Fazenda manda BB investigar suposto vazamento de informação sigilosa

Revelação de movimentação de R$ 953 mil irrita Dilma, que encarrega ministro de dar fim a intriga entre cúpulas de banco e da Previ

MARTA SALOMON , JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2012 | 03h06

O Ministério da Fazenda determinou à direção do Banco do Brasil a abertura de uma sindicância para apurar possível vazamento de sigilo bancário na instituição em decorrência da guerra pelo comando da estatal e do fundo de pensão de seus funcionários, a Previ.

A sindicância é a resposta do governo à divulgação de uma suposta movimentação atípica de R$ 953 mil por parte do ex-vice-presidente do banco Allan Toledo - que foi demitido em dezembro, depois de ter-se aliado ao presidente da Previ, Ricardo Flores, na briga com o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine. A demissão foi definida pelo presidente do Conselho de Administração do banco, Nelson Barbosa, secretário executivo do Ministério da Fazenda.

O Banco do Brasil não confirmou se Allan Toledo estava anteriormente sob investigação. Ele atribuiu a movimentação daquele valor à venda da casa de uma aposentada, da qual era procurador, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Seguindo todos os procedimentos legais, o depósito na conta de Toledo foi comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Inconformada com a rede de intrigas oriunda da disputa pelo poder no Banco do Brasil e na Previ - e também abastecida de informações de que parte do mercado já tenta tirar proveito da fragilidade a que tal situação leva um setor de alta sensibilidade -, a presidente Dilma Rousseff decidiu pôr fim às brigas, sob pena de demitir todo mundo.

De acordo com informações do Palácio do Planalto, Dilma mandou um emissário conversar com Bendini e com Flores - e com quantos diretores mais estiverem envolvidos - com um argumento sempre utilizado antes de demitir um auxiliar: "Roupa suja se lava em casa." Outras informações de bastidores sustentam, também, que a presidente teria ficado "horrorizada" ao tomar conhecimento de que circula na Esplanada dos Ministérios um dossiê com dados bancários de Allan Toledo, aliado de Flores e adversário de Bendine.

Sem Francenildo. Dilma teria dito a auxiliares que não aceita a repetição do episódio do caseiro Francenildo Costa, que teve o sigilo violado pela direção da Caixa Econômica Federal em 2006, numa articulação com o então ministro da Fazenda Antonio Palocci. O caso levou à demissão de Palocci da Fazenda e de Jorge Mattoso da presidência da Caixa. Francenildo processou a Caixa, que perdeu a ação e propôs um de R$ 500 mil. Ele recusou.

Irritada com as brigas entre Bendine e Ricardo Flores, a presidente teria dito ainda que a carreira deles no governo estaria acabada se não chegassem logo a um acordo. Dilma contabiliza a favor dos dois presidentes o fato de tanto o Banco do Brasil quanto a Previ terem apresentado ótimos resultados do ponto de vista econômico e de gestão.

Rusgas. A presidente tem demonstrado, há algum tempo, preocupação com as rusgas nas duas instituições. Na sexta-feira passada ele determinou a Guido Mantega que pusesse fim à disputa, alimentada por grupos do PT que trabalham pelo controle do Banco do Brasil e da Previ.

Ao que consta, a presidente reage mal toda vez que vê uma nota na imprensa a respeito da disputa pelo poder nas duas instituições. A ponto de ler os jornais e comentar: "Não acredito que isso está acontecendo no maior banco do Brasil e no maior fundo de pensão da América Latina", teria ela comentado.

Aldemir Bendine e Ricardo Flores foram escolhidos para os cargos por Mantega. Bendine, ainda no governo anterior. Flores, já em 2011, para o lugar de Sérgio Rosa, petista com origem nas alas sindicais. Rosa hoje está na Brasilprev, empresa privada que tem o BB como sócio.

A publicação de dados do dossiê foi feita ontem pelo Correio Braziliense e pela Folha de S.Paulo. Advogado de Toledo, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ex-deputado José Roberto Batochio disse ao Estado que o dinheiro teve origem na venda de uma casa de Liu Mara Zerey, mãe adotiva do ex-vice-presidente do BB.

Battochio explicou que Liu Mara transferiu todos seus bens para Toledo, além de tê-lo feito seu procurador . Como tem câncer e faz quimioterapia, ela decidiu vender uma casa, cujo procurador era Toledo. O imóvel foi negociado em janeiro de 2011. O procurador de Toledo disse que seu cliente decidiu processar o BB por violação de sigilo e pediu identificação e punição dos responsáveis pelo vazamento.

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