ANÁLISE: Expansão da estrutura partidária explica filiação em siglas pequenas

Os próprios pré-candidatos que querem concorrer se filiam ao partido e trazem outros filiados para apoiar sua nomeação nas convenções partidárias

Bruno Wilhelm Speck*, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 05h00

As pesquisas acadêmicas sobre a filiação partidária no Brasil são poucas e recentes. Temos dados sobre a filiação para pelo menos uma década e a porcentagem de eleitores filiados, algo em torno de dez porcento, é relativamente alta em comparação com outras democracias. O desafio é que não sabemos se estes dados são confiáveis e, se forem, o que significam. Há certo consenso que os dados sobre as novas filiações são mais confiáveis do que o registro de todos os filiados. Mas ainda não sabemos porque estes filiados entram nos partidos.

A principal informação sobre filiação partidária que temos no Brasil é a data da filiação. Do momento da entrada de novos filiados aos partidos conseguimos deduzir os possíveis motivos pela filiação: ideologia, oportunismo ou apoio interno. As filiações que ocorrem na fase quente da campanha eleitoral tipicamente podem ser interpretadas como adesão ideológica. O eleitor se junta ao partido porque acredita na mensagem dos partidos ou se empolga com os seus candidatos. Contrariamente, as filiações no início do ano pós eleitoral ocorrem por motivos mais oportunistas. Boa parte das filiações nesta época visam angariar um dos cargos de assessoria que os vencedores devem preenchem após a posse. Mas a massa das novas filiações nos partidos brasileiros ocorre bem antes da disputa eleitoral, tipicamente antes do prazo de filiação para concorrer para cargos eletivos. Este prazo era de um ano no mínimo, mas foi encurtado pela nova legislação. Estas filiações são motivadas pela disputa intra-partidária. Os próprios pré-candidatos que querem concorrer se filiam ao partido e trazem outros filiados para apoiar sua nomeação nas convenções partidárias. Estas são as conclusões do texto Nem ideológica, nem oportunista: A filiação partidária no contexto pré-eleitoral no Brasil que publiquei sobre o assunto.

Suspeito que em partidos pequenos como o PSL que tem um candidato popular disputando a Presidência este terceiro motivo seja responsável por grande parte das novas filiações. Sob o impacto da candidatura de Bolsonaro o partido deve lançar mais candidatos proporcionais e precisa criar estruturas partidárias em regiões onde até então não disputou. As novas filiações são consequência desta expansão da estrutura partidária, mas também da disputa interna em torno da nomeação desta massa de novos candidatos disputando a nomeação nas convenções.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

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