Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

'Exploração política é matar a Cantareira', afirma Padilha

Petista ataca PSDB em temas como água, educação e transporte e evita se classificar como 'poste' de Lula

Roldão Arruda, Stefânia Akel e Wladimir D’Andrade, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2014 | 23h50

O candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, contestou ontem as declarações do governador Alckmin (PSDB), segundo quem a oposição estaria fazendo "exploração política" da atual crise hídrica no Estado. "Quem está fazendo uso político desta crise é o governador, que está matando a Cantareira (principal manancial paulista) por causa da eleição", disse o petista, quarto convidado da série Entrevistas Estadão.

Na entrevista, o ex-ministro da Saúde não poupou a gestão Geraldo Alckmin (PSDB), cujo partido vai completar 20 anos à frente do governo do Estado. As respostas combinavam planos de governo e pontos de vista a ataques aos tucanos em setores como transporte, segurança e saúde, educação, entre outros.

No caso da crise hídrica, o candidato petista disse que Alckmin não realizou as obras que havia se comprometido a fazer em 2004, quando também era governador, nem assume o racionamento que já estaria ocorrendo em diversas regiões. "Em Campinas, os cortes no abastecimento estão ocorrendo desde dezembro."

A respeito da abertura de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo, com o apoio do PT, para investigar as ações da empresa estadual Sabesp, Padilha negou a existência de interesses eleitorais, como apontou o PSDB. "A Câmara instalou a CPI agora porque foi agora que o vento encanado começou a circular nos bairros da cidade", afirmou. "Até a Copa a Vila Madalena recebia água todos os dias. Agora passou a ter interrupção de água, o comércio começou a fechar."

Padilha disse que, se eleito, o programa para o abastecimento terá três eixos: a retomada de obras que foram indicadas em planos passados e acabaram esquecidas; a busca de soluções inovadoras; e incentivos para a proteção de mananciais

Partido unido, mas sem 'poste'. Pouco conhecido do eleitorado paulista e em terceiro lugar nas pesquisas, com 5% das intenções de voto, atrás de Alckmin e Paulo Skaf (PMDB), Padilha disse que não se deve subestimar a força do PT. Questionado sobre outros candidatos desconhecidos que, como ele, foram lançados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e acabaram decolando, o ex-ministro disse contar com unidade em torno de sua candidatura: "Nunca o PT esteve tão unido em torno de uma candidatura em São Paulo."

Padilha evitou usar a palavra "poste", apelido dado inclusive por Lula para se referir a candidatos que o PT lançou e que não tinham experiência nas urnas, como o hoje prefeito paulistano, Fernando Haddad, e a presidente Dilma Rousseff. O candidato ao Palácio dos Bandeirantes disse que sente orgulho em ter o apoio do ex-presidente e da sucessora dele.

Nesse ponto da entrevista, Padilha também deixou claro que pretende se apresentar no debate como uma proposta de renovação no cenário paulista. "Os partidos decidiram consolidar três candidaturas: uma que governa há 20 anos e não resolveu os problemas da água e da segurança pública; outra que juntou ex-governadores (referência a Paulo Maluf e Luiz Antônio Fleury, aliados de Skaf); e a nossa, que vai governar pela primeira vez."

Indagado sobre a dificuldade de reunir fundos para a sua campanha, que até agora arrecadou pouco mais de R$ 200 mil e declarou gastos até o fim da campanha de mais de R$ 30 milhões, Padilha recorreu a um mantra usado desde o início da semana: "O que me deixa tranquilo é que pode faltar dinheiro no começo, mas sobra militância, sobra campanha e gente na rua. Se precisar, até nisso a militância vai querer contribuir."

Transporte em xeque. Depois da crise de abastecimento de água, outro ponto bastante criticado pelo candidato foi a situação do transporte público sob responsabilidade do Estado. "São Paulo poderia estar muito melhor com os tais 30 quilômetros de metrô que o atual governador prometeu há quatro anos e não entregou."

Ao falar de seus planos, destacou a criação de um bilhete único integrado metropolitano. "O objetivo é garantir que qualquer cidadão que pegue ônibus da EMTU (Empresa Metropolitana de Transporte Urbano), CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) ou metrô, nas cidades de regiões metropolitanas, pague apenas um bilhete com pelo menos 25% de desconto na tarifa", afirmou. "Hoje, cerca de 2 milhões de pessoas circulam entre as cidades das regiões metropolitanas - 1,5 milhão na região da capital e 500 mil nas outras regiões do interior. O trabalhador paga em média R$ 13 por dia. Com o bilhete integrado único haverá uma redução de 25% nesse custo."

