'Faxinados' usam eleição para dar o troco no PT

Depois da Esplanada. Ministros que deixaram cargos após processo iniciado nos Transportes não escondem mágoa com Planalto e, quando não vão enfrentar partido de Dilma nas disputas municipais, fazem jogo duro antes de concordar com alianças com petistas

DÉBORA ÁLVARES, EDUARDO KATTAH, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h10

Quase um ano após o início do processo que ficou conhecido como "faxina", ministros que deixaram a Esplanada na esteira de denúncias de irregularidades procuram tratar o assunto como "página virada". A movimentação de alguns ex-titulares em seus redutos eleitorais e de seus partidos em São Paulo mostra, porém, que o ressentimento com o Planalto e o PT ainda é grande e o pleito de outubro virou a oportunidade para dar o troco.

As demissões nos Transportes, no começo de julho de 2011, deflagraram o efeito dominó que derrubaram seis ministros: além do titular dessa pasta, Alfredo Nascimento (PR), caíram os peemedebistas Wagner Rossi (Agricultura) e Pedro Novais (Turismo); Orlando Silva (PC do B), do Esporte; Carlos Lupi (PDT), do Trabalho, e Mário Negromonte (PP), das Cidades.

No PR de Nascimento, a mágoa está escancarada. O presidente nacional da legenda deixou o governo indignado com o tratamento dispensado a ele e ao partido. Nascimento, que disse não ser "lixo" para ser varrido do ministério, fez questão de referendar a articulação que levou a sigla a apoiar o pré-candidato do PSDB em São Paulo, José Serra.

No seu quintal, o tema faxina não será esquecido. "O PR está desmoralizado, é tratado como uma escória e não podemos aceitar isso. Daremos a resposta nas urnas", afirmou o deputado Henrique Oliveira (AM), pré-candidato da sigla em Manaus.

A recente suspeita de que a denúncia de superfaturamento em obras e recebimento de propina por empreiteiras no ministério fora vazada para a imprensa por assessores do Planalto - tendo como interessado o grupo do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira -, fez crescer a amargura. A aliados, Alfredo se diz vítima de um conluio. "O senador está magoado com a Dilma, acha que foi abandonado, que ela o usou para ter popularidade e o colocou no meio de um rolo de que ele não tinha culpa", afirmou Oliveira.

No campo escolhido para brigar com o PT, o PR enfrentará o atual prefeito, Amazonino Mendes (PDT), que tentará a reeleição com o provável apoio do PMDB e dos petistas. O partido já tem até mote para a campanha. "Apostaremos na vitimização do Alfredo. A partir do momento em que as pessoas perceberem a sacanagem que foi feita com o cara, isso vai nos favorecer", destacou uma liderança da sigla, que tampouco engoliu a substituição de Nascimento por Paulo Passos, filiado ao PR, mas considerado desarticulado com os interesses da sigla.

Opções. Tradicionalmente o parceiro mais fiel do PT, o PC do B vem demonstrando pouca boa vontade em São Paulo, onde o ex-ministro Orlando Silva é pré-candidato a vereador. Na eleição paulistana, o ex-titular do Esporte comanda a reticência dos comunistas em relação à aliança com Fernando Haddad, embora os petistas já a vejam como certa.

"A gente sempre aderiu ao PT porque não tinha alternativa. Hoje a gente pode manter a candidatura, apoiar o PT ou o PMDB", diz o ex-ministro. Mas, apesar da postura reticente em relação ao PT, nos bastidores Orlando é um dos articuladores do PC do B nas negociações com os petistas.

Em São Paulo, onde a legenda tem como pré-candidato o vereador Netinho de Paula, a aproximação com o PT intensificou-se há duas semanas, com a entrada em cena do ex-presidente Lula. Mas nem a investida foi capaz de levar os comunistas ao palanque de Haddad no dia 2, quando foi homologada a sua pré-candidatura a prefeito. O PC do B quer a contrapartida do PT em outras capitais, como Porto Alegre e Fortaleza, e pressiona em São Paulo flertando com o PMDB, de Gabriel Chalita.

Assim como Nascimento, Orlando acredita que a saída do ministério será um aliado na busca por uma vaga na Câmara Municipal. "Quem não deve não teme. Eu me disponho a enfrentar a disputa eleitoral inclusive por saber da minha inocência."

Em Campinas - cidade do cunhado, Gustavo Petta, também filiado ao PC do B e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) -, petistas e comunistas costuram aliança. Segundo Orlando, este é o caminho natural, apesar da saída do ministério. "São águas passadas. O raciocínio político é frio. O que interessa é o projeto local."

Discrição. O ex-ministro do Turismo, deputado Pedro Novais (PMDB), é conhecido pela discrição nos períodos eleitorais, atuando mais nos bastidores e trabalhando pela liberação de emendas para suas bases no Maranhão. Em São Luís, o PMDB de Roseana Sarney deve retribuir o apoio do PT em 2010 e compor chapa encabeçada pelo vice-governador Washington Oliveira (PT) à prefeitura da capital.

Questionado sobre o apoio à pré-candidatura do petista, Novais é sucinto: "Não apoio pré-candidatura. Apoiarei candidatura, se houver".

O apoio ao clã Sarney em 2010, após intervenção do diretório nacional, fraturou o PT local, que preferia Flávio Dino (PC do B) para o governo. Entre os dissidentes petistas a aposta é a de que o ex-ministro continuará distante da disputa em São Luís. "É uma figura estranha, não se mete nessas confusões, faz o mandato dele muito independente. Durante os escândalos a gente descobriu que ele mora no Rio de Janeiro", disse o deputado Domingos Dutra (PT-MA).

Apadrinhado pelo governador baiano Jaques Wagner (PT) e última vítima da faxina, o deputado Mário Negromonte (PP) não se arrisca a contrariar as alianças estaduais e evita falar sobre sua saída do governo. Em São Paulo, porém, o PP deve apoiar a candidatura tucana contra o PT.

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