Falta d'água em São Paulo é com Dilma

Xará da presidente assume papel de porta-voz do governo para amenizar desgaste de Alckmin

Pedro Venceslau e Julia Duailibi, especial para O Estado,

27 de abril de 2014 | 02h04

O Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, montou uma força-tarefa para gerir a crise no abastecimento de água no Estado com o objetivo de preservar a imagem do governador Geraldo Alckmin (PSDB), pré-candidato à reeleição em outubro.

Ele tem dito que não dará declarações sobre o assunto pois não quer "transformar a maior seca das últimas décadas em picuinha política".

Para tirá-lo da linha de tiro, foi preciso escolher alguém como escudo. O nome escalado foi o de uma auxiliar que até então vinha atuando nos bastidores: a presidente da Sabesp, Dilma Pena.

A dirigente da Companhia de Saneamento Básico do Estado é descrita por tucanos como um quadro técnico e com pouco traquejo político. Ou seja, tem perfil parecido ao da homônima que ocupa a Presidência da República.

Mesmo assim, ela recebeu a missão de não deixar sem resposta nenhuma crítica feita pelos adversários, em especial as do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT), que acusa o governo de não ter feito investimentos no setor hídrico e estar escondendo um racionamento que já estaria ocorrendo na prática.

Apesar de nunca ter sido filiada ao PSDB, Dilma construiu sua carreira em gestões tucanas. Ela se tornou uma referência na sigla quando foi levada por José Serra para ocupar a Secretaria de Política Urbana do Ministério do Planejamento, que foi comandado por ele no governo Fernando Henrique Cardoso.

Outro ex-ministro que conviveu com ela nesse período lembra que a "Dilma do Alckmin" sempre teve aversão a qualquer tipo de atividade partidária.

Além de ter saído da linha de frente, Alckmin promoveu mudanças na estratégia publicitária do governo sobre a gestão da água. Campanhas da Sabesp na televisão deixaram, por exemplo, de exibir o logo do governo do Estado e, no rádio, o locutor deixou de citar que a empresa pertence ao Executivo paulista, o que acontecia antes. É a tentativa de descolar o governo da empresa, controlada pelo Estado.

Orientação. Para orientar e municiar o discurso da presidente da Sabesp, o Palácio dos Bandeirantes montou um núcleo de comunicação que conta, entre outros, com o jornalista Marcelo Netto, que foi assessor de imprensa de Antonio Palocci Filho quando ele foi ministro da Fazenda no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Assim como Palocci, Netto foi denunciado pelo Ministério Público Federal por participação no vazamento do sigilo bancário do ex-caseiro Francenildo dos Santos Costa, em 2006. Ele foi acusado de passar à imprensa informações obtidas de maneira ilegal a mando de Palocci.

Na época, Alckmin, então, candidato a presidente, pediu a punição dos envolvidos no episódio. "O meu governo não vai ser violento com o Francenildo, o caseiro pobre do Nordeste", disse o tucano em um comício.

Além de Netto, compõem o grupo que define a estratégia do governo diante da crise assessores do palácio, o presidente estadual do PSDB, deputado Duarte Nogueira. o marqueteiro da legenda, Nelson Biondi, e o sociólogo Antonio Lavareda, que faz pesquisas qualitativas para o governo por meio do PSDB para medir a reação dos eleitores diante da crise hídrica que assola São Paulo.

Manual. Na quarta-feira passada, por exemplo, o "gabinete de crise" da seca elaborou uma espécie de manual para orientar Dilma. O texto tem o seguinte título: "Sugestão de falas para entrevistas da Presidente da Sabesp e do Secretário".

No manual, há sugestões feitas pelos assessores de como o governo, mais especificamente Dilma e Mauro Arce, secretário de Abastecimento e Recursos Hídricos, deveriam responder às críticas feitas pelo pré-candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes. "Caros, Padilha diz que falta um governo à altura do Estado de São Paulo, na questão do abastecimento de água. Nas entrevistas de hoje sugerimos frases na seguinte linha", diz o texto dos assessores, assinado por Marcelo Netto. O documento sugere em seguida seis possíveis declarações para a presidente da Sabesp e para Arce rebaterem as declarações de Padilha.

'Não sabe o que fala'. Entre as frases discutidas no texto de apoio que deveriam ser seguidas pela equipe do governador está: "Um candidato que não sabe do que está falando, sem ter informações técnicas do problema, que não estudou o problema, que torce pela seca, não deve ser levado a sério na discussão desta questão do abastecimento de água tão complexo".

Outra sugestão foi insistir na tese de que "o candidato" , leia-se Padilha, faz uso eleitoral da situação. No fim da mensagem, a última orientação: "Nas entrevistas não deve ser citado o nome do candidato". O governo paulista quer evitar que o bate-boca acabe ajudando a divulgar o nome do pré-candidato do PT - Padilha ainda é desconhecido da maior parte do eleitorado.

O manual foi seguido à risca pela presidente da Sabesp. Dois dias depois, ela deu uma série de entrevistas a emissoras de rádio nas quais deu as seguintes declarações: "Pessoas mal intencionadas e sem conhecimento da hidrografia da região metropolitana dizem que não há investimento em saneamento", "É lamentável que um ex-ministro fale coisas tão desinformadas do ponto de vista técnico. Parece que ele torce contra e deseja que falte água para a população", disse Dilma Pena. Em nenhum momento o nome de Padilha foi citado diretamente.

Entre as armas do palácio está colocar o governo federal, do PT, na discussão. O principal argumento dos tucanos, que também tem sido seguido por Dilma Pena, é falar que a Sabesp paga mais de R$ 1,2 bilhão em impostos por ano ao governo federal, mas não recebe nenhum centavo em troca.

Apesar da reação forte às críticas da oposição, o Palácio dos Bandeirantes está dividido sobre como tratar a possibilidade de um racionamento de água. Um grupo de auxiliares do governador defende que o rodízio de água é inevitável. Sendo assim, essa opção deveria ser assumida logo para esvaziar o discurso da oposição. A crise seria atribuída às condições climáticas adversas, as piores dos últimos 80 anos.

Outro grupo acredita que o volume morto do reservatório da Cantareira suporta o consumo pelo menos até depois da eleição, em outubro. E advoga a tese de que um rodízio levaria a população a estocar água, o que acabaria esgotando ainda mais o sistema. O ideal seria ganhar o debate por meio de campanhas de educação.

Seja qual for a opção estratégica adotada pelo governador, provavelmente Dilma será a responsável por dar a notícia.

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