Questionado se pretendia aumentar ou manter as atuais tarifas de transporte, Padilha evitou uma resposta direta: "Temos que ser absolutamente responsáveis com isso. Dependendo da inflação e dos custos é que se vai estabelecer qual vai ser o reajuste."

Outra medida que Padilha pretende adotar, segundo suas declarações na entrevista, é a redução do ICMS que incide sobre combustíveis. "Isso vai permitir que as prefeituras possam reduzir os preços das passagens", afirmou. Ele disse que alguns Estados, como o Amazonas, já adotam essa medida. "O atual governo de São Paulo, porém, sempre foi contra."

Padilha prometeu ainda ampliar a malha metroferroviária até a região do ABC. "Nós vamos fazer em quatro anos o que eles estavam prometendo fazer até 2020 e agora passaram até 2030. Vou levar o metrô até o ABC, até Guarulhos, até Taboão da Serra e terminar a linha até a Brasilândia."

O petista disse que pretende adotar em São Paulo o sistema que o governo federal adotou na construção de aeroportos nos preparativos para a Copa do Mundo. "Queremos fazer o mesmo modelo de concessão."

Combate às drogas. Em relação ao problema do consumo de drogas, o ex-ministro da Saúde declarou que pretende estender para o Estado a experiência desenvolvida no centro de São Paulo pela administração do petista Haddad, denominada De Braços Abertos. "O programa ataca em duas frente, em parceria com o governo federal: por um lado, garante o tratamento que o doente merece; e, por outro, em operação integrada com as Polícias Civil e Militar, age para garantir autoridade, segurança pública, combate ao tráfico."

O candidato do PT não apoia mudanças legais com o objetivo de descriminalizar o uso de drogas. "Sou contra qualquer mudança na lei de drogas. Sempre defendi essa posição no período em que fui ministro da Saúde e das Relações Institucionais, porque a lei que existe no País permite separar claramente quem é traficante e quem é usuário. Para o usuário, como já disse, você tem que organizar serviços de saúde", afirmou. "Oferecer tratamento, aliviar o tratamento daquele indivíduo e de sua família é fundamental. A outra frente é ser implacável com o tráfico e o traficante."

Mais médicos. Sobre o programa federal Mais Médicos, criado quando era ministro da Saúde, Padilha negou que tivesse intenções eleitoreiras e rebateu as críticas de que não se preocupou com a baixa remuneração inicial dos médicos cubanos que vieram ao Brasil. "Como médico, o que mais me incomodava eram 50 milhões de brasileiros que não tinham médico em seu posto de saúde, o fato de 10 milhões de paulistas não terem médico no posto de saúde de seu bairro. Por isso criei o Mais Médicos", declarou. "Os meus adversários, que eram tão contra o programa, agora estão até com medo de falar que são contra."

Após mencionar que 300 municípios paulistas são beneficiados pelo programa, disse que pretende implantar no Estado o Mais Médicos Especialistas. "Demos um primeiro passo, extremamente corajoso, para garantir médicos na atenção básica - agora precisamos garantir pediatras, neurologistas, ortopedistas, cirurgiões, anestesias, ou seja o conjunto das especialidades que o povo do Estado ainda precisa, embora seja o estado mais rico do País."

Casos de Corrupção no metrô. A respeito da citação de seu nome em diálogos interceptados pela Operação Lava Jato, que investiga o esquema de lavagem de dinheiro do doleiro Alberto Youssef, o ex-ministro da Saúde disse que nunca chegou a ser firmado um contrato entre a pasta e o laboratório Labogen, suspeito de ser controlado pelo investigado, preso pela Polícia Federal: "Nunca existiu contrato. As denúncias iniciais não se sustentaram".

Em outro momento, indagado sobre o caso do deputado estadual Luiz Moura, que foi expulso do PT após vir a público suspeitas de ligação com a organização criminosa PCC, o Padilha respondeu que seu partido agiu de maneira rápida para expulsá-lo: "Foi uma decisão política da convenção. O PT foi rápido e vai sustentar a decisão caso seja questionada perante a Justiça". Essa rapidez, segundo Padilha, seria diferente do que ocorreu em relação ao cartel que atuou no setor de trens e metrô de São Paulo. "O PSDB jogou a corrupção de 15 anos de escândalos do metrô para debaixo do tapete."

"O que foi mais impressionante é que escolheu a raposa, o senhor Robson Marinho (suspeito de ter recebido propina da empresa francesa Alstom relacionada a contratos do setor energético), que hoje é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, para cuidar do galinheiro", disse. "O escândalo só apareceu porque autoridades internacionais, a Polícia Federal e o Cade fizeram apurações."

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