foi aconselhada a não reagir às declarações feitas por Fernando Henrique em Minas. O governo avalia que não vale a pena esticar o bate-boca para não valorizar a ofensiva tucana.

A estratégia da campanha petista, daqui por diante, é carimbar Dilma como gestora competente, que combate a corrupção, corta os juros e ataca as desigualdades sociais. A ordem, por isso, é não envolver o governo na briga. Com essa orientação, o ministro chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ficou em silêncio, ontem, quando repórteres lhe perguntaram sobre as críticas de FHC.

O tom adotado por Dilma contrasta com a mensagem enviada por ela a Fernando Henrique, em junho de 2011, para homenagear os 80 anos do tucano. Na ocasião, Dilma chamou o ex-presidente de "acadêmico inovador, político habilidoso e ministro arquiteto" e lhe creditou a responsabilidade por um "plano duradouro" de combate à inflação.

Para o presidente do PT, Rui Falcão, Dilma, na época, apenas demonstrou educação ao enviar a carta a FHC. "O ex-presidente Fernando Henrique confunde a boa educação da presidenta Dilma, como se isso fosse nos fazer esquecer o estado em que encontramos o Brasil", disse ele.

'Esquisitíssima'. Outro político que saiu em defesa de Dilma foi o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB). Depois de um encontro de duas horas com ela, no Planalto, Cid comentou que Dilma não é "ingrata" porque nunca recebeu "favores" dele . "Achei esquisitíssima a declaração. Se o Fernando Henrique tivesse feito algum favor a Dilma, ele teria algum motivo para dizer que ela é ingrata. Mas qual foi o favor que o Fernando Henrique fez a Dilma? Nenhum", declarou o governador cearense.

Para ele, FHC foi "uma pessoa de pensamento social-democrata que "se rendeu completamente ao neoliberalismo ao assumir a Presidência". / ISADORA PERON, VERA ROSA e RAFAEL MORAES MOURA

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